A melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem está entre as principais expectativas dos estudantes brasileiros em relação às escolas públicas. É o que aponta a pesquisa “O que os estudantes pensam sobre a Educação?”, realizada pelo Instituto Datafolha a pedido de um grupo de organizações ligadas à educação. O levantamento ouviu 5.296 alunos do ensino fundamental II e do ensino médio em diferentes regiões do país e apresenta um retrato das principais necessidades, percepções e desafios enfrentados pelos jovens no ambiente escolar.

De acordo com os dados, 22% dos estudantes consideram que melhorar o ensino e a aprendizagem deveria ser a principal prioridade dos governos estaduais para as escolas públicas. Outros 20% defendem que a infraestrutura das unidades de ensino receba atenção especial, com investimentos voltados à manutenção, às reformas e à melhoria dos espaços utilizados por alunos e profissionais.

Os resultados foram divulgados nesta quinta-feira (15) e fornecidos antecipadamente à CNN Brasil. A pesquisa foi encomendada pela Fundação Itaú, Fundação Lemann, Fundação Telefônica Vivo, Instituto Natura, Instituto Sonho Grande, Instituto Unibanco e Todos Pela Educação.

O levantamento evidencia que os estudantes reconhecem a importância de uma educação que ofereça condições adequadas para aprender, com professores presentes, aulas de qualidade, ambientes seguros e equipamentos capazes de acompanhar as necessidades atuais da formação escolar.

Mais do que apontar problemas, as respostas ajudam a compreender o que os próprios alunos esperam das políticas públicas e quais mudanças podem contribuir para melhorar sua experiência dentro das escolas.

Aprendizagem e valorização dos professores estão entre as prioridades

Entre os estudantes do ensino médio, as questões relacionadas à aprendizagem aparecem com destaque. Para aproximadamente um em cada quatro alunos dessa etapa, melhorar a qualidade do ensino é uma das necessidades mais importantes da rede pública.

As expectativas incluem contar com professores em número suficiente, reduzir as faltas dos profissionais e ter aulas mais dinâmicas, interessantes e diversificadas. Os estudantes também demonstram interesse por um ensino que facilite a compreensão dos conteúdos e contribua para a preparação para os próximos desafios acadêmicos e profissionais.

A percepção dos jovens reforça o papel dos professores no processo de aprendizagem. Além de transmitir conhecimentos, esses profissionais ajudam a identificar dificuldades, orientar os estudantes e criar condições para que diferentes alunos avancem em seu desenvolvimento.

Para Luana Smeets, gerente de Políticas Públicas do Todos Pela Educação, a atuação dos professores está diretamente relacionada à maneira como os estudantes avaliam suas escolas.

Segundo a especialista, 75% dos alunos que consideram a escola boa ou ótima também avaliam que os professores explicam bem os conteúdos. Entre aqueles que afirmam que os docentes não explicam adequadamente as matérias, a avaliação positiva da instituição cai para 48%.

Os números indicam uma associação entre a percepção sobre a qualidade das explicações em sala de aula e a avaliação geral da escola. Embora esses dados não comprovem, isoladamente, uma relação direta de causa e efeito, eles demonstram a relevância da experiência de aprendizagem para a satisfação dos estudantes.

A pesquisa também destaca a necessidade de oferecer condições adequadas de trabalho aos professores, com apoio pedagógico, formação continuada e estrutura para desenvolver atividades que atendam às diferentes necessidades das turmas.

Infraestrutura também preocupa os alunos

Enquanto os estudantes do ensino médio dão destaque às questões de aprendizagem, os alunos do ensino fundamental II demonstram preocupação com a estrutura física e tecnológica das escolas.

Entre os pontos mencionados estão a manutenção dos prédios, a realização de reformas e a disponibilidade de ambientes adequados para as atividades escolares. O acesso à internet, a computadores e a outros equipamentos também aparece entre as demandas dos estudantes.

A infraestrutura é um componente importante da educação porque influencia as condições em que as aulas são realizadas. Salas bem conservadas, espaços apropriados para atividades pedagógicas e recursos tecnológicos disponíveis podem contribuir para uma rotina escolar mais organizada e produtiva.

Problemas estruturais, por outro lado, podem dificultar o desenvolvimento das atividades e limitar as oportunidades de aprendizagem. A ausência de equipamentos ou a dificuldade de acesso à internet também pode comprometer o uso de recursos digitais que complementam os conteúdos apresentados pelos professores.

As respostas mostram que os investimentos em educação precisam considerar tanto a qualidade do ensino quanto as condições materiais oferecidas aos estudantes. Melhorar apenas um desses aspectos pode não ser suficiente para atender às expectativas da comunidade escolar.

Maioria avalia positivamente as escolas públicas

Apesar dos desafios apontados, a pesquisa apresenta um dado positivo sobre a percepção dos estudantes em relação às instituições onde estudam.

