O ex-jogador do Palmeiras e da seleção chilena Jorge Valdivia passou a enfrentar uma nova etapa de um processo judicial que se arrasta desde outubro de 2024. O Ministério Público do Chile apresentou uma acusação formal contra o ex-meio-campista e solicitou uma pena total de 22 anos de prisão por dois crimes de natureza sexual investigados a partir de denúncias feitas por duas mulheres.

De acordo com informações divulgadas pelo jornal chileno Meganoticias, a solicitação prevê 12 anos de prisão por um dos delitos e outros 10 anos pelo segundo. A acusação foi apresentada pelo promotor Rodrigo Célis, da Unidade de Gênero da Fiscalía Metropolitana Oriente, após uma investigação que durou aproximadamente dois anos.

O caso envolve dois episódios que teriam ocorrido em outubro de 2024, em Santiago, capital chilena. As denúncias foram apresentadas por mulheres que relataram situações distintas envolvendo encontros com o ex-atleta. Valdivia nega ter cometido violência sexual, enquanto sua defesa sustenta que as relações aconteceram de forma consensual.

É importante destacar que o pedido de prisão representa a posição do Ministério Público e não significa que o ex-jogador tenha sido condenado. A responsabilidade criminal ainda deverá ser analisada pela Justiça chilena, com direito à apresentação de provas e à contestação das acusações.

Entenda as duas denúncias contra o ex-jogador

A primeira denúncia está relacionada a um encontro ocorrido em 20 de outubro de 2024. Segundo os relatos apresentados à investigação, uma mulher que trabalha como tatuadora teria se encontrado com Valdivia em um restaurante peruano localizado na região de Providencia.

Durante o encontro, os dois teriam consumido alimentos e bebidas alcoólicas. A mulher relatou que, depois desse momento, perdeu parte das lembranças sobre o que aconteceu. Posteriormente, teria tomado conhecimento de que manteve relações sexuais com o ex-jogador.

A denúncia foi apresentada às autoridades chilenas e deu início à investigação que colocou Valdivia no centro de um caso de grande repercussão no país. A defesa, entretanto, apresentou uma versão diferente. Os advogados afirmaram que os dois já haviam se encontrado anteriormente e que a mulher teria convidado o ex-atleta para ir até o apartamento, onde a relação teria ocorrido de maneira consensual.

O segundo episódio teria acontecido dois dias antes, em 18 de outubro de 2024. Conforme as informações divulgadas pela imprensa chilena, a outra mulher encontrou Valdivia no restaurante El Toro, situado no município de Vitacura. Depois do encontro, os dois teriam seguido para o apartamento do ex-jogador.

A denúncia referente a esse episódio foi apresentada em 22 de outubro, quando Valdivia já havia sido formalmente investigado no primeiro caso. Inicialmente, as duas situações foram divulgadas como denúncias de estupro. Entretanto, a acusação apresentada pelo Ministério Público passou a enquadrar os episódios em classificações penais diferentes.

A defesa também sustenta que o segundo encontro aconteceu de forma consentida e afirma que existiriam registros em vídeo que poderiam contribuir para a análise de sua versão. Esses elementos deverão ser examinados durante o andamento do processo, caso sejam admitidos pela Justiça.

Ministério Público pede 22 anos de prisão

A apresentação da acusação marca uma mudança importante na tramitação do caso. Depois de aproximadamente dois anos de diligências, o Ministério Público concluiu a etapa investigativa e formalizou sua pretensão de levar Valdivia a julgamento.

Segundo o documento divulgado pelo Meganoticias, a soma das penas solicitadas chega a 22 anos de prisão. A acusação reúne um delito de violação e outro de abuso sexual, com solicitações de penas distintas para cada imputação.

A partir dessa etapa, o processo deverá avançar para os procedimentos preparatórios de um eventual julgamento oral. Nessa fase, acusação e defesa terão a oportunidade de apresentar os elementos que consideram relevantes, discutir a admissibilidade das provas e preparar suas respectivas teses.

O tribunal será responsável por avaliar os argumentos e decidir sobre a responsabilidade do ex-jogador. Portanto, mesmo diante da gravidade das acusações e do pedido de uma pena elevada, não existe condenação definitiva neste momento.

Defesa questiona divulgação de informações do processo

Além de negar as acusações, a defesa de Jorge Valdivia também demonstrou insatisfação com a maneira como os detalhes da acusação chegaram à imprensa.

Em reportagem publicada nesta quarta-feira (4), o jornal chileno La Tercera informou que a advogada Paula Vial afirmou que ainda não havia recebido acesso ao documento apresentado pelo Ministério Público. Segundo a defesa, a divulgação de informações sobre uma peça central do processo antes de sua comunicação oficial aos advogados e ao tribunal prejudicaria o direito de defesa.

