Babilônia é uma das obras mais ousadas de Damien Chazelle, diretor conhecido por transformar paixão, obsessão e música em experiências cinematográficas intensas. Depois de conquistar o público com Whiplash e emocionar com La La Land, o cineasta decidiu mergulhar em uma Hollywood muito diferente daquela apresentada nos grandes clássicos: uma indústria marcada pelo excesso, pela ambição, pela decadência e pela constante necessidade de se reinventar.

É nesse universo que surge Babilônia, um filme que não tenta ser discreto. Pelo contrário. A produção abraça o exagero, o caos e a grandiosidade para contar uma história ambientada em um dos momentos mais turbulentos da indústria cinematográfica: a transição do cinema mudo para o cinema sonoro.

Com Brad Pitt, Margot Robbie e Diego Calva nos papéis principais, o longa constrói uma experiência de aproximadamente três horas que mistura festas, ambição, ascensão, queda, desejo e desilusão. O resultado é um filme que pode dividir opiniões, mas dificilmente deixa o espectador indiferente.

Mais do que uma reconstrução histórica, Babilônia funciona como uma carta de amor ao cinema e, ao mesmo tempo, como uma crítica feroz ao sistema que transforma pessoas em estrelas e, quando elas deixam de ser úteis, simplesmente segue em frente.

O excesso como escolha artística

Desde os primeiros minutos, Chazelle deixa claro que não pretende conduzir o público por uma narrativa convencional.

A câmera se movimenta de maneira frenética, os personagens parecem estar permanentemente em estado de euforia e a música acompanha tudo com uma intensidade quase física. O espectador é colocado no centro de um mundo em que festas parecem não ter fim e onde a busca pelo sucesso pode ultrapassar qualquer limite.

O excesso não é apenas uma característica estética. Ele funciona como linguagem.

Hollywood aparece como uma máquina gigantesca, capaz de produzir sonhos, mas também de destruir aqueles que não conseguem acompanhar suas transformações.

A chegada do cinema sonoro representa justamente essa mudança. De repente, aquilo que funcionava no cinema mudo deixa de ser suficiente. Estrelas precisam se adaptar. Técnicos precisam aprender novas formas de trabalhar. Diretores enfrentam dificuldades. E muitos profissionais descobrem que o sucesso que parecia eterno podia desaparecer rapidamente.

Chazelle transforma essa mudança tecnológica em uma metáfora sobre a própria indústria do entretenimento.

Margot Robbie rouba a cena

Entre os personagens que mais chamam atenção está Nellie LaRoy, interpretada por Margot Robbie.

Nellie representa o desejo quase inconsequente de se tornar uma estrela. Ela chega a Hollywood com confiança, energia e uma enorme vontade de vencer. Ao mesmo tempo, carrega uma personalidade impulsiva que frequentemente coloca sua própria trajetória em risco.

Robbie entrega uma atuação intensa, alternando momentos de vulnerabilidade com explosões de carisma.

Nellie não é apresentada como uma personagem perfeita. Pelo contrário. Ela é contraditória, exagerada e muitas vezes autodestrutiva. E justamente por isso consegue transmitir uma sensação de humanidade.

Por trás da mulher que deseja conquistar Hollywood existe alguém que também deseja ser reconhecida, admirada e lembrada.

Sua trajetória revela como a fama pode funcionar como uma espécie de promessa irresistível. No início, parece representar liberdade e realização. Conforme o sucesso chega, porém, as consequências começam a aparecer.

Brad Pitt interpreta uma estrela em declínio

Brad Pitt vive Jack Conrad, um dos grandes astros de Hollywood naquele período.

Conrad já conhece o sucesso. Ele possui dinheiro, prestígio e reconhecimento. Mas começa a perceber que a indústria está mudando e que sua posição não é tão segura quanto imaginava.

A chegada do cinema falado se torna um momento decisivo.

O personagem representa uma geração de artistas que ajudou a construir o glamour de Hollywood, mas que descobre que nenhuma carreira é realmente permanente.

Pitt trabalha o personagem com uma mistura de confiança e melancolia. Existe uma certa leveza em Conrad, mas também uma tristeza que cresce à medida que ele percebe que o tempo está passando.

A relação entre Conrad e Nellie ajuda a criar uma das dimensões mais humanas do filme. Enquanto ela representa a estrela que está nascendo, ele simboliza aquela que começa a desaparecer.

Diego Calva e o sonho de pertencer

Diego Calva interpreta Manny Torres, um jovem que sonha em fazer parte de Hollywood.

Diferentemente de Nellie e Conrad, Manny começa sua trajetória de fora da máquina. Ele observa aquele universo com admiração e deseja encontrar um espaço dentro dele.

Sua trajetória funciona como uma espécie de porta de entrada para o espectador.

Manny começa acreditando que Hollywood é um lugar onde sonhos podem se tornar realidade. Conforme avança, porém, percebe que o caminho até o sucesso envolve escolhas difíceis e, em determinados momentos, concessões que podem cobrar um preço alto.

A transformação do personagem é uma das partes mais interessantes da narrativa.

Ele não permanece o mesmo homem que chegou àquele mundo. O ambiente ao seu redor modifica suas prioridades, suas relações e sua maneira de enxergar o cinema.

