O Brasil enfrenta um desafio que pode comprometer o futuro da educação básica: a redução do interesse pela carreira docente e a dificuldade de atrair e manter profissionais nas salas de aula. Projeções do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior de São Paulo (Semesp) indicam que o país poderá enfrentar um déficit de até 235 mil professores na educação básica até 2040. O cenário tem provocado discussões sobre a necessidade de valorizar os educadores, melhorar a formação profissional e tornar a carreira mais atrativa para as novas gerações.

A preocupação vai além da quantidade de professores disponíveis. Pesquisas recentes também apontam dificuldades na formação inicial, insatisfação com os salários e condições de trabalho que podem contribuir para o afastamento de profissionais da área. Para especialistas, reverter esse quadro exige medidas articuladas entre governos, instituições de ensino e redes escolares.

A discussão ganhou força em outubro, especialmente após o Dia dos Professores, celebrado no dia 15. A data, além de homenagear quem atua na educação, também trouxe atenção para os desafios enfrentados por uma categoria essencial à formação de crianças, adolescentes e jovens.

O chamado “apagão de professores” representa o risco de o país não conseguir formar e manter profissionais em número suficiente para atender às necessidades das escolas. Caso as dificuldades atuais persistam, a falta de docentes poderá afetar a organização das redes de ensino, ampliar desigualdades educacionais e dificultar a aprendizagem dos estudantes.

Menos estudantes com alto desempenho escolhem a licenciatura

Um dos sinais de alerta está no perfil dos estudantes que ingressam nos cursos de licenciatura, responsáveis pela formação de professores para diferentes etapas e disciplinas da educação básica.

Segundo o Anuário Brasileiro de Educação Básica 2026, divulgado em setembro, a participação de estudantes com melhores resultados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) entre os ingressantes nesses cursos diminuiu nos últimos anos.

Em 2020, 22,7% dos novos estudantes de licenciatura estavam entre os 20% com maiores notas no exame. Em 2023, esse percentual caiu para 14%, o menor índice da série iniciada em 2018. Em 2024, houve uma recuperação discreta, para 14,7%.

Os números reforçam a preocupação com a capacidade de atrair jovens para a docência, embora o desempenho no Enem, isoladamente, não determine a qualidade de um futuro professor.

Para especialistas, o desafio consiste em fazer com que a carreira seja percebida como uma escolha profissional valorizada, com oportunidades de desenvolvimento, remuneração adequada e condições para exercer o trabalho com qualidade.

Bárbara Born, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, observa que a composição da força de trabalho docente brasileira também precisa ser considerada. Segundo ela, parte dos estudantes chega à licenciatura depois de outras experiências acadêmicas ou profissionais, o que ajuda a explicar a presença de pessoas mais velhas nesses cursos.

Por isso, a análise do cenário exige observar não apenas quantos estudantes ingressam na formação docente, mas também quem escolhe essa trajetória, quais são suas motivações e quais condições encontra para permanecer na profissão.

Saída de professores preocupa especialistas

Outro dado que chama a atenção está relacionado à saída de profissionais da educação. De acordo com a pesquisa Panorama da Educação, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgada no fim de setembro, 10,3% dos professores brasileiros plenamente qualificados do ensino fundamental e médio deixaram a profissão em 2022.

O indicador reúne diferentes motivos de saída, incluindo aposentadorias, pedidos de demissão e mudanças de função. Portanto, não significa necessariamente que todos esses profissionais tenham abandonado definitivamente a docência.

Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura Brasil, ressalta a importância de interpretar os dados considerando essas diferenças. Mesmo assim, a movimentação exige atenção, principalmente quando as redes de ensino precisam substituir profissionais experientes e, ao mesmo tempo, preparar novos educadores.

Gisele Pinheiro, diretora do Singularidades e especialista em formação de professores, também considera preocupante a desistência da carreira por motivos que não estão relacionados à aposentadoria natural.

Quando professores deixam as salas de aula e a reposição não acontece na mesma velocidade, as escolas podem enfrentar dificuldades para preencher vagas e organizar suas equipes. Em determinadas disciplinas, a situação pode ser ainda mais delicada quando há poucos profissionais interessados em seguir a carreira.

O desafio, portanto, não se limita a formar mais professores. Também é necessário criar condições para que aqueles que escolheram a docência consigam permanecer na profissão.

Formação inicial também está no centro do debate

A qualidade da formação dos futuros professores é outro ponto importante. Dados referentes ao Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) de 2025 indicam que apenas 20,2% dos concluintes dos cursos de licenciatura avaliados alcançaram o nível considerado adequado. Outros 42,2% ficaram abaixo do nível básico.

A diferença também aparece quando os resultados são analisados de acordo com a modalidade de ensino. Entre estudantes de licenciaturas a distância, 53,1% ficaram abaixo do nível básico, enquanto o percentual foi de 26,1% entre os alunos de cursos presenciais.

Os dados não significam que todo curso a distância tenha baixa qualidade ou que a modalidade presencial garanta, por si só, uma formação melhor. Entretanto, apontam a necessidade de avaliar a qualidade dos programas, a experiência prática dos estudantes e o domínio dos conhecimentos necessários para ensinar.

Bárbara Born chama atenção para a expansão da formação a distância, especialmente nos cursos de Pedagogia. Para a especialista, é necessário verificar se os futuros docentes estão recebendo conhecimentos consistentes e oportunidades suficientes para desenvolver as competências exigidas em sala de aula.

Gisele Pinheiro destaca que o trabalho de formação não deve terminar com a conclusão da graduação. O acompanhamento dos profissionais, a formação continuada e o apoio pedagógico são importantes para que os professores consigam lidar com a diversidade de situações encontradas nas escolas.

