A Agência Nacional do Cinema (Ancine) concedeu, em 7 de agosto, o Registro de Obra Estrangeira (ROE) para “Dark Horse”, filme de ficção inspirado na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A autorização representa uma etapa importante para a regularização da obra no Brasil, mas não significa que o longa já esteja liberado para estrear comercialmente nos cinemas do país.
A produção ganhou atenção nacional antes mesmo de chegar às salas de cinema. O filme, protagonizado pelo ator norte-americano Jim Caviezel no papel de Bolsonaro, tornou-se alvo de discussões políticas e questionamentos sobre seu financiamento e sobre a forma como as gravações realizadas em território brasileiro foram conduzidas.
Ao mesmo tempo em que o registro foi concedido, a produtora responsável pela obra no Brasil, Go Up Entertainment, permanece envolvida em procedimentos de investigação relacionados à realização do filme.
A situação coloca “Dark Horse” em uma posição incomum: enquanto avança no processo de regularização para eventual lançamento no país, a produção também é acompanhada por órgãos públicos que analisam possíveis irregularidades.
Registro não significa autorização para estreia
A concessão do Registro de Obra Estrangeira é um dos passos necessários para que uma produção estrangeira possa avançar no processo de exibição no Brasil. O filme ainda precisa cumprir outras etapas antes de chegar oficialmente ao público brasileiro.
Entre elas está a obtenção do Certificado de Registro de Título (CRT), além da classificação indicativa do Ministério da Justiça. Portanto, o registro concedido pela Ancine não deve ser confundido com uma autorização definitiva para a estreia comercial.
O pedido inicial relacionado à obra foi apresentado em 2026 e posteriormente houve a definição de uma distribuidora responsável pela circulação nacional. Segundo informações divulgadas pela imprensa, a Europa Filmes aparece vinculada à distribuição no Brasil, inclusive com a utilização do título “O Azarão” para o mercado brasileiro. Ainda não há uma data definitiva de lançamento confirmada oficialmente.
A regularização é acompanhada com atenção porque o filme desperta interesse político e cinematográfico desde o início de sua produção.
Jim Caviezel interpreta Bolsonaro
Um dos elementos que mais chamaram atenção foi a escolha do ator norte-americano Jim Caviezel para interpretar Jair Bolsonaro.
Conhecido internacionalmente por interpretar Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”, Caviezel aparece caracterizado como o ex-presidente em cenas que reconstituem momentos importantes de sua trajetória política.
A produção aborda especialmente a campanha presidencial de 2018, período em que Bolsonaro ganhou projeção nacional e acabou eleito presidente da República.
O longa também retrata o atentado sofrido por Bolsonaro durante a campanha eleitoral em Juiz de Fora, em Minas Gerais, além de momentos relacionados à recuperação do então candidato e à sua ascensão política.
“Dark Horse” é classificado pela Ancine como obra estrangeira de ficção e tem duração prevista de aproximadamente 1h40.
A proposta cinematográfica transforma acontecimentos recentes da política brasileira em narrativa dramática, colocando no centro da história um personagem que permanece como uma das figuras mais polarizadoras da política nacional.
Produção virou alvo de questionamentos
A trajetória do filme, entretanto, não ficou restrita ao campo artístico.
A Go Up Entertainment, responsável pela produção brasileira, entrou no radar da Ancine após denúncias relacionadas às gravações realizadas no Brasil.
Segundo a agência, produções estrangeiras filmadas em território brasileiro precisam comunicar previamente a realização das gravações e apresentar documentação referente às atividades desenvolvidas no país.
No caso de “Dark Horse”, a Ancine informou anteriormente que não havia recebido a comunicação exigida antes das filmagens. Por causa disso, foi instaurado um processo administrativo contra a produtora.
A agência ressaltou que o procedimento ainda está em andamento e que não antecipa conclusões sobre eventual irregularidade. A produtora, por sua vez, declarou que permanece à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos necessários.
Possível multa pode chegar a R$ 100 mil
Caso a irregularidade apontada pela Ancine seja confirmada ao final do processo administrativo, a produtora poderá sofrer sanções previstas na legislação.
Entre as possibilidades está a aplicação de multa, que pode variar de R$ 2 mil a R$ 100 mil, conforme a situação analisada pelas autoridades.
O processo, porém, precisa respeitar as etapas de defesa e análise dos documentos apresentados pela empresa.
Por isso, a existência do procedimento não significa que a produtora tenha sido definitivamente considerada culpada de qualquer irregularidade.
A Ancine informou que os resultados da apuração serão divulgados após a conclusão do processo.