De acordo com o levantamento, 69% dos entrevistados classificam suas escolas como boas ou ótimas. Apenas 5% avaliam as unidades como ruins ou péssimas.

O resultado demonstra que uma parcela expressiva dos estudantes reconhece aspectos positivos da experiência escolar. A convivência com colegas, o relacionamento com professores e a participação nas atividades educacionais podem contribuir para essa avaliação.

No entanto, a interpretação dos números exige cautela. Uma avaliação positiva da escola não significa que todos os problemas estejam resolvidos ou que os estudantes tenham acesso às mesmas oportunidades de aprendizagem.

Luana Smeets ressalta que é importante valorizar a percepção dos alunos sem deixar de considerar as dificuldades existentes e as desigualdades que afetam a educação brasileira.

Nesse sentido, ouvir os estudantes pode ajudar gestores públicos e profissionais da educação a identificar o que funciona bem e quais áreas precisam de melhorias.

Indisciplina e bullying estão entre os principais problemas

Ao serem questionados sobre as dificuldades presentes no cotidiano escolar, os estudantes apontaram situações relacionadas ao comportamento, à convivência e às condições de ensino.

A indisciplina aparece como o problema mais citado: 40% dos entrevistados afirmaram que estudantes indisciplinados atrapalham as aulas. Em seguida, 33% mencionaram episódios de bullying, humilhações ou discriminação. O mesmo percentual apontou problemas com internet, computadores ou equipamentos.

A falta de professores ou as ausências frequentes dos profissionais foram mencionadas por 27% dos alunos. Já 24% consideraram as aulas pouco interessantes.

Outros 18% citaram a falta de apoio para estudantes com dificuldades de aprendizagem, a baixa qualidade da merenda, a infraestrutura inadequada e a ausência de suporte à saúde mental.

Os dados mostram que os desafios da educação não se limitam ao conteúdo ensinado em sala de aula. A convivência, o bem-estar emocional, a alimentação e as condições de funcionamento das escolas também fazem parte da experiência dos estudantes.

O bullying, por exemplo, pode prejudicar a sensação de segurança e pertencimento, afetando a participação nas aulas e a relação dos alunos com a comunidade escolar. Já a indisciplina pode comprometer o andamento das atividades e dificultar a concentração de toda a turma.

Gestão escolar e acolhimento são fundamentais

Para enfrentar esses problemas, a pesquisa reforça a importância de uma atuação conjunta entre professores, diretores, equipes pedagógicas, famílias e órgãos responsáveis pelas políticas educacionais.

Na avaliação de Luana Smeets, é necessário fortalecer a gestão da sala de aula, estabelecer regras de convivência e oferecer apoio aos professores diante das situações que surgem no cotidiano escolar.

A especialista também destaca a importância de desenvolver ações preventivas de acolhimento e mediação de conflitos, evitando que a responsabilidade por resolver todos os problemas recaia exclusivamente sobre os docentes.

Medidas como o combate ao bullying, a criação de canais de escuta, a orientação aos estudantes e o acompanhamento de casos de dificuldade de aprendizagem podem contribuir para um ambiente mais respeitoso e favorável ao desenvolvimento.

O apoio à saúde mental também merece atenção, já que dificuldades emocionais podem interferir na participação, na concentração e no rendimento escolar. A atuação de profissionais capacitados e a articulação com os serviços de apoio disponíveis são importantes para atender situações que ultrapassam as possibilidades da sala de aula.

Pesquisa destaca a importância de ouvir os estudantes

Os resultados do Datafolha mostram que os alunos têm expectativas claras sobre o futuro da educação pública. Eles querem aprender mais, contar com professores presentes e preparados, estudar em ambientes bem conservados e ter acesso a recursos que facilitem o aprendizado.

Ao mesmo tempo, apontam problemas de convivência que exigem respostas consistentes das escolas e das redes de ensino.

O desafio dos governos estaduais será transformar essas demandas em ações concretas, conciliando investimentos em infraestrutura, valorização dos profissionais, melhoria das práticas pedagógicas e fortalecimento das políticas de convivência e acolhimento.

A pesquisa oferece informações importantes para orientar esse debate, ao colocar a perspectiva dos estudantes no centro da discussão sobre a qualidade da educação.

Garantir uma escola pública de qualidade exige mais do que ampliar vagas ou manter unidades em funcionamento. É necessário assegurar que os alunos encontrem condições para aprender, desenvolver suas capacidades e construir perspectivas para o futuro.

Os dados mostram que os próprios estudantes reconhecem o valor da escola pública, mas também esperam avanços. Ouvir essas vozes e considerar suas experiências pode ser um passo importante para construir políticas educacionais mais próximas das necessidades reais de quem vive a escola todos os dias.