Um hábito aparentemente simples e comum, como estalar o pescoço para aliviar a sensação de rigidez ou desconforto, mudou completamente a rotina do norte-americano Donald McAvoy, de 38 anos. Conhecido como “Frue”, ele sofreu múltiplos acidentes vasculares cerebrais (AVCs) após desenvolver uma dissecção da artéria vertebral, uma condição grave que pode comprometer o fluxo de sangue para o cérebro.

Morador de Jacksonville Beach, na Flórida, Donald era considerado saudável, é casado e pai de um menino. Antes do episódio, não imaginava que um hábito que fazia regularmente poderia estar relacionado a uma emergência médica tão grave. Hoje, totalmente recuperado, ele decidiu tornar pública sua experiência para alertar outras pessoas sobre a importância de prestar atenção a sintomas persistentes e buscar orientação profissional.

O episódio aconteceu em dezembro de 2023, quando Donald estava em casa assistindo a uma partida de futebol. De maneira repentina, começou a apresentar sintomas que inicialmente poderiam parecer desconexos. Ele se engasgou, perdeu a visão e apresentou alterações neurológicas que fizeram com que precisasse ser levado rapidamente ao hospital.

A situação, no entanto, era muito mais grave do que ele poderia imaginar.

Após ser avaliado pelos médicos, Donald recebeu o diagnóstico de múltiplos AVCs. Os exames indicaram uma dissecção da artéria vertebral, uma lesão na parede de uma artéria responsável por levar sangue para regiões importantes do cérebro.

A principal suspeita levantada no caso foi de que a condição poderia estar relacionada a movimentos bruscos e repetitivos realizados no pescoço. Segundo o relato do próprio paciente, ele tinha o costume de estalar a região sempre que sentia rigidez ou dores.

É importante destacar que isso não significa que estalar o pescoço necessariamente provoque AVC. A dissecção das artérias cervicais é uma condição rara e pode ter diferentes causas. Entretanto, movimentos bruscos ou manipulações do pescoço estão entre os fatores que podem ser considerados em determinados casos.

Um hábito que parecia inofensivo

Donald contou ao portal The Sun que costumava estalar o próprio pescoço quando sentia a região rígida ou dolorida. Para ele, tratava-se de um comportamento comum e sem grandes consequências.

“Eu costumava estalar meu próprio pescoço sempre que o sentia rígido ou dolorido”, relatou.

Com o passar do tempo, porém, ele começou a sentir dores persistentes no pescoço e nas costas. Em busca de alívio, decidiu procurar um quiroprata.

Durante uma das sessões, seu pescoço foi manipulado. Depois do procedimento, segundo seu relato, a região ficou extremamente dolorida. Em vez de interromper completamente o hábito, Donald continuou tentando aliviar o desconforto por meio de movimentos no pescoço.

Poucos dias depois, aconteceu o episódio que mudaria sua vida.

Enquanto assistia ao jogo em casa, começou a se engasgar. Seus olhos teriam revirado e sua visão ficou turva. A gravidade dos sintomas fez com que fosse levado imediatamente para uma unidade hospitalar.

No hospital, os médicos identificaram os AVCs e descobriram a dissecção da artéria vertebral.

O que é uma dissecção arterial?

A dissecção ocorre quando há uma ruptura ou lesão na camada interna de uma artéria, permitindo que o sangue penetre na parede do vaso. Isso pode provocar o estreitamento ou bloqueio da artéria e favorecer a formação de coágulos.

Quando um coágulo ou outro mecanismo interrompe o fluxo sanguíneo para o cérebro, pode ocorrer um AVC isquêmico.

As artérias vertebrais passam pela região do pescoço e ajudam a fornecer sangue para áreas importantes do cérebro. Por isso, uma lesão nesses vasos pode apresentar consequências neurológicas graves.

No caso de Donald, a suspeita médica foi relacionada à possibilidade de que os movimentos bruscos realizados no pescoço tenham contribuído para a dissecção. Entretanto, é fundamental compreender que se trata de uma associação específica ao caso e que não significa que todas as pessoas que estalam o pescoço estejam sujeitas a sofrer um AVC.

O episódio serve, principalmente, como alerta para a necessidade de atenção diante de dores persistentes ou sintomas neurológicos.

Uma corrida contra o tempo

Depois de receber o diagnóstico, Donald precisou passar por tratamentos de emergência para tentar reduzir os danos provocados pelos AVCs.

