Fitoeno, composto encontrado naturalmente em tomates e em outras frutas e hortaliças, pode ter um papel importante na proteção do fígado contra o acúmulo de gordura, segundo um estudo realizado por pesquisadores da Tufts University, nos Estados Unidos. A pesquisa aponta que a substância, considerada precursora do licopeno, pode atuar na regulação do metabolismo hepático e estimular a utilização da gordura como fonte de energia.

O estudo, publicado na revista científica Molecular Nutrition & Food Research no último domingo (23), investigou os efeitos do composto sobre o metabolismo do fígado e identificou resultados considerados promissores na prevenção do acúmulo de gordura no órgão.

Apesar dos resultados animadores, os próprios pesquisadores ressaltam que são necessários novos estudos para confirmar se os mesmos efeitos observados em animais também podem ser reproduzidos em seres humanos.

A descoberta chama atenção principalmente porque o fitoeno está presente em alimentos relativamente comuns, como tomates, cenouras, pimentões vermelhos, melancias, damascos e toranjas-rosadas.

O que é o fitoeno?

O fitoeno é um carotenoide encontrado naturalmente em diversos alimentos. Ele participa da cadeia de produção de outros carotenoides, incluindo o licopeno, conhecido principalmente por sua presença no tomate.

Por muitos anos, o licopeno recebeu grande parte da atenção científica relacionada aos possíveis benefícios do tomate. No entanto, pesquisas anteriores já haviam levantado dúvidas sobre a capacidade de suplementos contendo apenas licopeno de produzir efeitos significativos sobre determinados problemas metabólicos do fígado.

Foi justamente a partir dessas observações que os pesquisadores da Tufts University decidiram investigar se outros componentes do tomate poderiam estar envolvidos nos efeitos considerados protetores.

Segundo os cientistas, o fitoeno apresenta uma característica importante: ele pode ser absorvido pelo organismo com maior facilidade do que alguns outros compostos relacionados.

A hipótese passou, então, a ser testada em laboratório.

Como o estudo foi realizado?

Para investigar o efeito do fitoeno, os pesquisadores utilizaram camundongos submetidos a uma alimentação rica em carboidratos refinados durante seis meses.

A dieta foi escolhida para reproduzir, dentro das limitações de um modelo animal, características de um padrão alimentar humano com elevado consumo de açúcares e carboidratos refinados, associado a alterações metabólicas e ao desenvolvimento de gordura no fígado.

Os animais foram divididos em grupos para que os pesquisadores pudessem comparar os efeitos da suplementação.

Uma parte recebeu fitoeno em uma quantidade proporcional ao que seria consumido por um ser humano que ingerisse aproximadamente três ou quatro tomates médios por dia, ou cerca de 100 gramas de pasta de tomate.

Outro grupo não recebeu a suplementação.

Depois do período de seis meses, os cientistas avaliaram diferentes aspectos da saúde dos animais, incluindo o estado do fígado, o metabolismo e a microbiota intestinal.

Menor acúmulo de gordura no fígado

Os resultados chamaram a atenção dos pesquisadores.

Os animais que receberam fitoeno apresentaram um quadro menos grave de acúmulo de gordura no fígado em comparação com aqueles que não receberam o composto.

A descoberta é relevante porque o excesso de gordura no fígado pode estar associado a alterações metabólicas e, em casos mais avançados, contribuir para problemas mais graves no funcionamento do órgão.

O estudo sugere que o fitoeno pode atuar diretamente em mecanismos relacionados ao metabolismo hepático.

De acordo com os pesquisadores, o composto foi capaz de ativar proteínas envolvidas na regulação do metabolismo do fígado. Essa ativação teria estimulado processos relacionados à utilização da gordura como fonte de energia.

Em outras palavras, em vez de permitir que parte da gordura se acumule no fígado, o organismo poderia aumentar sua utilização metabólica.

Essa possível ação ajuda a explicar por que os animais que receberam fitoeno apresentaram menor quantidade de gordura acumulada no órgão.

Efeito não parece estar relacionado à microbiota

Outro aspecto analisado pelos cientistas foi a microbiota intestinal, conjunto de microrganismos que vivem no sistema digestivo e desempenham diferentes funções no organismo.

Os pesquisadores compararam os animais suplementados com fitoeno e aqueles que não receberam o composto.

Apesar da diferença observada na saúde do fígado, a suplementação não provocou mudanças significativas na composição da microbiota intestinal dos animais.

Esse resultado levou os pesquisadores a considerar que o efeito protetor observado provavelmente está relacionado a mecanismos metabólicos específicos do fígado, e não a uma alteração significativa das bactérias intestinais.

A descoberta é importante porque amplia a compreensão sobre como os diferentes componentes presentes nos alimentos podem agir no organismo.

Tomate continua sendo destaque

Embora o estudo tenha colocado o fitoeno no centro das atenções, isso não significa que o licopeno ou os demais componentes do tomate deixaram de ser importantes.

O tomate é um alimento rico em diferentes nutrientes e compostos bioativos. Entre eles estão carotenoides, vitaminas, minerais e outros elementos que fazem parte de uma alimentação equilibrada.

A pesquisa, na verdade, reforça a ideia de que os benefícios de um alimento não necessariamente dependem de uma única substância.

