Gadi Eisenkot, de 66 anos, tornou-se uma das principais figuras de oposição ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu na disputa pelas eleições legislativas de Israel. Ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o candidato construiu sua trajetória entre a carreira militar e a política, apresentando-se como uma alternativa ao modelo de governo que domina o cenário israelense há décadas.
Em seu último comício de campanha, realizado no domingo, 25 de outubro, Eisenkot fez um apelo à união nacional e defendeu uma mudança na condução do país. Diante de apoiadores, afirmou que seu objetivo não é fazer com que um grupo prevaleça sobre o outro, mas reconstruir a confiança entre os israelenses, independentemente de suas escolhas políticas.
O discurso foi marcado por promessas de transparência, fortalecimento das instituições democráticas e maior responsabilidade do Estado. Ao criticar a permanência de Netanyahu no poder, o candidato declarou que o primeiro-ministro deveria deixar o cargo após as eleições e afirmou que o desejo de mudança estaria crescendo entre os eleitores.
A campanha de Eisenkot ocorre em um momento de forte polarização política, insegurança e desgaste institucional em Israel. Sua proposta busca alcançar cidadãos insatisfeitos com os conflitos internos e com a condução do governo, embora suas posições sobre a questão palestina e a segurança militar mantenham pontos de continuidade com a política adotada pela atual administração.
Da origem humilde ao comando das Forças Armadas
Nascido em uma família de origem marroquina, Eisenkot construiu uma carreira marcada pela disciplina militar e pela ascensão dentro da estrutura de defesa israelense. Sua trajetória começou na Brigada Golani, uma das unidades de infantaria mais conhecidas do Exército de Israel, com histórico de operações militares, inclusive no Líbano.
Ao longo dos anos, ocupou diferentes funções de comando e ganhou experiência em planejamento estratégico e operações de segurança. Em 2015, chegou ao posto mais alto da hierarquia militar ao ser nomeado o 21º chefe do Estado-Maior das Forças Armadas israelenses.
A nomeação ocorreu durante o governo de Benjamin Netanyahu, que anos depois se tornaria seu principal adversário político. A relação entre os dois passou, assim, de uma conexão institucional para uma disputa sobre os rumos do país.
A experiência militar é um dos principais elementos da imagem pública de Eisenkot. Para seus apoiadores, o histórico de comando representa familiaridade com os desafios de segurança enfrentados por Israel. Ao mesmo tempo, sua passagem pelas Forças Armadas também ajuda a explicar por que suas propostas permanecem centradas na defesa nacional e no enfrentamento de grupos armados.
Entrada na política e aproximação com Netanyahu
Eisenkot ingressou formalmente na política em 2022, quando se juntou à aliança de centro liderada por Benny Gantz, seu antecessor no comando militar. Naquele ano, foi eleito para o Knesset, o Parlamento israelense, iniciando uma nova etapa de sua trajetória pública.
A mudança ganhou maior relevância após os ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023, que provocaram milhares de mortes, desencadearam uma nova fase da guerra em Gaza e aprofundaram a crise de segurança israelense.
Diante da gravidade dos acontecimentos, Eisenkot decidiu integrar o governo de unidade nacional de Netanyahu, em nome da cooperação entre diferentes forças políticas durante a emergência. Como ministro sem pasta, passou a participar do gabinete de guerra, grupo responsável por decisões relacionadas à campanha militar em Gaza.
Foi nesse período que enfrentou uma das experiências mais dolorosas de sua vida. Seu filho mais novo, Gal Meir Eisenkot, de 25 anos, morreu enquanto servia como reservista na Faixa de Gaza.
A perda pessoal ocorreu em meio à participação direta do pai nas decisões sobre a guerra. O episódio evidenciou o impacto humano do conflito, que atingiu famílias israelenses e palestinas, com consequências profundas para comunidades inteiras.
Em junho de 2024, Eisenkot deixou o governo. Ele acusou Netanyahu de prejudicar deliberadamente as negociações para a libertação dos reféns mantidos em Gaza, argumentando que o primeiro-ministro havia cedido às pressões de aliados da direita radical. Essas declarações refletem a avaliação política do próprio Eisenkot sobre a condução das negociações.
Em 2025, fundou o partido Yashar, nome que pode ser traduzido como “direto ao ponto”. A legenda passou a representar sua tentativa de construir uma alternativa política com ênfase na segurança, na administração pública e na mudança institucional.
