Um levantamento sobre o desempenho dos participantes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2025 revelou um dado que chama a atenção de educadores, estudantes e famílias: mesmo entre os alunos da rede privada, uma parcela expressiva teve dificuldades para responder a questões consideradas relativamente fáceis. Em três das quatro áreas do conhecimento analisadas, mais de quatro em cada dez candidatos de escolas particulares erraram os itens destacados no estudo.
Os dados foram analisados pela Geekie Educação, com base nos microdados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O levantamento, ao qual o g1 teve acesso, considerou o desempenho de 240.131 estudantes da rede privada e 934.103 da rede pública, totalizando 1.174.234 participantes incluídos na análise.
Embora os alunos de escolas particulares tenham apresentado taxas de acerto superiores às dos estudantes da rede pública nas quatro questões analisadas, os resultados mostram que o acesso a uma estrutura educacional privada não elimina todas as dificuldades enfrentadas durante uma prova extensa, que exige concentração, interpretação e capacidade de relacionar diferentes informações.
O estudo também reforça uma questão importante para quem se prepara para o Enem: nem sempre o erro está relacionado à falta de conhecimento sobre a matéria. Em muitos casos, a dificuldade pode surgir da interpretação equivocada do enunciado, da leitura superficial ou da tendência de procurar uma resposta complicada para um problema que exige apenas atenção.
Ciências da Natureza concentra o maior percentual de erros
Entre as quatro questões destacadas no levantamento, o maior índice de respostas incorretas foi registrado em Ciências da Natureza. Na questão 102 do caderno azul, 45,67% dos estudantes da rede privada erraram, enquanto 54,33% conseguiram identificar a alternativa correta.
O item exigia que os candidatos identificassem uma ação a partir das informações apresentadas no próprio enunciado. De acordo com Luiz Felipe Mod, especialista de Sucesso Pedagógico da Geekie Educação, a área não exige apenas conhecimento teórico de Física, Química e Biologia.
O estudante também precisa interpretar fórmulas, gráficos, tabelas, unidades de medida e outros elementos que podem aparecer na questão. Essas informações, muitas vezes, são suficientes para orientar o raciocínio e ajudar na identificação da resposta correta.
Um erro recorrente, segundo o especialista, é começar a fazer cálculos ou tentar recordar fórmulas antes de compreender exatamente o que está sendo solicitado.
A recomendação é ler o enunciado com calma, identificar a pergunta central e observar os dados disponíveis antes de iniciar qualquer operação. Essa estratégia pode evitar que o candidato desperdice tempo ou siga um caminho de resolução desnecessariamente complicado.
O resultado mostra que, mesmo quando o conteúdo não parece apresentar grande dificuldade, a maneira como o problema é apresentado pode influenciar diretamente o desempenho.
Linguagens exige compreensão do sentido global do texto
Na área de Linguagens, a questão 31 do caderno azul apresentou um índice de 43,63% de erros entre os estudantes da rede privada. A alternativa correta foi escolhida por 56,37% dos participantes.
O item abordava o impacto das tecnologias na interação humana e exigia uma leitura capaz de identificar a ideia central do texto, considerando a relação entre as informações apresentadas.
Segundo Silvia Brandão, especialista em Linguagens da Arco Educação, parte dos candidatos pode ter concentrado a atenção em um conceito isolado, sem considerar o significado mais amplo construído pelo texto.
A alternativa C foi apontada como o distrator mais forte, ou seja, uma opção incorreta que atraiu muitos participantes. A resposta correta era a alternativa D, que relacionava o conteúdo à influência das tecnologias na interação humana.
O episódio demonstra como uma interpretação aparentemente plausível pode levar ao erro quando o candidato considera apenas um fragmento da mensagem.
Em questões desse tipo, não basta reconhecer palavras conhecidas ou identificar uma informação específica. É necessário compreender a intenção do texto, observar as relações entre suas partes e verificar qual alternativa responde de maneira mais completa ao que foi perguntado.
A leitura atenta se torna, portanto, uma ferramenta essencial para o desempenho no exame. Em vez de procurar imediatamente uma palavra que pareça indicar a resposta, o estudante deve avaliar o conjunto das informações e comparar as alternativas com a ideia central apresentada.
Ciências Humanas cobra aplicação de conceitos
Em Ciências Humanas, a questão 65 registrou 43,9% de erros entre os participantes da rede privada. O índice de acertos ficou em 56,1%.
O exercício abordava filosofia moral e ética e exigia a identificação do conceito de altruísmo, entendido como uma atitude orientada ao bem-estar de outras pessoas.
Para Vinicius Barcala, especialista em Ciências Humanas da Geekie Educação, o caminho para resolver a questão estava em compreender a situação descrita e relacioná-la ao conceito filosófico correspondente.
O desafio não era apenas memorizar uma definição, mas reconhecer como ela se manifestava no contexto apresentado.
Um detalhe do texto também poderia provocar confusão: a palavra “animais” fazia parte de um apelido familiar, mas não constituía o elemento central para identificar a resposta. Uma leitura excessivamente literal poderia desviar a atenção do candidato e dificultar a compreensão da situação.
O exemplo mostra a importância de interpretar as palavras de acordo com o contexto em que aparecem. Termos aparentemente relevantes podem desempenhar uma função secundária, enquanto a resposta depende da compreensão da atitude ou do comportamento descrito.
