Mais de 80% dos médicos da Paraíba já sofreram algum tipo de violência durante o exercício da profissão. O dado faz parte de uma pesquisa realizada pelo Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB), em 2025, e evidencia um problema que preocupa profissionais de saúde e entidades representativas da categoria: a exposição a ameaças, agressões e situações de hostilidade dentro dos ambientes de atendimento.
O levantamento foi divulgado nesta segunda-feira (19), em João Pessoa, durante o lançamento do aplicativo Observatório da Violência contra o Médico. A ferramenta foi desenvolvida para centralizar informações sobre ocorrências, identificar as circunstâncias em que os episódios acontecem e contribuir para o planejamento de medidas de prevenção.
A iniciativa pretende transformar os registros em informações úteis para compreender melhor a realidade enfrentada pelos médicos no estado. Com dados organizados sobre os locais e as características das agressões, a expectativa é ajudar as instituições responsáveis a identificar situações de risco e desenvolver estratégias para proteger os profissionais.
O problema, no entanto, vai além da segurança individual dos trabalhadores. Quando um médico precisa lidar com ameaças ou agressões durante o atendimento, o ambiente assistencial também pode ser afetado, comprometendo as condições necessárias para que pacientes recebam cuidados com tranquilidade e segurança.
Violência preocupa profissionais de saúde em todo o Brasil
A realidade observada na Paraíba faz parte de um cenário mais amplo de violência em unidades de saúde brasileiras. De acordo com os dados citados durante a divulgação da iniciativa, mais de 4,5 mil boletins de ocorrência relacionados a crimes cometidos dentro de estabelecimentos de saúde foram registrados no Brasil em 2024.
O número reforça a necessidade de ampliar a compreensão sobre o problema e aprimorar os mecanismos de proteção nos serviços de atendimento. Embora os registros policiais não representem necessariamente todas as ocorrências, eles ajudam a dimensionar a existência de episódios que exigem atenção das autoridades e das instituições de saúde.
Hospitais, clínicas e unidades de pronto atendimento são espaços destinados ao cuidado de pessoas que, muitas vezes, chegam em condições de vulnerabilidade, sofrimento ou preocupação. Nesse contexto, familiares e pacientes podem enfrentar momentos de tensão, especialmente diante da demora no atendimento, da falta de informações ou das dificuldades estruturais do sistema.
Essas situações, porém, não justificam ameaças ou agressões contra os trabalhadores. Os profissionais que atuam na linha de frente precisam ter condições adequadas para exercer suas funções, sem que a preocupação com a própria integridade física se torne parte da rotina.
A violência também pode gerar consequências para as equipes, como insegurança no ambiente de trabalho e dificuldades para manter uma relação de confiança entre profissionais, pacientes e familiares. Por isso, o enfrentamento do problema exige medidas que envolvam prevenção, acolhimento, apuração das denúncias e responsabilização quando cabível.
Novo aplicativo pretende mapear ocorrências na Paraíba
O lançamento do Observatório da Violência contra o Médico representa uma tentativa de organizar informações que podem contribuir para o enfrentamento das agressões. Disponível para dispositivos Android e iOS, o aplicativo busca centralizar denúncias e reunir dados sobre os episódios registrados.
A proposta é identificar onde as ocorrências acontecem, quais são as circunstâncias envolvidas e quais situações aparecem com maior frequência. Com essas informações, o CRM-PB pretende contribuir para um diagnóstico mais preciso da violência contra médicos no estado.
Durante o lançamento, o Conselho destacou que conhecer as características dos casos é uma etapa importante para orientar ações de combate. A identificação de locais com maior incidência de ocorrências, por exemplo, pode ajudar as instituições a avaliar a necessidade de reforçar medidas preventivas e aprimorar os protocolos de segurança.
O registro organizado também pode favorecer uma análise mais consistente do problema ao longo do tempo. Em vez de considerar cada agressão como um episódio isolado, a reunião das informações permite procurar padrões e compreender quais fatores estão associados às situações de risco.
Para que a iniciativa produza resultados concretos, entretanto, será importante que os dados coletados sejam utilizados no planejamento de ações, na avaliação das medidas adotadas e no acompanhamento dos resultados. A existência de uma ferramenta de denúncia representa um passo na organização das informações, mas precisa estar acompanhada de respostas institucionais.
