A recuperação de uma economia nem sempre significa uma vida melhor para quem depende do salário, administra um pequeno negócio ou precisa escolher quais despesas cabem no orçamento familiar. Em diferentes países emergentes, governos comemoram avanços nos indicadores econômicos, enquanto uma parcela significativa da população continua enfrentando dificuldades para comprar alimentos, pagar contas e manter o padrão de vida.

Essa contradição aparece com clareza na Argentina, onde as reformas implementadas pelo presidente Javier Milei desde que assumiu o governo, em dezembro de 2023, contribuíram para uma mudança importante no cenário macroeconômico, mas também impuseram custos a famílias e empresas. A experiência argentina reflete um desafio observado em outras economias em desenvolvimento: como recuperar a estabilidade financeira sem ampliar as dificuldades sociais?

O comerciante Gustavo Raul Perez conhece esse dilema de perto. Proprietário de uma loja de materiais de construção nos arredores de Buenos Aires, ele apoiou Milei nas eleições, acreditando que as mudanças econômicas poderiam melhorar o futuro do país. Depois de anos de instabilidade, porém, sua rotina continua marcada pelo aumento das despesas e pela redução do poder de compra dos clientes.

“Este plano econômico é para poucos”, afirma Perez, ao descrever as dificuldades enfrentadas pelo negócio.

Segundo o relato apresentado, a inflação argentina caiu de níveis próximos de 300% para aproximadamente 33%, enquanto as importações foram ampliadas e os subsídios públicos, reduzidos. Apesar desses avanços, o comerciante afirma que o custo de recompor os estoques de sua loja triplicou e que seus clientes passaram a gastar menos.

“Havia uma classe média três anos atrás. Ela não existe mais”, diz.

A declaração traduz uma percepção importante: mesmo quando os índices econômicos melhoram, os benefícios podem demorar a chegar às famílias e aos pequenos empreendedores.

Por que a recuperação econômica não chega a todos?

Para compreender essa diferença, é necessário distinguir os indicadores macroeconômicos das condições cotidianas da população.

A inflação mede a velocidade com que os preços aumentam. Quando ela diminui, isso não significa necessariamente que os produtos ficaram mais baratos. Significa, em geral, que os preços passaram a subir em ritmo menor.

Assim, uma família que já enfrenta alimentos, energia, transporte e aluguel mais caros pode continuar sentindo dificuldades mesmo depois de uma desaceleração inflacionária. Se a renda não acompanha os aumentos acumulados, o orçamento permanece pressionado.

Outro fator é a redução dos subsídios. Quando o governo deixa de subsidiar combustíveis, energia ou transporte, parte do custo anteriormente absorvido pelo Estado pode ser transferida para consumidores e empresas.

As consequências variam conforme a estrutura de cada economia. O encarecimento dos combustíveis, por exemplo, pode aumentar os custos de transporte e distribuição, elevando também o preço de alimentos e outros produtos.

Os cortes nos gastos públicos, por sua vez, podem contribuir para o equilíbrio das contas do governo, mas exigem atenção para que serviços essenciais e programas de proteção social não sejam prejudicados.

É nesse intervalo entre os resultados financeiros e a realidade das famílias que surge parte da insatisfação popular. Os governos podem apresentar números positivos, mas a população tende a avaliar a recuperação a partir de experiências concretas: conseguir emprego, pagar as contas e manter uma alimentação adequada.

Reformas econômicas e o preço da estabilização

Durante anos, organismos internacionais, incluindo o Fundo Monetário Internacional (FMI), e investidores defenderam reformas em economias emergentes, como a redução de subsídios, a flexibilização dos controles cambiais e o ajuste das contas públicas.

Essas medidas ganharam urgência depois da pandemia de Covid-19 e da alta internacional dos preços de alimentos e combustíveis, intensificada pela invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.

Com despesas crescentes, receitas pressionadas e dificuldades para obter financiamento, diversos governos passaram a adotar políticas de austeridade, mudanças cambiais e medidas monetárias para conter desequilíbrios.

Para Simon Quijano-Evans, da empresa de análise econômica Macro Hive, muitos desses países praticamente não tinham alternativas diante do risco de perder investimentos e enfrentar uma deterioração ainda maior das contas públicas.

A recuperação da confiança dos investidores pode facilitar a entrada de recursos, ampliar a atividade empresarial e criar oportunidades de emprego. Entretanto, os resultados não são automáticos nem distribuídos igualmente.

Uma economia pode crescer enquanto determinados setores permanecem estagnados. Grandes empresas podem se beneficiar da abertura comercial, enquanto pequenos negócios enfrentam dificuldades para importar insumos, financiar estoques ou competir com produtos estrangeiros.

Por isso, o desafio das reformas não está apenas em estabilizar os indicadores, mas em criar condições para que o crescimento se transforme em renda, produtividade e oportunidades para a população.

Marrocos revela as contradições do crescimento

No Marrocos, o contraste entre desenvolvimento econômico e insatisfação social também chama a atenção.

O país registrou um aumento expressivo do investimento estrangeiro direto, que quase dobrou no ano passado, segundo as informações divulgadas sobre o cenário econômico. Novos edifícios comerciais, grandes projetos e estruturas modernas demonstram o interesse de investidores e a transformação de determinadas áreas urbanas.

Entretanto, esse desenvolvimento convive com dificuldades relacionadas ao desemprego e à qualidade dos serviços públicos.

