A procura por reforço escolar ganhou força no Brasil em 2026. Com o avanço do segundo semestre letivo, muitas famílias passaram a buscar alternativas para ajudar os filhos a recuperar conteúdos, melhorar as notas e se preparar para as provas finais e os processos seletivos de ingresso no ensino superior.

Um levantamento divulgado pela plataforma de serviços GetNinjas aponta que os pedidos relacionados a serviços escolares e aulas de reforço cresceram 52% em agosto de 2026, na comparação com o mesmo mês do ano anterior. A empresa, entretanto, não informou o número absoluto de solicitações, o que limita a avaliação sobre o tamanho desse crescimento.

Para Pedro Nazareth, CEO da plataforma, o movimento pode estar relacionado ao retorno às aulas e à proximidade do encerramento do ano letivo. Nesse período, as dificuldades de aprendizagem tendem a ficar mais evidentes, levando pais e responsáveis a procurar ajuda especializada.

A demanda envolve tanto estudantes que precisam recuperar conteúdos e melhorar o desempenho quanto aqueles que desejam chegar mais preparados às provas escolares, vestibulares e outros processos seletivos.

Embora o aumento registrado pela plataforma indique uma movimentação importante no setor, especialistas ressaltam que os dados de uma única empresa não permitem concluir, isoladamente, que a procura por reforço escolar cresceu na mesma proporção em todo o país.

Reforço escolar vai além da recuperação de notas

A contratação de professores particulares costuma ser associada à recuperação de notas baixas, principalmente em disciplinas como matemática, português, física e química. No entanto, o fenômeno é mais amplo e está relacionado à maneira como as famílias procuram complementar a educação oferecida pelas escolas.

Pesquisadores utilizam o conceito de ensino suplementar, também conhecido internacionalmente como shadow education, para estudar essas atividades realizadas fora do ensino regular. A expressão abrange diferentes formas de aprendizagem complementar, desde aulas particulares até cursos preparatórios e atividades extracurriculares.

Em entrevista à CNN Brasil, Fernando Vizotto Galvão, professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador do tema, destaca que a interpretação do crescimento da procura exige atenção às características dos serviços oferecidos por cada plataforma.

Segundo o pesquisador, empresas diferentes podem atender a públicos específicos, com serviços, preços e estratégias próprias. Por isso, um aumento expressivo em determinada plataforma não representa necessariamente o comportamento de todo o mercado educacional.

O ensino suplementar também pode incluir aulas de idiomas, música, esportes e artes. Essas atividades ampliam as oportunidades de desenvolvimento dos estudantes, mas o acesso depende, em muitos casos, da capacidade financeira das famílias.

Quem paga por aulas particulares no Brasil?

As famílias de classe média estão entre os grupos que mais recorrem ao ensino suplementar, de acordo com a análise de Galvão. Para esses responsáveis, o desempenho escolar dos filhos pode representar uma etapa importante na construção de oportunidades profissionais e sociais no futuro.

No ensino médio, a procura pode ser ainda mais intensa, especialmente porque essa fase costuma concentrar preocupações com vestibulares, Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e ingresso nas universidades.

A contratação de um professor particular, entretanto, não acontece apenas quando o estudante apresenta dificuldades. Algumas famílias procuram esse tipo de serviço para aprofundar conhecimentos, antecipar conteúdos e ampliar as chances de alcançar resultados acima da média.

Galvão explica que as aulas podem funcionar como uma estratégia para aumentar a vantagem educacional de determinados estudantes, e não apenas como uma solução para problemas de aprendizagem.

Esse comportamento pode alimentar uma disputa por desempenho. Quando muitas famílias passam a investir em recursos semelhantes, aquilo que inicialmente representava uma vantagem individual pode deixar de ser suficiente, estimulando novas formas de diferenciação.

Além disso, a rotina dos responsáveis também influencia a decisão. Famílias com pouco tempo disponível podem recorrer a professores particulares para acompanhar tarefas, organizar os estudos e oferecer aos filhos uma orientação mais individualizada.

A expansão das aulas on-line também contribuiu para facilitar o acesso a professores de diferentes localidades, reduzindo a dependência da proximidade geográfica. A modalidade amplia as possibilidades de contratação, embora o acesso continue condicionado à disponibilidade de internet, equipamentos e recursos financeiros.

