A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta quarta-feira (4) a versão em comprimidos do Wegovy, medicamento produzido pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk e utilizado no tratamento da obesidade. A decisão representa uma nova etapa no acesso a tratamentos medicamentosos para o controle do peso no Brasil, já que a semaglutida utilizada para essa finalidade estava disponível no país, até então, na apresentação injetável, conhecida popularmente como caneta emagrecedora.
A autorização foi publicada no Diário Oficial da União (DOU), por meio da Resolução-RE nº 4.249/2026. Com a medida, o Brasil passa a contar com uma apresentação oral de semaglutida aprovada especificamente para o tratamento da obesidade em adultos.
A novidade pode ampliar as alternativas para pacientes que têm indicação clínica para utilizar o medicamento, mas a aprovação não significa que o comprimido seja adequado para todas as pessoas que desejam emagrecer. O tratamento exige avaliação médica, acompanhamento e mudanças nos hábitos de vida.
quem poderá utilizar o wegovy em comprimidos?
De acordo com os critérios informados pela Anvisa, o medicamento é indicado para adultos com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m², condição classificada como obesidade.
A utilização também poderá ser indicada para pessoas com sobrepeso, cujo IMC esteja entre 27 e 29,9 kg/m², desde que apresentem pelo menos uma comorbidade relacionada ao excesso de peso.
Entre os problemas de saúde que podem estar associados à obesidade estão alterações metabólicas, pressão alta e outras condições que aumentam os riscos cardiovasculares. A avaliação de cada caso deve considerar o histórico do paciente, os exames, as condições clínicas e os possíveis benefícios e riscos do tratamento.
A Anvisa reforça que a semaglutida deve ser utilizada como parte de uma estratégia mais ampla de cuidado. Isso significa que o medicamento precisa estar associado a uma alimentação com redução de calorias e à prática regular de atividade física, conforme a orientação dos profissionais responsáveis.
A aprovação dos comprimidos contempla adultos. Portanto, não se deve presumir que a nova apresentação tenha as mesmas indicações de idade de outras versões do medicamento.
como a semaglutida age no organismo?
A semaglutida é uma substância que atua nos receptores do GLP-1, hormônio relacionado à regulação do apetite e da ingestão de alimentos. Sua ação ajuda a aumentar a sensação de saciedade e a reduzir a fome, contribuindo para que a pessoa consuma menos alimentos ao longo do dia.
Esse mecanismo pode favorecer a perda de peso e também melhorar determinados indicadores metabólicos associados à obesidade. A substância já é utilizada em medicamentos conhecidos no Brasil, mas as indicações, as doses e as apresentações variam de acordo com o produto e a finalidade do tratamento.
Uma das principais diferenças da nova versão do Wegovy é a forma de administração. Enquanto a apresentação injetável é aplicada por via subcutânea, a versão em comprimidos deverá ser tomada diariamente.
A mudança pode oferecer mais uma possibilidade terapêutica para pacientes e médicos. Ainda assim, a escolha entre comprimido e injeção precisa considerar a resposta individual, a tolerância ao medicamento e as orientações específicas da bula.
tratamento começa com dose menor e aumenta gradualmente
A administração do Wegovy oral exige atenção às orientações de uso. O tratamento começa com a dose de 1,5 mg por dia e avança gradualmente para 4 mg e 9 mg, até alcançar a dose diária de manutenção de 25 mg.
Esse aumento progressivo tem como objetivo permitir que o organismo se adapte ao medicamento e reduzir dificuldades de tolerabilidade durante o início do tratamento.
Outro detalhe importante é o horário de administração. O comprimido deve ser ingerido em jejum, com uma pequena quantidade de água. Depois de tomar a medicação, o paciente precisa aguardar pelo menos 30 minutos antes de comer, beber ou utilizar outros medicamentos.
Essas orientações são importantes porque a absorção da semaglutida oral pode ser afetada pela presença de alimentos, bebidas e outros remédios no estômago. Por isso, não basta conhecer a dose: é necessário seguir corretamente as instruções da bula e a prescrição médica.