O engenheiro civil Anass Sayad descreve o país como um lugar que avança em duas velocidades diferentes. Ao caminhar com a família pela Casablanca Finance City, região que concentra empresas e edifícios comerciais, ele observa os investimentos e questiona se educação e saúde recebem a atenção necessária.

O governo aumentou os gastos com essas áreas no orçamento de 2026, mas os efeitos de investimentos públicos podem levar tempo para aparecer na rotina dos cidadãos.

A insatisfação também se manifestou em protestos liderados por jovens, que, segundo os relatos apresentados, resultaram em mortes. O cenário evidencia que a criação de infraestrutura e a atração de capital não eliminam automaticamente as dificuldades relacionadas a emprego, renda e acesso a serviços.

Quando os jovens não encontram oportunidades compatíveis com suas expectativas, o crescimento econômico pode parecer distante de suas necessidades.

Sri Lanka ainda sente as consequências da crise

No Sri Lanka, a crise econômica e a inadimplência da dívida ficaram para trás, mas a recuperação não apagou as dificuldades sociais. A pobreza permanece acima dos níveis anteriores à crise, segundo as informações apresentadas.

Na capital, Colombo, a vendedora de alimentos Sirimodara Wadaramge Sriyakanthi começa a trabalhar antes das cinco da manhã. Ela prepara mingau de ervas e marmitas de arroz para vender durante o dia, tentando manter os preços próximos de US$ 2 para que seus clientes consigam pagar.

Mesmo com os custos mais altos, a comerciante procura oferecer refeições acessíveis. Ao mesmo tempo, precisa lidar com as despesas escolares do filho e com os custos das aulas de dança da filha.

Sua rotina demonstra como a estabilidade econômica pode ter um significado diferente para quem vive de pequenos negócios. Para uma família com orçamento apertado, uma melhora nos indicadores nacionais não resolve imediatamente a necessidade de equilibrar alimentação, educação, moradia e transporte.

A reconstrução econômica exige tempo, mas também políticas capazes de ampliar oportunidades e recuperar a renda real dos trabalhadores.

Nigéria e o risco de ampliar a desigualdade

A Nigéria também enfrenta os efeitos sociais de reformas, incluindo a retirada de subsídios aos combustíveis. Embora essas mudanças possam aliviar as contas públicas, o aumento dos preços atinge diretamente o custo do transporte e de outros produtos essenciais.

O ministro das Finanças do país alertou que ignorar a desigualdade seria como “sentar sobre pólvora”, uma referência ao risco de tensões sociais provocadas pela deterioração das condições de vida.

O alerta mostra que a estabilidade econômica não depende apenas de decisões fiscais e monetárias. Ela também exige atenção às consequências sociais das medidas adotadas.

Quando a população percebe que os sacrifícios estão concentrados nos grupos de menor renda, a confiança nas reformas pode diminuir. Protestos e instabilidade política podem comprometer investimentos, dificultar a continuidade de políticas públicas e criar novos obstáculos ao crescimento.

A pressão sobre os países em desenvolvimento

O problema ganha dimensão ainda maior diante das projeções demográficas. O Banco Mundial estima que 1,2 bilhão de pessoas em países em desenvolvimento chegarão à idade de trabalhar na próxima década.

Essa expansão da população em idade ativa cria uma necessidade urgente de geração de empregos. Sem oportunidades suficientes, o crescimento econômico corre o risco de não acompanhar a demanda por renda e inclusão produtiva.

A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, também alertou para a pressão provocada pela alta dos combustíveis e dos alimentos, somada à redução da ajuda internacional ao desenvolvimento.

Embora a insatisfação com o custo de vida também apareça em países ricos, como França, Itália e Espanha, economias avançadas geralmente dispõem de maior capacidade fiscal para implementar medidas de proteção às famílias.

Além disso, os alimentos representam uma parcela proporcionalmente maior do índice de preços ao consumidor em muitos países em desenvolvimento. Segundo os dados apresentados, essa participação varia entre 30% e 50%, enquanto nos Estados Unidos fica entre 13% e 14%.

Isso significa que o encarecimento da alimentação pode ter um impacto especialmente severo sobre o orçamento de famílias de baixa renda nas economias emergentes.

O desafio de transformar números em qualidade de vida

A experiência de Argentina, Marrocos, Sri Lanka e Nigéria demonstra que a recuperação econômica precisa ser avaliada para além dos indicadores financeiros.

Controlar a inflação, equilibrar as contas públicas e atrair investimentos são objetivos importantes, mas não suficientes por si só. Também é necessário estimular a criação de empregos, proteger os mais vulneráveis e ampliar o acesso à educação, à saúde e aos serviços essenciais.

Reformas podem estabelecer condições para um crescimento mais sustentável, mas seus resultados dependem da maneira como são implementadas e de sua capacidade de produzir benefícios concretos para a população.

O desafio dos governos é encontrar um equilíbrio entre responsabilidade fiscal e proteção social, reconhecendo que a estabilidade econômica perde parte de seu significado quando não se traduz em melhores condições de vida.

No fim, a recuperação de um país não se mede apenas pela confiança dos investidores ou pela desaceleração dos preços. Ela também precisa ser percebida na mesa das famílias, nas oportunidades dos jovens e na capacidade dos pequenos comerciantes de manter seus negócios.

JRTNews — Informação com responsabilidade, análise e compromisso com a realidade da população.