Segurança nacional e propostas para Israel
Apesar de sua experiência militar e da popularidade atribuída ao seu nome, Eisenkot ainda possui uma trajetória política relativamente curta. Suas propostas combinam críticas ao funcionamento do governo Netanyahu com posições firmes sobre defesa e território.
O candidato promete derrotar militarmente o Hamas em até 18 meses, caso seja eleito. Também se opõe à criação de um Estado palestino e apoia a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, territórios ocupados por Israel e palco de disputas históricas.
Os assentamentos são considerados ilegais pelo direito internacional, posição sustentada por organismos internacionais e contestada pelo governo israelense em diferentes aspectos jurídicos e políticos. A expansão dessas comunidades permanece entre os principais obstáculos às negociações de paz e à construção de uma solução duradoura para o conflito.
Por outro lado, Eisenkot afirma que pretende combater a impunidade de colonos israelenses envolvidos em ataques contra civis palestinos. A proposta busca associar a segurança nacional ao cumprimento da lei, embora sua aplicação dependa de medidas concretas, investigações e decisões das autoridades competentes.
No campo institucional, o candidato defende a revogação da reforma judicial promovida pelo governo Netanyahu, iniciativa que provocou protestos e uma ampla mobilização social em Israel. Seus críticos afirmam que a reforma enfraquece os mecanismos de controle sobre o Executivo, enquanto seus defensores argumentam que ela busca reequilibrar os poderes do Estado.
Eisenkot também propõe a criação de uma comissão de investigação sobre as falhas que permitiram os ataques de 7 de outubro de 2023. A iniciativa tem como objetivo esclarecer responsabilidades e apurar como o sistema de segurança israelense foi surpreendido por uma ofensiva de grandes proporções.
Outro tema central é a isenção do serviço militar concedida a setores da população judaica ultraortodoxa. Eisenkot defende o fim desse benefício, uma questão que há anos alimenta disputas políticas e sociais sobre igualdade de obrigações, religião e defesa nacional.
Um candidato diante de uma sociedade dividida
A origem familiar de Eisenkot também tem significado simbólico. Filho de imigrantes marroquinos e de origem sefardita, ele representa uma parcela importante da diversidade histórica da sociedade israelense. Caso seja eleito primeiro-ministro, poderá se tornar o primeiro chefe de governo sefardita do país, segundo o enquadramento apresentado por sua campanha.
A possibilidade tem relevância em uma sociedade formada por comunidades com diferentes origens culturais, tradições religiosas e experiências migratórias. Entretanto, sua identidade não elimina as divergências em torno de suas propostas, especialmente na questão palestina e no futuro dos territórios ocupados.
A promessa de reunificação nacional é um dos eixos centrais de sua candidatura. Eisenkot afirma que Israel precisa superar a disputa permanente entre grupos políticos e recuperar a confiança nas instituições. Seu desafio será demonstrar como esse compromisso poderá se traduzir em políticas públicas diante de diferenças profundas sobre segurança, religião, justiça e relações com os palestinos.
Eleições e o desafio de formar uma coalizão
O sistema parlamentar israelense exige que o primeiro-ministro consiga apoio suficiente no Knesset para formar e sustentar um governo. Por isso, terminar a votação com o maior número de cadeiras não garante, por si só, a chegada ao poder.
De acordo com uma pesquisa do canal i24NEWS, realizada pelo instituto Direct Polls e divulgada no domingo, 25 de outubro, o bloco liderado por Netanyahu aparecia com 59 das 120 cadeiras do Parlamento. A aliança encabeçada por Eisenkot tinha projeção de 47 assentos, enquanto os partidos árabes somavam estimados 14.
Os números indicavam um cenário fragmentado, no qual as negociações entre partidos poderiam ser decisivas. As projeções representam uma fotografia da intenção de voto no período da pesquisa e não devem ser confundidas com resultados oficiais das eleições.
Para Eisenkot, a disputa vai além da substituição de um primeiro-ministro. Sua campanha procura estabelecer uma nova relação entre o governo, as instituições e uma população submetida a anos de tensão política e confrontos armados.
A promessa de mudança, entretanto, terá de enfrentar obstáculos concretos: a formação de uma maioria parlamentar, a condução da guerra, a situação dos reféns, a economia e as divergências sobre o futuro dos palestinos.
No fim, a eleição colocará em debate não apenas quem comandará Israel, mas também quais prioridades orientarão o país nos próximos anos. Entre segurança, responsabilização política e reconstrução da confiança pública, o resultado dependerá da capacidade dos partidos de transformar suas propostas em uma maioria capaz de governar uma sociedade profundamente dividida.















