Caminhar mais e aumentar a quantidade de passos dados ao longo do dia pode ser uma estratégia tão eficiente quanto a prática regular de exercícios aeróbicos para ajudar no controle da asma. É o que aponta um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), que acompanhou adultos com asma moderada a grave e mostrou que diferentes formas de aumentar a atividade física podem trazer benefícios semelhantes para quem convive com a doença.

Os resultados foram publicados na revista científica Pulmonology, em 31 de maio, e chamam atenção principalmente pela possibilidade de incorporar uma atividade simples, como caminhar, à rotina de pessoas que enfrentam dificuldades para manter uma rotina estruturada de exercícios.

De acordo com a pesquisa, tanto os participantes que realizaram treinamento aeróbico supervisionado quanto aqueles que receberam orientação para aumentar o número de passos apresentaram melhora no controle da asma, na qualidade de vida e nos sintomas relacionados à ansiedade e à depressão.

A descoberta reforça a importância de manter o corpo ativo no cotidiano e pode representar uma alternativa mais acessível para pacientes que não conseguem frequentar academias, centros esportivos ou programas de exercícios supervisionados.

Estudo acompanhou pacientes com asma moderada a grave

A pesquisa envolveu 52 adultos diagnosticados com asma moderada a grave que apresentavam a doença sem controle adequado. Todos os participantes eram fisicamente inativos e já realizavam acompanhamento médico e tratamento regular para a condição.

Para avaliar os efeitos de diferentes formas de atividade física, os pesquisadores dividiram os voluntários em dois grupos.

O primeiro grupo participou de sessões de treinamento aeróbico supervisionado em esteira. Os exercícios eram realizados duas vezes por semana, durante 45 minutos, ao longo de oito semanas.

O segundo grupo recebeu uma proposta diferente. Em vez de participar de treinos estruturados, os participantes foram orientados a aumentar a atividade física durante as tarefas e deslocamentos do cotidiano, principalmente por meio de caminhadas.

Para acompanhar a evolução, os integrantes desse grupo utilizaram relógios capazes de registrar a quantidade de passos realizados diariamente.

Depois das oito semanas de intervenção, os pesquisadores fizeram novas avaliações dos participantes. O acompanhamento também prosseguiu por mais quatro meses, permitindo observar se os possíveis benefícios permaneceriam mesmo depois do encerramento da intervenção direta.

Caminhar mais apresentou resultados semelhantes

Um dos principais resultados encontrados pelos pesquisadores foi justamente a semelhança entre as duas estratégias.

Tanto o grupo que realizou exercícios aeróbicos supervisionados quanto o grupo que simplesmente aumentou a quantidade de passos apresentou melhora no controle da asma.

Também foram observadas reduções nos sintomas respiratórios e impactos positivos na qualidade de vida.

Outro ponto considerado relevante foi a melhora relacionada à saúde mental. Os participantes apresentaram redução de sintomas de ansiedade e depressão, mostrando que os benefícios da atividade física podem ultrapassar o controle dos sintomas respiratórios.

Segundo David Halen Araújo Pinheiro, pesquisador e autor do estudo, nenhuma das estratégias apresentou vantagem significativa sobre a outra.

“Ambas as intervenções são benéficas para o paciente e proporcionam melhor controle da doença. Em nosso resultado, nenhuma das estratégias se sobressaiu à outra”, explicou o pesquisador à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A conclusão abre espaço para uma reflexão importante: para algumas pessoas com asma, aumentar a movimentação durante o dia pode ser uma maneira mais viável de começar a abandonar o sedentarismo.

Benefícios permaneceram após o fim da intervenção

Os pesquisadores também analisaram o comportamento dos participantes após o período inicial de oito semanas.

Embora tenha ocorrido uma pequena redução na quantidade de passos quatro meses depois, os níveis de atividade física continuaram acima daqueles registrados antes do início do estudo.

Esse dado é importante porque mostra que parte dos hábitos adquiridos durante a pesquisa pode ter sido incorporada à rotina dos participantes.

A manutenção de um nível maior de atividade física também pode ser relevante para pessoas que têm dificuldade em manter programas muito rígidos de exercícios.

Na prática, estabelecer pequenas mudanças no cotidiano pode ser mais fácil do que assumir imediatamente uma rotina intensa de treinamento.

Substituir pequenos deslocamentos de carro por caminhadas, caminhar durante parte do trajeto para o trabalho ou aumentar gradualmente a movimentação durante o dia são exemplos de atitudes que podem contribuir para elevar o número de passos.

