O influenciador paraibano Hytalo Santos participou de uma atividade cultural voltada à população LGBTQIA+ privada de liberdade na Penitenciária Desembargador Flósculo da Nóbrega, em João Pessoa. A ação ocorreu na tarde da terça-feira (27) e reuniu 15 internos, entre eles o influenciador e seu marido, Israel Vicente, que também está preso na unidade.
Durante a atividade, os participantes foram convidados a escrever poemas relacionados às experiências vividas durante o período de encarceramento. A iniciativa integra um projeto de extensão da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e busca promover o acesso à cultura, à expressão artística e à cidadania entre pessoas trans e travestis que cumprem pena ou permanecem privadas de liberdade.
A participação de Hytalo e Israel chamou a atenção por envolver duas figuras que ganharam repercussão nacional após investigações e um processo judicial relacionado à produção de conteúdo envolvendo adolescentes. Os dois estão presos desde 28 de agosto de 2025 e, conforme as informações divulgadas, foram condenados por crimes relacionados à produção de conteúdo pornográfico com adolescentes na internet.
Apesar da notoriedade dos participantes, a direção da penitenciária ressaltou que a atividade foi organizada para atender os internos da ala LGBTQIA+ de forma coletiva, sem tratamento especial para o influenciador ou para o marido.
Projeto utiliza a poesia como instrumento de expressão
Em entrevista ao portal g1, o diretor da penitenciária, Gleyson Rogério, explicou que a atividade recebeu o nome de “Vivências poéticas: direito à cultura e cidadania para pessoas trans e travestis em privação de liberdade”.
A iniciativa está vinculada a um projeto de extensão do curso de Direito da Universidade Federal da Paraíba. A proposta é aproximar a universidade da realidade das pessoas que vivem no sistema prisional, promovendo atividades que estimulem a reflexão, a participação cultural e o reconhecimento de direitos.
Durante o encontro, os internos produziram poemas relacionados ao período vivido no cárcere. A escrita foi utilizada como uma oportunidade para que os participantes expressassem sentimentos, lembranças, dificuldades e percepções sobre a experiência de estar privados de liberdade.
A poesia pode funcionar como uma forma de organizar pensamentos e transformar experiências pessoais em palavras. Em ambientes marcados por restrições de circulação, distanciamento familiar e mudanças profundas na rotina, atividades culturais também podem oferecer momentos de reflexão e convivência.
No caso do projeto desenvolvido na penitenciária paraibana, a proposta envolve pessoas que integram a ala LGBTQIA+, um grupo que pode enfrentar desafios específicos dentro do sistema prisional. O acesso a iniciativas educativas e culturais faz parte das discussões sobre dignidade humana e preparação para o retorno à sociedade.
A participação na atividade, entretanto, não altera a situação judicial dos envolvidos nem representa qualquer benefício automático relacionado ao processo criminal. Trata-se de uma ação cultural e de extensão universitária realizada no ambiente prisional.
Direção afirma que não há tratamento diferenciado
Segundo Gleyson Rogério, 15 pessoas participaram do encontro, incluindo Hytalo Santos e Israel Vicente. O diretor destacou que o projeto foi direcionado aos internos da ala LGBTQIA+ como um todo, e não desenvolvido exclusivamente para o influenciador.
A informação busca esclarecer que a presença de uma personalidade conhecida não significa que ela tenha recebido privilégios em relação aos demais participantes.
A direção também informou que outras áreas da penitenciária recebem projetos de ressocialização. Dessa forma, as atividades culturais e educativas não estariam limitadas à ala LGBTQIA+, mas fariam parte de iniciativas destinadas a diferentes grupos de internos.
A ressocialização é um dos temas centrais do debate sobre o sistema penitenciário brasileiro. Além do cumprimento das determinações judiciais, a execução penal envolve questões relacionadas à educação, ao trabalho, à convivência e à preparação para a vida fora da prisão.
Projetos de leitura, escrita, arte e formação podem contribuir para ampliar o acesso ao conhecimento e criar oportunidades de participação social. Os resultados, contudo, dependem da continuidade das ações, da estrutura disponível e das condições oferecidas aos participantes.
A atividade realizada na unidade de João Pessoa integra esse contexto, ao propor uma experiência de expressão literária para pessoas privadas de liberdade.