Hollywood diante do próprio espelho

Um dos maiores méritos de Babilônia está justamente na capacidade de utilizar uma história ambientada no passado para falar sobre questões que continuam presentes.

A indústria cinematográfica mudou profundamente desde os anos retratados no filme, mas algumas características permanecem.

A busca pela fama continua existindo. A necessidade de se reinventar também. Novas tecnologias continuam modificando a forma como filmes são produzidos e consumidos.

Nesse sentido, a transição do cinema mudo para o sonoro pode ser interpretada como uma representação de outras grandes transformações enfrentadas pela indústria ao longo das décadas.

Chazelle mostra que Hollywood sempre foi um lugar de mudanças rápidas. Quem consegue acompanhar pode permanecer no topo. Quem não consegue pode ser deixado para trás.

Bastidores revelam o preço do glamour

Uma das características mais interessantes do longa é mostrar que o glamour visto pelo público é apenas uma parte da história.

Nos bastidores, existe trabalho pesado, pressão, improvisação e, muitas vezes, desespero.

As sequências envolvendo a produção dos primeiros filmes sonoros estão entre os melhores momentos da obra. O que inicialmente parece uma evolução tecnológica empolgante rapidamente se transforma em uma situação quase caótica.

Microfones precisam ser posicionados corretamente. Os atores precisam controlar a voz. Ruídos antes ignorados passam a comprometer uma cena inteira.

A mudança parece simples quando observada de fora, mas o filme mostra o impacto que ela teve sobre profissionais que precisavam aprender uma nova maneira de fazer cinema praticamente de um dia para o outro.

Uma fotografia que transforma decadência em espetáculo

A fotografia de Linus Sandgren é outro elemento fundamental.

O filme utiliza cores vibrantes, iluminação intensa e grandes movimentos de câmera para criar uma Hollywood quase fantástica.

As festas são retratadas como explosões de energia. Os cenários parecem maiores do que a própria realidade. Tudo é exagerado.

Mas existe uma contradição por trás dessas imagens.

Quanto mais brilhante parece o espetáculo, mais evidente se torna a decadência dos personagens.

A beleza visual não esconde a tristeza. Pelo contrário: muitas vezes, ajuda a destacá-la.

É como se Chazelle estivesse dizendo que o sonho pode ser maravilhoso justamente porque também pode esconder um pesadelo.

A música como coração do filme

A parceria entre Damien Chazelle e o compositor Justin Hurwitz volta a ser um dos grandes destaques.

A trilha sonora mistura jazz, elementos orquestrais e momentos de grande intensidade para acompanhar o ritmo frenético da narrativa.

A música não aparece simplesmente como fundo.

Ela participa da construção emocional das cenas e, em determinados momentos, parece conduzir os personagens.

Existe uma relação muito forte entre som e imagem, algo especialmente significativo em um filme sobre a própria transformação do cinema em uma indústria sonora.

Um roteiro ambicioso e imperfeito

Chazelle também assina o roteiro e não esconde sua ambição.

São várias histórias conectadas, diferentes personagens, mudanças de ritmo e momentos que transitam entre comédia, drama e tragédia.

Nem tudo funciona com a mesma intensidade.

Em alguns momentos, o filme parece perder um pouco o foco. Algumas subtramas poderiam receber mais desenvolvimento, enquanto determinadas sequências parecem interessadas mais em provocar do que em avançar a história.

Mas essa irregularidade também faz parte da experiência.

Babilônia é um filme grande demais para caber confortavelmente em uma única categoria.

Ele quer falar sobre cinema, fama, tecnologia, desejo, fracasso e memória ao mesmo tempo.

Um filme que não pede desculpas

Talvez a principal característica de Babilônia seja sua coragem.

Chazelle não tenta suavizar Hollywood. Ele mostra festas, excessos, drogas, ambição e comportamentos autodestrutivos, construindo uma visão propositalmente desconfortável daquele universo.

É um filme que pode cansar justamente por não saber diminuir a intensidade.

Mas também é essa disposição para correr riscos que faz com que a produção tenha personalidade.

Em vez de entregar uma versão romantizada da indústria, Chazelle apresenta um lugar onde o sonho e o pesadelo vivem lado a lado.

Um épico sobre o nascimento e a morte dos sonhos

No fim, Babilônia é menos uma história sobre Hollywood e mais uma reflexão sobre o que acontece quando pessoas depositam tudo o que têm em um sonho.

Alguns conseguem chegar ao topo. Outros ficam pelo caminho.

Alguns são lembrados. Outros desaparecem.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior força do filme.

Hollywood sobrevive às pessoas que passam por ela. As estrelas mudam, as tecnologias mudam, os estilos mudam, mas a indústria continua.

Por isso, o filme funciona simultaneamente como uma celebração e como um funeral.

É uma carta de amor ao cinema, mas também um lembrete de que por trás de cada grande espetáculo existem pessoas que pagam um preço para mantê-lo de pé.

Imperfeito, exagerado e muitas vezes desconcertante, Babilônia é exatamente o tipo de obra que Damien Chazelle parece ter escolhido fazer: um filme que não pede permissão para ser grandioso.

E talvez seja justamente por isso que, mesmo depois dos créditos finais, ele continue ecoando na memória.