Caminhada pode ser uma alternativa mais acessível

Um dos aspectos destacados pelos pesquisadores é justamente a facilidade de incorporar a caminhada ao cotidiano.

Programas de exercício supervisionado podem exigir equipamentos, horários específicos, deslocamento até um local de treinamento e acompanhamento profissional.

Para determinadas pessoas, especialmente aquelas que enfrentam limitações financeiras ou de tempo, essas exigências podem dificultar a continuidade da atividade física.

A caminhada, por outro lado, pode ser realizada em diferentes ambientes e incorporada progressivamente à rotina.

“Com uma simples caminhada, ao aumentar o número diário de passos, o paciente tende a controlar a doença e obter outros benefícios”, afirmou Pinheiro.

Isso não significa, entretanto, que todas as pessoas com asma devam simplesmente começar a caminhar sem orientação.

A intensidade e a duração da atividade precisam considerar as características individuais de cada paciente, especialmente em casos de asma moderada ou grave.

Atividade física não substitui medicamentos

Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores fazem um alerta importante: aumentar a atividade física não significa abandonar o tratamento médico.

A asma é uma doença crônica que exige acompanhamento adequado e, quando prescritos, os medicamentos continuam sendo fundamentais para controlar a inflamação e prevenir crises.

A atividade física deve ser entendida como uma estratégia complementar ao tratamento.

O estudo não sugere que caminhar possa substituir medicamentos ou acompanhamento com profissionais de saúde. Pelo contrário, a proposta é oferecer mais uma possibilidade para melhorar a qualidade de vida e auxiliar no controle da doença.

Pacientes que desejam iniciar ou aumentar a prática de exercícios devem conversar com o profissional responsável pelo acompanhamento, principalmente quando apresentam sintomas frequentes ou asma de maior gravidade.

Asma pode limitar a rotina de quem convive com a doença

A asma pode provocar sintomas como falta de ar, chiado no peito, tosse e sensação de aperto no peito. Em algumas pessoas, esses sinais podem aparecer ou se intensificar durante atividades físicas.

Esse receio pode fazer com que pacientes evitem exercícios por medo de desencadear sintomas.

O problema é que a falta de atividade física pode contribuir para o sedentarismo e prejudicar a saúde de maneira geral.

Por isso, encontrar formas seguras e adaptadas de movimentar o corpo pode ser importante.

O estudo da USP contribui justamente para mostrar que não existe necessariamente apenas um caminho para aumentar a atividade física.

Para alguns pacientes, frequentar um programa estruturado de treinamento pode funcionar muito bem. Para outros, estabelecer metas de caminhada e aumentar gradualmente os passos ao longo do dia pode ser uma alternativa mais realista.

Qualidade de vida também está no centro da descoberta

Um dos aspectos mais importantes da pesquisa é que seus resultados não ficaram restritos aos sintomas respiratórios.

A melhora na qualidade de vida e a redução de sintomas de ansiedade e depressão mostram que a atividade física pode produzir efeitos mais amplos na vida de quem convive com a asma.

Viver com uma doença crônica pode gerar preocupação constante, especialmente quando a pessoa tem medo de apresentar uma crise ou precisa adaptar determinadas atividades.

Retomar gradualmente a confiança para se movimentar pode contribuir para uma rotina mais ativa e independente.

Nesse sentido, a caminhada pode representar mais do que uma simples contagem de passos. Ela pode ser uma ferramenta para recuperar hábitos, aumentar a disposição e melhorar a relação do paciente com o próprio corpo.

Uma mudança simples que pode fazer diferença

A principal mensagem do estudo é que pequenas mudanças podem ter valor.

Nem todo paciente precisa começar com treinos longos ou exercícios de alta intensidade. Para algumas pessoas, aumentar gradualmente o número de passos durante o dia pode ser uma porta de entrada para uma rotina mais ativa.

A descoberta também reforça que o controle da asma deve envolver diferentes estratégias, combinando tratamento médico, acompanhamento profissional, hábitos saudáveis e atividade física adequada.

Os resultados obtidos pelos pesquisadores da USP não eliminam a importância dos exercícios estruturados, mas mostram que caminhar mais pode produzir benefícios semelhantes em determinadas condições.

Para quem vive com asma e enfrenta dificuldades para iniciar uma rotina de exercícios, a notícia traz uma perspectiva positiva: movimentar-se mais ao longo do dia pode ser um caminho simples para cuidar da saúde.

Sempre respeitando os limites individuais e mantendo o tratamento prescrito, pequenas caminhadas podem deixar de ser apenas uma atividade cotidiana e passar a fazer parte de uma estratégia mais ampla de cuidado e qualidade de vida.