Especialista alerta para os riscos à assistência
Raul Canal, advogado especialista em Direito Médico e presidente da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética (Anadem), afirma que a violência contra profissionais de saúde ameaça as condições necessárias para a prestação de assistência.
“É inadmissível que alguém entre em um hospital ou em uma unidade de saúde para cuidar de uma pessoa e tenha de se preocupar também com a própria integridade física”, declarou.
Para o especialista, os efeitos das agressões ultrapassam a pessoa diretamente atingida. Quando o ambiente de atendimento passa a ser marcado pelo medo e pela hostilidade, a segurança de todos os envolvidos pode ficar comprometida.
O profissional de saúde precisa exercer suas atividades com condições adequadas, enquanto o paciente deve encontrar um ambiente que favoreça o acolhimento e a prestação de cuidados. A violência prejudica essa relação e acrescenta um fator de risco a locais que deveriam priorizar a proteção da vida.
Raul Canal também defende que a coleta de informações seja acompanhada de medidas efetivas.
“Não basta lamentar cada novo caso e esperar pela próxima agressão. É preciso saber onde acontece, quem são as vítimas, quais são as circunstâncias e, principalmente, o que será feito a partir dessas informações”, destacou.
Na avaliação do advogado, sem prevenção, investigação e responsabilização quando necessária, o levantamento de dados corre o risco de não produzir os efeitos esperados.
Insatisfação com o atendimento não justifica agressões
Outro ponto ressaltado por Raul Canal é a necessidade de proteger médicos e pacientes sem tratar esses direitos como interesses incompatíveis.
O especialista afirma que o paciente tem direito a um atendimento digno, enquanto o profissional deve poder trabalhar sem sofrer ameaças ou agressões. As duas garantias precisam ser preservadas, mesmo em situações nas quais o serviço enfrenta dificuldades.
A demora para conseguir uma consulta, a espera por exames, a falta de recursos e outros problemas estruturais podem gerar frustração e preocupação entre pacientes e familiares. Essas dificuldades precisam ser discutidas e enfrentadas pelas instituições responsáveis, por meio de melhorias na organização dos serviços e nas condições de atendimento.
Entretanto, direcionar a insatisfação contra médicos e outros trabalhadores não resolve essas questões. Muitas vezes, os profissionais que estão diante do paciente também enfrentam limitações relacionadas à estrutura, à disponibilidade de equipes e aos recursos oferecidos pelo sistema.
“Violência não resolve a crise da saúde; apenas acrescenta mais um problema a ela”, afirmou Raul Canal.
A declaração reforça a importância de estabelecer canais adequados para reclamações, garantir informações claras aos usuários e oferecer mecanismos para resolver conflitos antes que eles evoluam para situações de ameaça ou agressão.
Prevenção depende de ações conjuntas
O enfrentamento da violência contra médicos exige a participação de diferentes setores. Conselhos profissionais, gestores públicos, instituições privadas, autoridades policiais e responsáveis pela administração das unidades de saúde podem contribuir para a construção de ambientes mais seguros.
Entre as medidas que podem ser avaliadas estão o aprimoramento dos protocolos de segurança, a capacitação das equipes para lidar com conflitos, a melhoria da comunicação com pacientes e familiares e o estabelecimento de procedimentos claros para registrar e apurar denúncias.
Também é importante que os profissionais atingidos recebam orientação sobre como comunicar as ocorrências e buscar apoio. A resposta institucional deve considerar a gravidade de cada situação e respeitar os procedimentos legais aplicáveis.
Na Paraíba, o aplicativo Observatório da Violência contra o Médico surge como uma ferramenta para ampliar a organização das informações e apoiar o planejamento de medidas preventivas. A efetividade da iniciativa dependerá, entre outros fatores, da qualidade dos registros, da análise dos dados e das providências adotadas a partir dos resultados.
O índice superior a 80% apresentado pelo CRM-PB mostra a dimensão da preocupação entre os médicos ouvidos pela pesquisa de 2025. Mais do que um número, o dado chama a atenção para a necessidade de garantir que os profissionais possam trabalhar com segurança e que os pacientes encontrem ambientes preparados para oferecer atendimento digno.
O desafio agora é transformar o diagnóstico em ações concretas. Reduzir a violência nas unidades de saúde significa proteger quem presta assistência, preservar os direitos dos pacientes e fortalecer as condições para que o cuidado aconteça de maneira segura, respeitosa e humanizada.