Segundo o relato, ele recebeu o medicamento trombolítico TNK e também foi submetido a uma trombectomia de emergência para retirada do coágulo.

A trombectomia é um procedimento utilizado em determinados casos de AVC isquêmico para remover mecanicamente o coágulo responsável por bloquear uma artéria cerebral. Quando indicada, a rapidez do atendimento pode ser decisiva para preservar o tecido cerebral.

Mesmo após os procedimentos iniciais, a recuperação foi longa e exigiu cuidados intensivos.

Donald precisou passar por uma traqueostomia para auxiliar a respiração e também utilizou um tubo para alimentação. Ele permaneceu 24 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Depois dessa primeira etapa, foi encaminhado para uma unidade de reabilitação, onde permaneceu por mais 24 dias.

A alta hospitalar não significou, entretanto, o fim da batalha. Fora do hospital, ele ainda precisou enfrentar meses de fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia para recuperar habilidades afetadas pelos AVCs.

“O maior desafio da minha vida”

A recuperação exigiu paciência, esforço e adaptação. Atividades consideradas simples no cotidiano passaram a representar grandes desafios.

Donald descreveu esse período como a maior dificuldade que já enfrentou.

“A recuperação tem sido o maior desafio da minha vida. Tive que reaprender muitas habilidades básicas que a maioria das pessoas considera banais”, afirmou.

A declaração revela uma das consequências mais difíceis de um AVC: a possibilidade de perder temporariamente capacidades que antes eram realizadas automaticamente.

Caminhar, falar, se alimentar, movimentar determinadas partes do corpo ou realizar tarefas rotineiras podem exigir um longo processo de reabilitação.

Por isso, a recuperação de Donald não aconteceu de uma hora para outra. Foi resultado de acompanhamento médico e terapêutico durante meses.

Um alerta sem alarmismo

Depois de superar o episódio e recuperar-se, Donald decidiu compartilhar sua história. A intenção, segundo ele, não é provocar medo nas pessoas, mas chamar atenção para os sinais do próprio corpo e para os riscos associados a manipulações bruscas do pescoço em situações específicas.

“Se alguém tivesse me dito que a manipulação do pescoço ou estalos bruscos no pescoço poderiam, em casos raros, contribuir para uma dissecção da artéria vertebral, eu teria sido muito mais cauteloso”, afirmou.

A história também reforça a importância de procurar atendimento médico diante de sintomas inesperados, principalmente quando surgem de maneira repentina.

Alterações súbitas na visão, dificuldade para falar, fraqueza ou dormência em um lado do corpo, perda de equilíbrio, confusão mental e dor de cabeça intensa podem ser sinais de AVC e exigem atendimento de emergência.

No caso de Donald, a perda da visão e as alterações que ocorreram enquanto ele estava em casa foram fundamentais para que a família percebesse que havia algo grave acontecendo.

O reconhecimento rápido dos sintomas e a busca imediata por atendimento podem fazer diferença no tratamento de um AVC.

Uma segunda chance

Hoje, totalmente recuperado, Donald olha para trás e vê uma experiência que transformou sua maneira de enxergar a própria saúde.

O homem que antes considerava o estalo no pescoço apenas uma maneira de aliviar o desconforto passou a enxergar a importância de compreender melhor os riscos envolvidos em determinadas manipulações.

Sua história não significa que toda dor no pescoço esteja relacionada a uma dissecção arterial, nem que estalar o pescoço inevitavelmente cause problemas graves. Casos como o dele são raros e devem ser analisados individualmente por profissionais de saúde.

O principal ensinamento está na atenção aos sinais persistentes e na necessidade de buscar avaliação quando algo foge do padrão habitual.

Para Donald, compartilhar a própria experiência é uma forma de transformar um período extremamente doloroso em uma oportunidade de ajudar outras pessoas.

“Se a minha história ajudar a salvar ao menos uma vida, então cada parte difícil desta jornada terá valido a pena ser compartilhada”, declarou.

A trajetória de Donald mostra como uma emergência de saúde pode surgir de maneira inesperada e mudar completamente a vida de uma família. Também evidencia a importância do atendimento rápido, da reabilitação e do apoio durante o processo de recuperação.

Depois de enfrentar múltiplos AVCs, passar por procedimentos de emergência, permanecer semanas na UTI e encarar meses de terapias, ele conseguiu reconstruir sua rotina.

Seu relato permanece como um alerta para que as pessoas não ignorem sintomas persistentes e procurem orientação adequada antes de realizar manipulações no pescoço por conta própria.