A Polícia Federal (PF) encontrou, durante uma investigação, uma mensagem de WhatsApp que indica que Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recebeu de Roberta Luchsinger uma minuta de contrato relacionada à possível venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. O documento teria sido encaminhado pela empresária, que mantém relação de amizade com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. As informações foram divulgadas inicialmente pelo jornal O Globo e posteriormente repercutidas por outros veículos.

O episódio passou a integrar o conjunto de elementos analisados pela PF em investigações que envolvem possíveis relações entre empresários, lobistas e pessoas próximas ao núcleo político do governo federal.

É importante destacar, porém, que o recebimento da minuta, por si só, não comprova que o contrato tenha sido firmado, que tenha havido favorecimento ou que qualquer dos citados tenha cometido crime. Segundo as informações disponíveis, o negócio não chegou a ser concretizado.

A apuração ocorre sob sigilo e envolve diferentes frentes de investigação.

Documento foi enviado por WhatsApp

De acordo com as informações divulgadas, a PF identificou a conversa ao analisar dados do telefone celular de Roberta Luchsinger, que está entre as pessoas investigadas no âmbito da Operação Sem Desconto.

Na conversa, aparece o envio de um documento relacionado a uma possível negociação de medicamentos à base de canabidiol com o Ministério da Saúde. Marcola confirmou a interlocutores que recebeu a minuta, mas, segundo relatos publicados, negou ter dado encaminhamento ao documento dentro do governo.

A defesa de Lulinha também afirmou que teve acesso apenas parcial aos autos e sustentou que Marcola não teria encaminhado a minuta para integrantes do governo federal. O advogado Marco Aurélio de Carvalho também afirmou que Lulinha é amigo de Roberta, mas negou que ele tenha relação direta ou indireta com os negócios da empresária.

A defesa de Roberta, por sua vez, informou que o processo está sob sigilo e optou por não comentar o conteúdo da investigação.

Uma investigação que envolve diferentes personagens

O caso ganhou maior dimensão porque a PF também investiga possíveis relações de Roberta Luchsinger com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontado nas investigações como um dos personagens centrais de um esquema relacionado a descontos fraudulentos em aposentadorias e pensões.

Segundo informações reunidas nas investigações, Antunes também teria demonstrado interesse em negócios envolvendo produtos de cannabis medicinal.

Mensagens encontradas pela PF indicam que funcionários ligados a Antunes discutiram, em dezembro de 2024, uma minuta de Termo de Referência que previa a aquisição de aproximadamente 1,2 milhão de frascos de canabidiol pelo Ministério da Saúde.

O documento mencionava a possibilidade de contratação por dispensa de licitação e indicava empresas que poderiam participar do negócio.

A PF, entretanto, não informou que o documento encontrado no celular de Roberta e a minuta discutida pelos funcionários de Antunes sejam necessariamente o mesmo arquivo. Um ex-funcionário ouvido no contexto da apuração afirmou que os documentos seriam iguais, mas essa informação ainda faz parte dos elementos investigados.

Negócio poderia movimentar centenas de milhões

A eventual compra prevista na minuta poderia representar um negócio de grande dimensão financeira.

Segundo informações divulgadas na imprensa, os produtos mencionados tinham preços de mercado que poderiam variar aproximadamente entre R$ 400 e R$ 900 por frasco, dependendo da concentração e das características do medicamento.

Caso uma operação envolvendo 1,2 milhão de unidades tivesse sido efetivamente realizada nesses valores, o negócio poderia alcançar centenas de milhões de reais.

O Termo de Referência, porém, é apenas uma etapa de um eventual processo de contratação pública. A existência de uma minuta não significa que a compra tenha sido autorizada, realizada ou paga.

E, neste caso específico, não houve a concretização do contrato, segundo as informações disponíveis.

Ministério da Saúde nega contratação

O Ministério da Saúde afirmou que não houve discussão para a oferta do medicamento à base de canabidiol na rede pública dentro dos moldes mencionados na investigação.

Segundo a pasta, o produto citado sequer está incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e, portanto, não é adquirido ou fornecido regularmente pelo ministério.

