O consumo regular de café pode estar relacionado a diferenças na composição corporal e em alguns mecanismos metabólicos do organismo. É o que sugere um estudo publicado em 16 de julho no European Journal of Nutrition, conduzido por pesquisadores da Universidade de Oulu, na Finlândia.
A pesquisa analisou informações de 2.264 adultos, com idade média de 46 anos, e identificou que as pessoas que consumiam mais café apresentavam, em média, menor quantidade de gordura corporal e maior massa muscular esquelética quando comparadas às que bebiam menos da bebida.
Os resultados chamaram a atenção porque essas diferenças foram observadas mesmo entre participantes que apresentavam índices de massa corporal semelhantes.
Apesar dos achados, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: o estudo identificou associações, mas não permite afirmar que beber café seja a causa direta da menor quantidade de gordura ou do aumento da massa muscular.
A descoberta abre espaço para novas investigações sobre a relação entre a bebida, o metabolismo e os hormônios.
Pesquisa analisou composição corporal
O café faz parte da rotina de milhões de pessoas ao redor do mundo. Para muitos, a bebida está associada ao início do dia, ao trabalho, aos estudos ou a momentos de convivência.
Além da cafeína, entretanto, o café contém uma grande quantidade de outros compostos químicos que podem interagir com diferentes processos do organismo.
Foi justamente essa relação que chamou a atenção dos pesquisadores da Universidade de Oulu.
Ao analisar os participantes, os cientistas observaram que aqueles que relataram maior consumo de café apresentavam características corporais diferentes.
Entre os principais resultados estava uma menor quantidade de gordura corporal e uma maior massa muscular esquelética.
A massa muscular esquelética corresponde aos músculos ligados aos ossos e responsáveis por movimentos voluntários, como caminhar, correr, levantar objetos e realizar atividades cotidianas.
O resultado é particularmente interessante porque as diferenças foram identificadas mesmo quando os participantes apresentavam índices de massa corporal semelhantes.
Isso mostra que o índice de massa corporal, embora seja uma medida amplamente utilizada, não revela sozinho como o peso de uma pessoa está distribuído entre gordura e massa muscular.
Alterações também apareceram em marcadores metabólicos
Os pesquisadores também encontraram diferenças em alguns marcadores relacionados ao metabolismo.
Um dos pontos observados foi a presença de níveis mais baixos de aminoácidos de cadeia ramificada, conhecidos pela sigla BCAAs, entre os participantes que consumiam mais café.
Os BCAAs são aminoácidos envolvidos em processos relacionados ao metabolismo e à função muscular. Alterações nos níveis dessas substâncias no sangue já foram associadas em pesquisas anteriores a condições metabólicas, incluindo resistência à insulina e diabetes tipo 2.
No entanto, a presença de níveis diferentes desses compostos entre consumidores de café não significa, por si só, que a bebida possa prevenir ou tratar doenças metabólicas.
Os pesquisadores destacam que é necessário compreender melhor os mecanismos envolvidos antes que qualquer conclusão clínica possa ser estabelecida.
Hormônios apresentaram diferenças entre homens e mulheres
Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa apareceu na análise dos hormônios sexuais.
Entre os homens que relataram maior consumo de café, foram observados níveis mais elevados de testosterona, além de um perfil considerado mais favorável em alguns marcadores relacionados à glicose e à insulina.
Nas mulheres, as associações encontradas foram mais discretas.
O consumo maior de café esteve relacionado a níveis mais elevados de uma proteína responsável pelo transporte de hormônios no sangue e a uma menor disponibilidade de hormônios androgênicos.
Essas diferenças levaram os pesquisadores a considerar que a relação entre café, metabolismo e hormônios pode ocorrer de maneira distinta entre homens e mulheres.
O pesquisador Luca Verroest, da Universidade de Oulu, destacou justamente esse aspecto da pesquisa.
Segundo ele, ainda existe pouco conhecimento sobre a maneira como o consumo habitual de café pode se relacionar com processos metabólicos e hormonais.
O conjunto de alterações observado nos hormônios sexuais, com diferenças entre homens e mulheres, permaneceu mesmo depois que os pesquisadores consideraram fatores como índice de massa corporal e estilo de vida.
Café pode ser mais complexo do que parece
Embora seja uma bebida presente no cotidiano de grande parte da população, o café é uma mistura complexa de substâncias.
A cafeína é provavelmente o componente mais conhecido, mas a bebida também contém centenas de outros compostos.
Essas substâncias podem variar de acordo com a origem do grão, o tipo de torra, a forma de preparo e a quantidade consumida.
Por esse motivo, não é possível assumir que todos os tipos de café produzam exatamente os mesmos efeitos observados na pesquisa.