A advogada também questionou a circulação de versões que, segundo ela, não coincidiriam entre si. A defesa argumenta que o procedimento deve respeitar os princípios de objetividade, reserva e presunção de inocência.

A manifestação acrescenta outro ponto de tensão ao caso: enquanto a acusação sustenta que existem elementos suficientes para solicitar uma pena de 22 anos, os advogados afirmam que precisam conhecer integralmente o conteúdo do documento para apresentar uma contestação adequada.

O posicionamento da defesa não altera, por si só, o andamento da investigação, mas evidencia que a disputa judicial deverá envolver também questionamentos sobre os elementos reunidos pelo Ministério Público e a forma como foram divulgados.

Maite Orsini aparece entre as testemunhas

Outro nome que ganhou destaque com a apresentação da acusação é o da ex-deputada chilena Maite Orsini, que aparece entre as testemunhas que o Ministério Público pretende apresentar em um eventual julgamento.

Orsini mantinha um relacionamento com Valdivia no período dos acontecimentos investigados. Segundo informações divulgadas pela Fiscalía durante a investigação, os dois trocaram mensagens em uma das noites relacionadas às denúncias.

Essas conversas teriam importância para ajudar os investigadores a reconstruir a sequência dos acontecimentos e estabelecer uma cronologia. A ex-parlamentar já havia prestado depoimento como testemunha, e sua inclusão na relação apresentada pelo Ministério Público indica que a acusação considera sua participação relevante para esclarecer determinados pontos.

O nome de Orsini também esteve envolvido em outra controvérsia pública relacionada ao ex-jogador. Em 2023, após uma abordagem policial a Valdivia em Vitacura, ela entrou em contato com uma autoridade da polícia chilena para apresentar informações sobre o procedimento.

O episódio chegou a ser analisado pela Fiscalía Centro Norte, que investigou possíveis irregularidades, incluindo suspeitas de tráfico de influência. Entretanto, a investigação foi encerrada sem prosseguimento, após o órgão concluir que os fatos denunciados não configuravam crime. O episódio recebeu críticas no campo ético, mas não resultou em condenação criminal da ex-deputada.

Ex-jogador já ficou preso durante a investigação

Durante o andamento do caso, Valdivia chegou a cumprir prisão preventiva em dois períodos diferentes. A primeira detenção ocorreu após sua formalização, em 22 de outubro de 2024. Em 4 de novembro daquele ano, a Corte de Apelações substituiu a medida por prisão domiciliar noturna, proibição de deixar o país e restrição de aproximação da denunciante.

No entanto, em 28 de novembro de 2024, ele voltou à prisão após uma decisão judicial que revogou as medidas cautelares anteriores. O ex-jogador permaneceu detido até 6 de janeiro de 2025, quando a Corte Suprema acolheu um recurso apresentado pela defesa e determinou novamente a substituição da prisão preventiva por prisão domiciliar noturna.

Somados os dois períodos, Valdivia permaneceu aproximadamente 52 dias em prisão preventiva. A alteração das medidas cautelares não representa absolvição, assim como a prisão preventiva não significa condenação antecipada.

Carreira no futebol contrasta com momento judicial

Conhecido como “Mago”, Jorge Valdivia construiu uma carreira de destaque no futebol sul-americano. O chileno defendeu a seleção de seu país e integrou a geração que conquistou a Copa América de 2015, um dos títulos mais importantes da história do futebol chileno.

No Brasil, ficou conhecido principalmente por sua passagem pelo Palmeiras, clube no qual conquistou títulos e ganhou reconhecimento pela habilidade, visão de jogo e capacidade de criação no meio-campo. Também teve trajetória marcante por equipes como Colo-Colo, do Chile, e outros clubes internacionais.

Agora, o ex-atleta enfrenta um processo que ultrapassa o ambiente esportivo e poderá ter consequências significativas em sua vida pessoal e pública.

A Justiça chilena terá a responsabilidade de examinar os elementos apresentados pelas partes e decidir sobre as acusações. Até que exista uma sentença, Jorge Valdivia deve ser tratado como acusado, e não como culpado. Ao mesmo tempo, os relatos das denunciantes precisam ser analisados com seriedade, respeito e rigor, sem antecipar conclusões que cabem exclusivamente ao Judiciário.

O caso segue sob atenção da imprensa chilena e do público esportivo, especialmente pela notoriedade do ex-jogador e pela gravidade das acusações. Os próximos passos do processo deverão esclarecer quais provas serão levadas ao julgamento e quando o tribunal poderá iniciar a análise definitiva dos fatos.