Aprendizagem: o Brasil apresentou avanços importantes na educação pública ao longo das últimas duas décadas, mas os resultados mais recentes do ensino médio revelam um desafio que continua difícil de superar: o desempenho em Matemática permanece em um nível crítico entre os estudantes que estão concluindo a educação básica.

Um estudo divulgado nesta quinta-feira (20) pelo Todos Pela Educação, com base nos resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) entre 2005 e 2025, mostra que houve evolução no desempenho dos alunos da rede pública, especialmente nos anos iniciais do ensino fundamental. No entanto, conforme os estudantes avançam na trajetória escolar, o ritmo de melhora diminui e as dificuldades se tornam mais evidentes.

A análise considera dois níveis de aprendizagem: adequado e abaixo do básico, nas áreas de Língua Portuguesa e Matemática. Foram observados estudantes do 5º e do 9º ano do ensino fundamental e da 3ª série do ensino médio.

Os números ajudam a contar uma história que mistura conquistas e preocupações. Se, por um lado, mais crianças conseguem desenvolver habilidades consideradas adequadas nos primeiros anos escolares, por outro, muitos jovens chegam ao fim do ensino médio sem dominar conhecimentos básicos de Matemática.

Anos iniciais apresentam os melhores resultados

O desempenho mais positivo aparece entre os estudantes do 5º ano do ensino fundamental.

Em 2025, 60,7% dos alunos da rede pública apresentaram aprendizagem adequada em Língua Portuguesa, enquanto 50,6% atingiram esse nível em Matemática.

O avanço é expressivo quando comparado aos resultados registrados duas décadas antes. Em Português, a proporção de estudantes no nível adequado praticamente triplicou. Em Matemática, o crescimento foi ainda maior.

Para o diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação, Gabriel Corrêa, os números representam uma mensagem positiva para a educação básica brasileira.

O resultado mostra que políticas educacionais, práticas pedagógicas e iniciativas desenvolvidas ao longo dos anos podem produzir efeitos concretos quando há continuidade e acompanhamento.

Além disso, o 5º ano foi a única etapa analisada em que os resultados de 2025 já superaram os níveis registrados antes da pandemia.

Depois das perdas observadas durante o período de fechamento das escolas, os resultados de 2023 indicaram recuperação. Em 2025, os números confirmaram a retomada da trajetória de crescimento.

Na outra ponta, 11% dos estudantes estavam abaixo do básico em Língua Portuguesa e 16,9% em Matemática.

Desempenho começa a cair nos anos finais

Quando os estudantes chegam ao 9º ano, os avanços continuam, mas em ritmo menor.

Em 2025, 38,3% dos alunos alcançaram aprendizagem adequada em Língua Portuguesa, enquanto apenas 18,8% chegaram ao nível adequado em Matemática.

Isso significa que menos de dois em cada dez estudantes da rede pública apresentavam desempenho considerado adequado em Matemática ao final do ensino fundamental.

O número de alunos abaixo do básico também chama atenção.

Em Matemática, 29,3% dos estudantes do 9º ano estavam nessa faixa em 2025. O percentual é superior ao registrado em 2019, quando era de 27,2%.

Em Língua Portuguesa, 15,7% estavam abaixo do básico, resultado ligeiramente melhor que os 15,8% registrados em 2019.

Os dados mostram que as dificuldades que aparecem nos primeiros anos podem se acumular ao longo da vida escolar.

Um estudante que chega aos anos finais sem domínio de habilidades fundamentais de leitura, interpretação e raciocínio matemático encontra mais obstáculos para acompanhar conteúdos cada vez mais complexos.

Ensino médio concentra o maior desafio

É no ensino médio que o cenário se torna mais preocupante.

Em Língua Portuguesa, 35,2% dos estudantes da rede pública alcançaram o nível adequado em 2025. Em Matemática, entretanto, o percentual ficou em apenas 8,5%.

Na prática, isso significa que menos de um em cada dez estudantes chega ao final do ensino médio com desempenho considerado adequado em Matemática.

O dado chama ainda mais atenção quando observado pelo outro lado da classificação.

Em 2025, 58,6% dos estudantes estavam abaixo do nível básico em Matemática.

Ou seja, quase seis em cada dez jovens concluíam a educação básica sem atingir o patamar considerado mínimo de aprendizagem na disciplina.

Para Gabriel Corrêa, o resultado deve servir como alerta para a sociedade e para os gestores públicos.

A avaliação é de que o avanço observado no ensino médio foi muito pequeno ao longo das duas décadas analisadas.

Em 2005, apenas 5,2% dos estudantes apresentavam aprendizagem adequada em Matemática. Vinte anos depois, o índice chegou a 8,5%.

Apesar da melhora, o crescimento foi considerado insuficiente diante dos desafios enfrentados pelos estudantes.

Pandemia não explica todo o problema

Os efeitos da pandemia de Covid-19 também precisam ser considerados na leitura dos resultados.

O fechamento das escolas e a interrupção das aulas presenciais provocaram perdas de aprendizagem em diferentes países, e o Brasil não ficou fora desse cenário.

No entanto, os dados mostram que a dificuldade da Matemática no ensino médio é anterior à pandemia.