A quantidade consumida também é um fator importante.
Uma pessoa que bebe uma pequena quantidade de café ao longo do dia está exposta a uma concentração diferente de cafeína e outros compostos em comparação com alguém que consome várias xícaras diariamente.
Além disso, características individuais, como idade, alimentação, nível de atividade física, sono e hábitos de vida, podem influenciar a composição corporal e os marcadores metabólicos.
Estudo não prova relação de causa e efeito
Esse é um dos principais pontos que precisam ser considerados ao interpretar os resultados.
O estudo analisou dados dos participantes e identificou relações entre o consumo de café e determinadas características corporais e metabólicas.
Entretanto, os participantes não foram acompanhados durante um longo período para observar se aumentar o consumo de café provocaria mudanças na composição corporal.
Isso significa que não é possível afirmar que o café tenha sido responsável pela menor quantidade de gordura ou pela maior massa muscular observada.
Existem diversas outras possibilidades.
Por exemplo, pessoas que consomem mais café podem apresentar hábitos de vida diferentes daqueles que bebem pouca ou nenhuma quantidade da bebida. Elas podem ter padrões distintos de alimentação, atividade física, rotina profissional ou sono.
Mesmo quando os pesquisadores ajustam os resultados levando em consideração algumas dessas características, sempre pode existir a influência de fatores que não foram completamente avaliados.
Por isso, os resultados devem ser interpretados como uma associação que merece ser investigada, e não como uma comprovação de benefício causado diretamente pelo café.
Novas pesquisas serão necessárias
Os autores defendem a realização de novos estudos para compreender melhor os resultados.
Pesquisas que acompanhem participantes durante vários anos poderão ajudar a descobrir se mudanças no consumo de café são acompanhadas por alterações na composição corporal ou em marcadores metabólicos.
Também será importante investigar quais componentes da bebida podem estar envolvidos.
A cafeína é uma possibilidade, mas outros compostos presentes no café também podem desempenhar algum papel.
Estudos futuros poderão comparar diferentes tipos de café, métodos de preparo e quantidades consumidas, além de considerar características individuais dos participantes.
Esse tipo de investigação é importante porque pode ajudar a separar o que é consequência direta do consumo da bebida daquilo que está relacionado ao estilo de vida de quem costuma beber café.
O que o consumidor deve levar do estudo?
A pesquisa não significa que o café possa ser considerado uma bebida capaz de promover emagrecimento ou ganho de massa muscular.
Também não significa que pessoas que não consomem café devam começar a beber a bebida com o objetivo específico de alterar a composição corporal.
O que o estudo mostra é uma associação interessante que pode ajudar os cientistas a compreender melhor como determinados hábitos alimentares estão relacionados ao metabolismo humano.
Para quem já consome café, o resultado acrescenta uma nova perspectiva sobre uma bebida que há muito tempo é estudada pela ciência.
Entretanto, a quantidade e a forma de consumo continuam sendo importantes.
Adicionar grandes quantidades de açúcar, cremes ou outros ingredientes ao café, por exemplo, modifica significativamente o perfil nutricional da bebida.
Além disso, o excesso de cafeína pode provocar efeitos indesejados em algumas pessoas, como dificuldade para dormir, ansiedade, palpitações ou desconforto gastrointestinal.
Por isso, qualquer decisão relacionada ao consumo deve considerar a individualidade de cada pessoa.
Café continua sendo tema de investigação científica
O estudo da Universidade de Oulu reforça que alimentos e bebidas presentes na rotina podem ter relações complexas com o funcionamento do organismo.
O café é um exemplo claro disso.
Ao mesmo tempo em que a bebida é consumida diariamente por milhões de pessoas, seus efeitos podem variar de acordo com quantidade, preparo, características individuais e contexto geral de saúde.
A pesquisa publicada no European Journal of Nutrition acrescenta novas informações ao conhecimento científico ao encontrar uma associação entre maior consumo de café, menor gordura corporal, maior massa muscular esquelética e diferenças em determinados marcadores metabólicos e hormonais.
Mas a própria natureza do estudo exige cautela.
Ainda não se sabe se o café causa diretamente essas diferenças, quais componentes seriam responsáveis por elas ou se outros fatores explicam parte dos resultados.
Por enquanto, o principal recado é de equilíbrio: o café pode continuar fazendo parte de uma rotina alimentar saudável para muitas pessoas, mas não deve ser encarado como uma fórmula para emagrecer ou ganhar músculos.
A resposta definitiva sobre essa relação dependerá de novas pesquisas, especialmente aquelas capazes de acompanhar as pessoas ao longo do tempo e investigar de maneira mais precisa os mecanismos por trás dos resultados observados.