A possibilidade de transição entre as apresentações oral e injetável também foi contemplada na avaliação da agência, mas qualquer mudança precisa ser conduzida por um profissional de saúde. O paciente não deve trocar, interromper ou ajustar doses por conta própria.
estudo apontou perda média de 13,6% do peso corporal
A aprovação da Anvisa foi baseada, entre outros dados, nos resultados do OASIS 4, estudo clínico de fase 3 que avaliou a eficácia e a segurança da semaglutida oral na dose de 25 mg em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a problemas de saúde.
A pesquisa acompanhou os participantes durante um período de tratamento de 64 semanas para avaliar os resultados sobre o peso corporal. No estudo, 205 pessoas receberam semaglutida oral, enquanto outras 102 receberam placebo. Os dois grupos também receberam orientações relacionadas à alimentação e à atividade física.
Ao final de 64 semanas, o grupo tratado com semaglutida apresentou redução média estimada de 13,6% do peso corporal. Entre os participantes que receberam placebo, a redução média foi de 2,2%.
Os resultados demonstraram uma diferença significativa entre os grupos, indicando que a medicação contribuiu para uma perda de peso maior do que aquela observada com o placebo nas condições avaliadas.
Os pesquisadores também identificaram que mais participantes tratados com semaglutida conseguiram atingir reduções de pelo menos 5%, 10%, 15% e 20% do peso inicial. O estudo apontou ainda melhora em indicadores relacionados à função física e à saúde associada ao excesso de peso.
medicamento também exige atenção aos efeitos colaterais
Apesar dos resultados apresentados, a semaglutida não está livre de efeitos adversos. No estudo OASIS 4, eventos gastrointestinais foram mais frequentes entre os participantes que utilizaram o medicamento do que entre aqueles que receberam placebo.
Entre as reações observadas com medicamentos dessa classe estão náuseas, vômitos, diarreia, constipação e desconfortos abdominais. A intensidade e a ocorrência desses sintomas podem variar de uma pessoa para outra.
Por isso, o acompanhamento profissional é indispensável. O médico deve avaliar as condições de saúde do paciente, verificar possíveis contraindicações, acompanhar a evolução do tratamento e orientar como proceder diante de reações indesejadas.
Também é importante evitar o uso por indicação de terceiros ou com o objetivo de alcançar resultados estéticos rápidos. A obesidade é uma condição de saúde complexa, influenciada por fatores metabólicos, genéticos, comportamentais e ambientais. Seu tratamento não deve ser reduzido apenas à diminuição do número indicado na balança.
aprovação amplia as opções de tratamento no país
A chegada do Wegovy em comprimidos representa uma ampliação das alternativas disponíveis para o tratamento da obesidade no Brasil. A possibilidade de tomar semaglutida por via oral pode atender pacientes que, por diferentes razões, preferem evitar aplicações injetáveis, desde que apresentem indicação para o uso.
É importante destacar que já existia no país a semaglutida oral utilizada no tratamento do diabetes tipo 2, como no medicamento Rybelsus. A novidade anunciada pela Anvisa é a aprovação de uma apresentação específica do Wegovy em comprimidos para o controle do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades.
A autorização sanitária, entretanto, não significa que o produto estará imediatamente disponível em todas as farmácias. A chegada ao mercado, a distribuição e o preço dependem das etapas comerciais e regulatórias posteriores à aprovação.
Para pacientes e profissionais de saúde, a decisão abre uma nova possibilidade de abordagem de uma condição que exige acompanhamento contínuo. O resultado esperado não deve ser apenas a perda de peso, mas também a melhora da saúde e da qualidade de vida.
Com a nova apresentação, o Brasil passa a ter mais uma alternativa medicamentosa para o tratamento da obesidade. A orientação central, porém, permanece a mesma: qualquer tratamento deve ser individualizado, acompanhado por profissionais habilitados e associado a hábitos saudáveis, respeitando as necessidades e os limites de cada paciente.
