Financiamento também entrou no centro da polêmica
Além das questões regulatórias, o financiamento de “Dark Horse” tornou-se um dos principais pontos de controvérsia envolvendo a produção.
A discussão ganhou força depois que o site The Intercept Brasil divulgou conversas envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Banco Master.
Segundo as informações divulgadas, Flávio teria solicitado recursos para ajudar a financiar a produção do filme. Investigações posteriores passaram a analisar a origem dos recursos e possíveis conexões com outras movimentações financeiras.
A imprensa informou que cerca de R$ 61 milhões teriam sido destinados ao projeto, embora existam versões e questionamentos sobre a estrutura financeira da produção.
A produtora nega irregularidades e sustenta que o filme foi financiado com recursos privados.
Uma perícia contratada pela defesa da Go Up Entertainment apontou custo total de aproximadamente R$ 75 milhões para a produção, considerando operações realizadas no Brasil e nos Estados Unidos.
Polícia Federal acompanha o caso
A repercussão financeira do filme também levou a Polícia Federal a buscar informações junto à Ancine.
A PF solicitou dados relacionados ao processo administrativo aberto contra a produtora. O objetivo é reunir informações que possam ajudar nas investigações envolvendo o financiamento e possíveis irregularidades relacionadas à produção.
Recentemente, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a Polícia Federal a acessar provas obtidas pela Polícia Civil de São Paulo em investigação envolvendo a produtora. A apuração inclui suspeitas relacionadas ao possível uso indevido de recursos públicos e outras questões financeiras.
As investigações ainda estão em andamento e não representam, por si só, uma conclusão de que houve crime.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades
Flávio Bolsonaro, que é candidato à Presidência da República pelo PL, reconheceu que participou das negociações relacionadas ao financiamento do filme, mas afirma que não houve irregularidade.
O senador também declarou que as contas da produção foram prestadas e que os recursos utilizados eram privados.
Apesar disso, o tema continua sendo discutido porque informações sobre os financiadores e documentos detalhados da produção ainda são objeto de questionamentos públicos.
Reportagens recentes apontaram que a produtora teria apresentado informações sobre os custos do longa, mas sem detalhar integralmente todos os financiadores e despesas.
A defesa e os responsáveis pela produção sustentam que não houve utilização irregular de dinheiro público.
Filme deve provocar debate político e cultural
Independentemente das investigações, “Dark Horse” deverá chegar ao público cercado de interesse.
A escolha de contar a trajetória de Bolsonaro em um filme de ficção transforma acontecimentos políticos recentes em produto cultural. Isso naturalmente deve provocar diferentes interpretações entre espectadores.
Para apoiadores do ex-presidente, a produção pode ser vista como uma oportunidade de apresentar uma narrativa favorável sobre sua trajetória. Para críticos, o filme poderá ser analisado sob uma perspectiva diferente, principalmente em razão das escolhas feitas pelos roteiristas e diretores.
A obra também desperta curiosidade por retratar acontecimentos que ainda estão muito presentes na memória dos brasileiros.
O atentado de 2018, a campanha presidencial, a vitória eleitoral e outros episódios da trajetória de Bolsonaro ainda fazem parte do debate político nacional.
Próximos passos
Com a concessão do Registro de Obra Estrangeira, “Dark Horse” avançou em seu processo de regularização no Brasil.
Agora, a produção ainda precisa cumprir outras exigências antes de uma eventual estreia comercial. Ao mesmo tempo, os procedimentos administrativos e investigações relacionados à produtora continuam em andamento.
O futuro do filme, portanto, será acompanhado não apenas pelos interessados em cinema, mas também por setores da política, autoridades e pelo público que acompanha as disputas envolvendo a família Bolsonaro.
A concessão do registro pela Ancine representa um avanço burocrático para a obra, mas não encerra as questões que cercam sua produção.
Enquanto o longa aguarda os próximos passos para chegar oficialmente ao público brasileiro, as autoridades continuam analisando as circunstâncias relacionadas às gravações, ao financiamento e à atuação da produtora.
“Dark Horse” chega, assim, ao mercado brasileiro carregando duas histórias paralelas: a que pretende contar nas telas, sobre a ascensão política de Jair Bolsonaro, e a que se desenvolveu fora delas, marcada por debates sobre financiamento, regras de produção audiovisual e investigações.
O resultado dessa combinação fez com que uma produção cinematográfica sobre um dos personagens mais conhecidos da política brasileira se transformasse, antes mesmo da estreia, em um dos filmes mais comentados do país.