A manifestação é relevante porque o ponto central da investigação envolve justamente a possibilidade de uma contratação pública que, conforme os documentos analisados, não avançou.

O Ministério da Saúde também já havia informado, em outra ocasião, que uma reunião realizada com Antônio Carlos Camilo Antunes ocorreu dentro das atribuições do então secretário-executivo da pasta, Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger.

Na avaliação apresentada pelo próprio Berger, o encontro não resultou em contratação ou aquisição de produtos pela pasta.

Relação com o caso do “Careca do INSS”

A investigação sobre o possível contrato de canabidiol está inserida em um contexto mais amplo.

Antunes é investigado por sua atuação relacionada a entidades que participaram de operações envolvendo descontos associativos considerados fraudulentos em benefícios previdenciários.

Ao mesmo tempo, a PF passou a analisar relações entre diferentes pessoas que aparecem em contatos, reuniões e transações financeiras relacionadas a negócios com o poder público.

Roberta Luchsinger aparece nesse conjunto de apurações e também é citada em investigações que buscam esclarecer sua relação com Lulinha e com outros empresários.

A PF ainda procura estabelecer se essas relações tiveram alguma consequência prática na obtenção de contratos ou no acesso a integrantes da administração pública.

Pagamento de R$ 249 mil também está sob investigação

Outro elemento que chamou atenção dos investigadores foi uma transferência financeira feita por Roberta para Marcola.

O valor, segundo informações divulgadas anteriormente, foi de R$ 249 mil. Marcola afirmou que se tratava de um empréstimo pessoal e que a quantia havia sido posteriormente quitada.

A PF identificou a operação durante a análise do celular da empresária.

O episódio passou a ser considerado pelos investigadores dentro do contexto mais amplo das relações entre os envolvidos. Até o momento, entretanto, as informações divulgadas não permitem concluir que a transferência esteja relacionada diretamente à minuta do contrato de canabidiol.

A defesa de Marcola sustenta que o dinheiro teve origem em uma relação privada e que a dívida foi quitada.

Lulinha é investigado

Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, também aparece nas investigações conduzidas pela Polícia Federal.

Segundo informações divulgadas, ele é alvo de inquéritos que apuram suspeitas de tráfico de influência. Uma das linhas de investigação busca esclarecer se houve alguma atuação para facilitar negócios envolvendo o Ministério da Saúde.

As suspeitas, contudo, ainda estão sendo investigadas e não equivalem a uma condenação ou comprovação de responsabilidade criminal.

O próprio presidente Lula declarou recentemente que, caso seu filho tenha cometido algum crime, deverá responder pelos atos. A defesa de Lulinha nega irregularidades e afirma que ele não praticou qualquer ato ilícito.

O que acontece agora

Com o avanço das investigações, a Polícia Federal deverá analisar mensagens, documentos, movimentações financeiras e contatos entre os envolvidos para tentar estabelecer se houve alguma relação entre as diferentes iniciativas comerciais.

Um dos principais pontos será esclarecer quem produziu a minuta, com qual finalidade ela foi encaminhada a Marcola, se houve tentativa de fazê-la chegar ao Ministério da Saúde e se alguma autoridade pública chegou a tomar providências a partir do documento.

Também será necessário verificar se houve qualquer vantagem indevida ou favorecimento relacionado às negociações.

Até o momento, entretanto, as informações disponíveis apontam para uma tentativa de negócio que não foi concluída.

O caso continua sob investigação e deverá depender da análise de novas provas antes que seja possível determinar responsabilidades.

Para o público, o episódio reforça a importância de acompanhar o desenrolar das apurações com cautela. Documentos e mensagens podem ajudar a esclarecer as relações entre os envolvidos, mas a existência de uma conversa, o recebimento de uma minuta ou a presença de uma pessoa em uma investigação não são, isoladamente, provas de crime.

A Polícia Federal continua reunindo elementos para determinar se houve apenas uma tentativa frustrada de negócio ou se existiram outras iniciativas destinadas a influenciar decisões dentro da administração pública. Até que as investigações sejam concluídas e eventuais decisões judiciais sejam tomadas, os citados permanecem na condição de investigados ou mencionados no inquérito.