Ensinar exige domínio do conteúdo, planejamento, capacidade de comunicação e preparação para responder às diferentes necessidades dos estudantes. Sem suporte adequado, o início da carreira pode se tornar um período especialmente difícil.

Salários e condições de trabalho influenciam a permanência

A atratividade da profissão também está diretamente relacionada à remuneração e às condições oferecidas pelas redes de ensino.

Segundo os dados do Panorama da Educação da OCDE citados no debate, apenas 22,3% dos professores brasileiros demonstraram satisfação com seus salários, em comparação com 38,7% na média internacional apresentada pelo levantamento. Em relação às condições gerais de trabalho, o índice brasileiro foi de 44,3%, diante de 68,4% na média da OCDE.

A insatisfação pode afetar tanto a decisão de ingressar na profissão quanto a permanência daqueles que já trabalham nas escolas.

Uma pesquisa nacional intitulada “O que a população pensa sobre a educação — 2026”, realizada pelo Instituto Ideia e encomendada por organizações ligadas à área educacional, apontou que 53% dos brasileiros defendem salários maiores para professores. A remuneração apareceu como a principal prioridade entre os temas relacionados à valorização docente.

Para Maria Slemenson, entretanto, aumentar os salários não é suficiente. A valorização precisa incluir planos de carreira atrativos, melhores condições de trabalho, fortalecimento da gestão escolar e oportunidades permanentes de desenvolvimento profissional.

Bárbara Born também chama atenção para a composição da remuneração. Segundo ela, a presença de bonificações e adicionais em determinadas redes pode gerar insegurança sobre os ganhos efetivos, especialmente quando a renda depende da jornada de trabalho assumida a cada ano.

A possibilidade de construir uma trajetória profissional previsível, com remuneração estável e perspectivas de crescimento, é considerada importante para tornar a docência uma opção competitiva diante de outras carreiras que exigem formação superior.

Violência e indisciplina também afetam o cotidiano escolar

Além da remuneração, o ambiente de trabalho influencia a decisão de permanecer na profissão. Professores enfrentam desafios relacionados à indisciplina, à sobrecarga de tarefas e, em alguns casos, a comportamentos agressivos dentro das escolas.

Levantamentos sobre a percepção de estudantes da rede pública apontam a indisciplina como um dos problemas presentes no cotidiano escolar. Especialistas destacam que a questão não se resume à falta de atenção durante as aulas: em determinadas situações, envolve conflitos e comportamentos violentos entre estudantes ou contra profissionais da educação.

A construção de ambientes seguros exige participação de gestores, famílias, professores e poder público. Medidas de prevenção à violência, regras claras de convivência, acompanhamento dos estudantes e apoio às equipes escolares podem contribuir para melhorar as relações dentro das instituições.

Também é necessário reduzir tarefas burocráticas que afastam os docentes do planejamento e do acompanhamento pedagógico. Quanto mais tempo o professor consegue dedicar ao ensino e à interação com os alunos, melhores são as condições para desenvolver seu trabalho.

O que pode ser feito para evitar o apagão de professores?

Para os especialistas, enfrentar a possível escassez exige uma estratégia de longo prazo, que combine formação de qualidade, valorização profissional e melhores condições de atuação.

Entre as medidas consideradas importantes estão:

  • Remuneração adequada: garantir salários competitivos e maior previsibilidade financeira.
  • Planos de carreira: oferecer perspectivas de crescimento e reconhecimento profissional.
  • Formação inicial de qualidade: fortalecer a relação entre teoria, prática e realidade das escolas.
  • Acompanhamento no início da carreira: proporcionar orientação e apoio aos professores recém-formados.
  • Formação continuada: assegurar oportunidades de atualização e aperfeiçoamento ao longo da trajetória profissional.
  • Ambientes escolares seguros: prevenir a violência, enfrentar a indisciplina e apoiar os educadores.
  • Menos burocracia: reduzir tarefas administrativas que prejudicam o planejamento das aulas.
  • Jornadas mais integradas: favorecer, quando possível, a atuação em uma única escola, ampliando a colaboração entre professores e equipes pedagógicas.

Maria Slemenson destaca que a fragmentação da jornada, quando o docente precisa trabalhar em várias escolas, pode dificultar a construção de vínculos com os estudantes e a participação na rotina escolar. Uma jornada mais integrada pode facilitar o planejamento, a colaboração entre colegas e o acompanhamento da aprendizagem.

Bárbara Born acrescenta que melhorar as condições de atuação dos profissionais que já estão em sala de aula é essencial para despertar o interesse das novas gerações. Quando os jovens observam professores respeitados, satisfeitos e com possibilidades de crescimento, a carreira pode se tornar mais atraente.

Valorizar o professor é investir no futuro da educação

A possibilidade de um déficit de até 235 mil professores até 2040 representa um alerta para o planejamento educacional brasileiro. Embora projeções não sejam um resultado inevitável, elas indicam a importância de agir antes que a falta de profissionais comprometa o atendimento das escolas.

A solução não depende de uma única medida nem pode ser construída apenas com a abertura de novas vagas em cursos de licenciatura. É necessário garantir que os futuros professores recebam formação adequada e encontrem condições para desenvolver uma carreira sustentável.

Valorizar quem ensina significa reconhecer que a qualidade da educação depende também das pessoas responsáveis por transformar conteúdos em aprendizagem, orientar estudantes e contribuir para o desenvolvimento da sociedade.

O enfrentamento desse desafio exige compromisso contínuo de governos, instituições formadoras, gestores escolares e comunidade. Afinal, assegurar professores em quantidade suficiente e com boa formação é uma condição fundamental para ampliar oportunidades e reduzir desigualdades educacionais no Brasil.