Em 2019, antes da crise sanitária, 51,7% dos estudantes do ensino médio já estavam abaixo do básico em Matemática.

O percentual aumentou posteriormente e chegou a 58,6% em 2025.

Isso indica que, embora a pandemia tenha agravado determinadas dificuldades, existem problemas estruturais que precisam ser enfrentados de forma permanente.

Mais jovens estão concluindo o ensino médio

Outro aspecto importante levantado pelo estudo é a expansão da conclusão do ensino médio.

Em 2005, aproximadamente quatro em cada dez jovens concluíam essa etapa até os 19 anos.

Em 2025, esse número chegou a cerca de sete em cada dez.

Essa mudança precisa ser considerada na interpretação dos resultados.

O ensino médio passou a receber uma parcela muito maior e mais diversa da população jovem. Portanto, comparar os resultados atuais com os de 20 anos atrás exige considerar também a ampliação do acesso e da permanência na escola.

A expansão é uma conquista importante, mas traz consigo a necessidade de garantir que mais estudantes não apenas concluam a etapa, mas também aprendam aquilo que é essencial.

Estados mostram avanços diferentes

Os resultados também revelam diferenças entre as Unidades da Federação.

Entre 2023 e 2025, todos os estados aumentaram o percentual de estudantes do 5º ano com aprendizagem adequada em Língua Portuguesa e Matemática.

Também houve redução da parcela de alunos abaixo do básico nas duas disciplinas nessa etapa.

O Paraná apareceu entre os estados com melhores resultados no 5º ano.

Nos anos finais do ensino fundamental, 20 estados avançaram em aprendizagem adequada em Português, enquanto 23 apresentaram melhora em Matemática.

Paraná, Ceará e Goiás estão entre os destaques.

No ensino médio, 22 estados avançaram em Língua Portuguesa entre 2023 e 2025. Em Matemática, todos apresentaram melhora no percentual de estudantes classificados no nível adequado.

Piauí e Rio Grande do Sul tiveram alguns dos maiores avanços.

Apesar disso, a redução do número de estudantes abaixo do básico foi menos uniforme. Em Matemática, apenas dez estados conseguiram diminuir esse indicador no ensino médio.

Desafios também aparecem nos municípios

A análise também observou municípios de grande porte.

Entre 46 cidades analisadas, os resultados dos anos iniciais foram predominantemente positivos. Florianópolis, Curitiba e Teresina se destacaram pelos avanços no 5º ano.

No 9º ano, entre 32 municípios com dados considerados comparáveis, 17 avançaram em aprendizagem adequada em Português e 19 em Matemática.

Florianópolis voltou a aparecer entre os destaques.

Os resultados mostram que experiências locais podem apresentar caminhos diferentes para enfrentar desafios semelhantes.

Novo Plano Nacional de Educação estabelece metas

Os números também ganham importância diante das metas previstas no novo Plano Nacional de Educação.

O PNE estabelece objetivos ambiciosos para ampliar a aprendizagem adequada e prevê que, até 2036, não haja estudantes classificados no nível abaixo do básico.

Para o 5º ano, a meta de aprendizagem adequada é de pelo menos 90%.

No 9º ano, o objetivo é alcançar 85%.

Já no ensino médio, a meta chega a 80%.

Os números atuais mostram a distância que ainda precisa ser percorrida, principalmente em Matemática.

Mais do que números, histórias de estudantes

Por trás dos percentuais existem milhões de crianças e jovens com histórias diferentes.

Há estudantes que enfrentam dificuldades familiares, falta de acesso a recursos, problemas de transporte, desigualdades regionais e diferentes condições de aprendizagem.

Também existem professores que diariamente tentam recuperar conteúdos, adaptar metodologias e encontrar maneiras de despertar o interesse dos alunos.

Por isso, os resultados do Saeb não devem ser vistos apenas como uma tabela de números.

Eles representam um retrato de como o país está conseguindo — ou não — garantir que seus estudantes aprendam.

O avanço observado nos primeiros anos mostra que é possível melhorar.

O desafio agora é fazer com que essa evolução acompanhe o aluno durante toda a trajetória escolar.

O desafio de não deixar ninguém para trás

Os resultados de 2025 deixam uma mensagem clara: o Brasil avançou na aprendizagem, mas ainda tem um longo caminho pela frente.

O desempenho do 5º ano mostra que mudanças positivas são possíveis. Já os números do 9º ano e, principalmente, do ensino médio revelam que parte importante desse ganho não está sendo sustentada ao longo da trajetória escolar.

A Matemática aparece como o principal ponto de atenção.

Ter quase seis em cada dez estudantes do ensino médio abaixo do nível básico significa que o país precisa tratar o problema como uma prioridade educacional.

Mais do que preparar os jovens para uma prova, garantir aprendizagem significa oferecer condições para que eles possam compreender o mundo, tomar decisões, ingressar no mercado de trabalho, continuar os estudos e participar plenamente da sociedade.

O desafio brasileiro para os próximos anos será transformar o avanço registrado nos primeiros anos em uma trajetória consistente até a conclusão do ensino médio.

Porque garantir que mais estudantes cheguem à escola é fundamental. Mas garantir que eles saiam dela sabendo é ainda mais importante.