Hytalo Santos e Israel Vicente estão presos desde 2025
Hytalo Santos e Israel Vicente estão na Penitenciária Desembargador Flósculo da Nóbrega desde 28 de agosto de 2025. O caso envolvendo o influenciador começou a ser investigado antes de alcançar repercussão nacional.
Natural de Cajazeiras, no Sertão da Paraíba, Hytalo ganhou popularidade nas redes sociais por meio de vídeos e publicações que reuniram milhões de seguidores. Em dezembro de 2024, o Ministério Público da Paraíba (MPPB) informou que apurava denúncias relacionadas à possível exploração de crianças e adolescentes em conteúdos divulgados nas plataformas digitais.
Naquele período, segundo as informações divulgadas à época, um dos perfis do influenciador reunia aproximadamente 16,9 milhões de seguidores.
A investigação buscava esclarecer a participação de menores de idade nas produções publicadas e verificar se havia práticas criminosas relacionadas à exposição dos adolescentes. O caso passou a receber maior atenção pública diante da dimensão da audiência do influenciador e da gravidade das suspeitas.
À época, Hytalo publicou vídeos nas próprias redes sociais para se defender das acusações. Nas manifestações, afirmou que mantinha uma relação com os adolescentes que frequentavam sua residência, a quem chamava de “crias”, e declarou que sua assessoria jurídica estava tratando das questões. Também sustentou que denúncias anteriores teriam sido esclarecidas.
As declarações fizeram parte da resposta pública do influenciador naquele momento. A investigação e o processo judicial, por sua vez, seguiram os procedimentos próprios das autoridades responsáveis.
Condenação levou o caso à Justiça
O caso avançou para a esfera judicial e ganhou novos desdobramentos com a condenação de Hytalo Santos e Israel Vicente por crimes relacionados à produção de conteúdo pornográfico com adolescentes na internet, conforme as informações divulgadas em fevereiro de 2026.
A situação dos dois deve ser compreendida a partir das decisões judiciais e dos limites estabelecidos no processo. A realização de uma atividade cultural na prisão não modifica, por si só, a condenação nem interfere automaticamente na execução das determinações da Justiça.
A repercussão do caso também reacendeu discussões sobre a responsabilidade de criadores de conteúdo digital, especialmente aqueles que alcançam grandes audiências e publicam materiais envolvendo crianças e adolescentes.
A proteção de menores no ambiente digital exige atenção à exposição da imagem, aos limites legais e à possibilidade de exploração em produções destinadas às redes sociais. Denúncias dessa natureza devem ser investigadas pelas autoridades competentes, com análise das provas e respeito aos procedimentos legais.
Ao mesmo tempo, a cobertura jornalística precisa distinguir as informações confirmadas, as alegações apresentadas durante a investigação e as manifestações dos envolvidos, evitando julgamentos que ultrapassem o que foi estabelecido judicialmente.
Cultura e cidadania dentro do sistema prisional
A atividade poética realizada na penitenciária coloca em evidência uma dimensão menos conhecida da rotina prisional: a participação em projetos culturais e educativos.
Para os internos, escrever sobre o período de encarceramento pode representar uma oportunidade de refletir sobre a própria trajetória e expressar sentimentos por meio da linguagem. Para as instituições envolvidas, iniciativas desse tipo também podem contribuir para aproximar a universidade das questões sociais que atravessam o sistema de Justiça.
O projeto da UFPB tem como foco o direito à cultura e à cidadania de pessoas trans e travestis privadas de liberdade. A proposta reconhece que o acesso a atividades culturais deve alcançar diferentes grupos, respeitando a dignidade das pessoas e as particularidades de cada contexto.
A participação de Hytalo Santos e Israel Vicente trouxe visibilidade à iniciativa, mas a atividade reuniu outros internos e não foi destinada exclusivamente aos dois.
O encontro reforça a importância de discutir a ressocialização sem confundi-la com impunidade ou privilégio. A realização de ações educativas e culturais pode coexistir com o cumprimento das decisões judiciais, pois são dimensões distintas da atuação do sistema penitenciário.
O projeto realizado em João Pessoa demonstra como a escrita pode abrir espaço para a expressão pessoal mesmo em um ambiente marcado por limitações. Ao mesmo tempo, o caso de Hytalo continua associado às consequências judiciais das acusações que levaram à sua prisão.
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