Durante muito tempo, o licopeno foi considerado o principal composto responsável por diversos efeitos associados ao consumo de tomate. Agora, os pesquisadores sugerem que o fitoeno também pode desempenhar uma função importante.

Essa perspectiva pode ajudar a ciência a compreender melhor a chamada “matriz alimentar”, ou seja, a interação entre diferentes substâncias presentes naturalmente em um alimento.

Fitoeno está presente em outros alimentos

Uma das características mais interessantes da descoberta é que o fitoeno não está restrito aos tomates.

Segundo Xiang-Dong Wang, pesquisador envolvido no estudo, o composto também pode ser encontrado em tomates de diferentes colorações e em diversas frutas e hortaliças consumidas no dia a dia.

Entre os alimentos citados estão tomates amarelos, laranjas e vermelhos, além de cenouras, pimentões vermelhos, toranjas-rosadas, melancias e damascos.

Isso significa que uma alimentação variada pode fornecer diferentes fontes naturais de fitoeno.

A descoberta também reforça uma recomendação bastante conhecida entre especialistas em alimentação: priorizar frutas, verduras e legumes variados pode contribuir para uma dieta mais rica em nutrientes e compostos bioativos.

Pesquisa ainda não permite recomendações médicas

Apesar dos resultados positivos, é importante evitar interpretações exageradas.

O estudo foi realizado em animais, e resultados obtidos em camundongos não podem ser automaticamente aplicados aos seres humanos.

Ainda são necessários ensaios e pesquisas adicionais para determinar se o fitoeno apresenta os mesmos efeitos em pessoas, qual seria a quantidade adequada e se existem diferenças individuais na resposta ao composto.

Os próprios pesquisadores reconhecem essa necessidade.

Uma das questões levantadas é que algumas pessoas podem não possuir, ou podem apresentar diferenças na atividade, de determinada enzima relacionada ao mecanismo pelo qual o fitoeno atua.

Nesse caso, o benefício potencial do composto poderia variar de indivíduo para indivíduo.

Por isso, a pesquisa representa uma descoberta promissora, mas ainda não uma recomendação para que pessoas utilizem fitoeno como tratamento ou suplemento para doenças do fígado.

Alimentação continua sendo parte importante da prevenção

Enquanto novos estudos não esclarecem completamente o potencial do fitoeno, a pesquisa reforça uma mensagem mais ampla sobre alimentação e saúde.

O fígado desempenha funções essenciais para o organismo, participando do metabolismo de nutrientes, do processamento de substâncias e de diversos processos fundamentais para o funcionamento do corpo.

Hábitos alimentares pouco equilibrados, excesso de açúcar e consumo frequente de alimentos ultraprocessados podem contribuir para alterações metabólicas.

Nesse contexto, uma alimentação baseada em alimentos naturais ou minimamente processados, com presença regular de frutas, verduras e legumes, continua sendo uma estratégia importante para a manutenção da saúde.

O tomate, por exemplo, pode fazer parte de diferentes refeições e pode ser consumido de várias formas, como cru, cozido ou utilizado em preparações culinárias.

A pesquisa não significa que comer determinada quantidade de tomates diariamente irá impedir o desenvolvimento de gordura no fígado, mas indica que compostos presentes no alimento podem merecer uma atenção científica maior.

Próximos passos da ciência

Os pesquisadores da Tufts University esperam que estudos futuros possam confirmar os resultados encontrados e esclarecer melhor como o fitoeno atua no organismo humano.

Também será necessário investigar por que algumas pessoas poderiam responder de maneira diferente ao composto e qual seria a relação entre genética, metabolismo e absorção do fitoeno.

Outra questão importante será determinar se o consumo do composto por meio dos próprios alimentos é suficiente para produzir algum efeito relevante ou se seriam necessárias concentrações diferentes.

Essas respostas só poderão ser obtidas com novas pesquisas.

Uma descoberta que amplia o olhar sobre o tomate

A pesquisa coloca o tomate novamente no centro das discussões científicas sobre alimentação e saúde, mas com uma nova perspectiva.

Em vez de olhar apenas para o licopeno, os cientistas estão investigando outros componentes presentes no fruto e tentando entender como eles podem atuar individualmente e em conjunto.

O fitoeno aparece, nesse cenário, como um composto promissor. Nos animais estudados, sua presença esteve associada a um quadro menos grave de acúmulo de gordura no fígado e à ativação de mecanismos relacionados à utilização de gordura como fonte de energia.

Ainda assim, a descoberta precisa ser interpretada com cautela.

Não há, até o momento, evidências suficientes para afirmar que o fitoeno previne ou trata a gordura no fígado em seres humanos. O resultado é uma etapa inicial de investigação que poderá abrir caminho para novos estudos sobre alimentação, metabolismo e saúde hepática.

Enquanto a ciência avança, a mensagem mais segura permanece simples: uma alimentação variada, equilibrada e rica em frutas, verduras e legumes pode fazer parte de um estilo de vida saudável.

E, entre tantos alimentos disponíveis, o tomate acaba de ganhar mais um motivo para despertar a curiosidade dos pesquisadores — não apenas por sua cor vermelha e pelo conhecido licopeno, mas também por um composto menos famoso que pode ter um papel importante no funcionamento do fígado.