Para ter um bom desempenho, o estudante precisa desenvolver a capacidade de conectar conceitos teóricos a situações concretas, habilidade frequentemente exigida em questões do Enem.
Matemática também apresenta dificuldades sem cálculos complexos
Na área de Matemática, o percentual de erros foi menor entre as quatro questões destacadas, mas ainda significativo. Na questão 179, 67,16% dos estudantes da rede privada acertaram, enquanto 32,84% marcaram uma alternativa incorreta.
O item exigia identificar a unidade de medida da iluminância a partir das informações fornecidas no enunciado.
Segundo Lilian Farias, especialista de Sucesso Pedagógico da Geekie Educação, a apresentação das alternativas pode intimidar o candidato, principalmente quando aparecem diversas expressões matemáticas.
Diante desse cenário, alguns estudantes podem imaginar que precisam realizar cálculos complexos ou dominar previamente todos os conceitos envolvidos. No entanto, a resolução dependia da compreensão do que estava sendo solicitado e da relação entre as informações disponíveis, incluindo a candela e o quadrado da distância, medido em metros.
A situação evidencia uma dificuldade comum em provas de múltipla escolha: a aparência de complexidade pode interferir na maneira como o problema é interpretado.
Quando o candidato se concentra apenas nos símbolos e nas expressões apresentadas, corre o risco de ignorar pistas importantes do próprio enunciado.
A orientação dos especialistas é que a leitura preceda os cálculos. Entender a pergunta, reconhecer as grandezas mencionadas e observar as unidades disponíveis pode ajudar a eliminar alternativas incorretas e tornar a resolução mais objetiva.
Como funciona a correção do Enem pela TRI
Os resultados ganham importância adicional por causa da metodologia utilizada na correção do Enem: a Teoria de Resposta ao Item (TRI).
Diferentemente de uma avaliação em que cada questão possui uma pontuação fixa, a TRI considera características dos itens e o padrão de respostas do participante para estimar sua proficiência.
Isso significa que a nota não depende exclusivamente da quantidade de acertos. A coerência do conjunto de respostas também é relevante para o cálculo da pontuação.
Silvia Brandão explica que o modelo procura identificar padrões compatíveis com o nível de conhecimento demonstrado pelo candidato. Em geral, espera-se que alguém capaz de resolver questões difíceis também consiga responder corretamente a boa parte dos itens mais acessíveis.
Quando um estudante acerta várias questões complexas, mas erra itens considerados fáceis, esse padrão pode ser menos compatível com a proficiência estimada pelo modelo. Isso não significa, porém, que um erro isolado determine automaticamente uma nota baixa ou prove que houve chute.
A TRI não identifica com certeza a intenção do candidato em cada resposta. Seu objetivo é estimar a proficiência considerando o conjunto de respostas e as características das questões.
Por isso, acertar os itens mais acessíveis continua sendo uma estratégia importante para quem deseja alcançar um bom resultado no exame.
Dados mostram diferenças entre as redes de ensino
A análise das dez questões classificadas entre as mais fáceis de Ciências da Natureza no caderno azul também aponta diferenças entre os estudantes das redes privada e pública.
Na questão 98, por exemplo, o percentual de acertos foi de 81,10% na rede privada e 66,27% na rede pública. Já na questão 100, os índices foram de 67,50% e 54,63%, respectivamente.
Na questão 97, 56% dos estudantes da rede privada acertaram, contra 32% dos participantes da rede pública. Em outros itens, entretanto, a diferença foi menor. Na questão 102, o percentual de acertos foi de 54,33% na rede privada e 53,86% na pública.
Os números indicam que o desempenho varia conforme o conteúdo e as habilidades exigidas por cada questão. Também demonstram que não é adequado tratar todos os estudantes de uma mesma rede como um grupo homogêneo.
O levantamento apresenta um recorte específico do exame e não permite, isoladamente, explicar todas as causas das diferenças observadas. Fatores como trajetória escolar, condições de estudo, familiaridade com avaliações e estratégias de preparação podem influenciar o desempenho, mas exigem análises próprias para serem avaliados com precisão.
Preparação exige mais do que memorizar conteúdos
Os resultados do Enem 2025 reforçam uma mensagem importante para estudantes que pretendem disputar vagas no ensino superior: dominar os conteúdos é fundamental, mas saber interpretar as questões pode fazer diferença decisiva.
Uma preparação eficiente envolve resolver exercícios, revisar erros, compreender por que determinada alternativa está incorreta e desenvolver o hábito de ler os enunciados até o fim.
Também é importante administrar o tempo, evitar conclusões precipitadas e não presumir que uma questão é difícil apenas porque apresenta termos técnicos, fórmulas ou textos extensos.
Para professores e instituições de ensino, os dados servem como um alerta sobre a necessidade de trabalhar não apenas a transmissão de conteúdos, mas também as habilidades de leitura, interpretação, análise e aplicação do conhecimento.
Mais do que apontar falhas individuais, o levantamento abre espaço para refletir sobre como os estudantes aprendem e quais estratégias podem ajudá-los a enfrentar melhor as exigências do exame.
No Enem, uma questão considerada fácil não é necessariamente uma questão que todos acertarão. O desafio está em transformar o conhecimento adquirido ao longo da vida escolar em uma resposta coerente, fundamentada e adequada ao que foi perguntado.
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