Dados nacionais ainda são limitados

Apesar da relevância do tema, o Brasil não dispõe de uma pesquisa nacional específica que permita dimensionar com precisão quantos estudantes frequentam aulas particulares ou participam de outras modalidades de ensino suplementar.

Um dos levantamentos utilizados para observar esse comportamento é o questionário do Enem de 2014. Naquele ano, 28% dos participantes informaram ter frequentado curso de idiomas durante o ensino médio, enquanto 14% disseram ter feito cursinho pré-vestibular e 30% declararam ter participado de outro tipo de curso.

Os números ajudam a demonstrar que atividades educacionais complementares já faziam parte da trajetória de muitos estudantes naquele período. Entretanto, por serem dados de 2014, não devem ser interpretados como um retrato atualizado da realidade brasileira em 2026.

A falta de informações recentes e abrangentes dificulta a identificação das diferenças entre regiões, faixas de renda, redes de ensino e etapas escolares. Também torna mais difícil avaliar como a expansão das ferramentas digitais e as mudanças nas rotinas familiares influenciaram a procura por aulas extras.

Aulas de reforço realmente melhoram o desempenho?

Para os pais que decidem investir em um professor particular, a principal dúvida costuma ser se o dinheiro gasto produzirá resultados concretos na aprendizagem.

Segundo Galvão, a maior parte dos estudos sobre o tema aponta melhorias no desempenho em testes e avaliações entre estudantes que recebem ensino suplementar. Os benefícios podem aparecer tanto entre aqueles que precisam superar dificuldades quanto entre os que buscam preparação adicional para processos seletivos.

Apesar disso, a literatura científica não permite tratar o reforço escolar como uma solução automática. Os resultados dependem de fatores como a qualidade do professor, a metodologia utilizada, o tempo dedicado às atividades e as necessidades específicas de cada estudante.

A modalidade de atendimento também pode fazer diferença. Aulas individuais permitem trabalhar dificuldades específicas com maior atenção, enquanto atividades em grupo podem favorecer a troca de conhecimentos e apresentar custos mais acessíveis. A escolha deve considerar os objetivos de aprendizagem e as condições da família.

Outro ponto importante é evitar que a rotina de estudos se torne excessivamente pesada. O acúmulo de aulas, tarefas e preparações para provas pode gerar cansaço e reduzir o interesse do aluno pelas atividades escolares regulares.

O desafio, portanto, é encontrar equilíbrio. O reforço precisa complementar a educação formal, e não substituir completamente o vínculo do estudante com a escola, seus professores e as atividades desenvolvidas em sala de aula.

Desigualdade educacional preocupa especialistas

Além dos resultados individuais, a expansão das aulas particulares levanta uma questão social: todos os estudantes têm as mesmas condições para aprender e alcançar bons resultados?

Um aluno que recebe acompanhamento individualizado, dispõe de computador próprio, tem um ambiente tranquilo para estudar e frequenta uma escola bem equipada pode contar com vantagens em relação a outro que enfrenta dificuldades de infraestrutura, falta de tempo e ausência de apoio pedagógico.

Nesse cenário, o desempenho em uma prova não depende exclusivamente do esforço pessoal ou da capacidade intelectual. As oportunidades disponíveis ao longo da trajetória escolar também podem influenciar os resultados.

Ao discutir essa diferença, Galvão questiona até que ponto é possível comparar estudantes quando alguns tiveram acesso a um conjunto maior de recursos educacionais, enquanto outros não contaram com as mesmas condições.

A reflexão não significa desconsiderar a dedicação dos alunos que conseguem bons resultados, mas reconhecer que o acesso às oportunidades de aprendizagem é desigual.

Quando o ensino suplementar se torna um recurso importante para recuperar conteúdos e ampliar o desempenho, estudantes cujas famílias não podem pagar por essas atividades correm o risco de ficar em desvantagem.

Escola pública pode ajudar a reduzir a distância

Para enfrentar esse problema, Galvão aponta a importância de fortalecer a própria escola pública, garantindo condições adequadas para que todos os estudantes tenham oportunidades reais de aprendizagem.

Entre as medidas destacadas estão a redução do número de alunos por turma, a valorização e a remuneração adequada dos professores, a melhoria da infraestrutura e a oferta de serviços essenciais, como alimentação e transporte escolar.

O acesso a bibliotecas, espaços esportivos e ambientes apropriados para estudar também contribui para ampliar as possibilidades de desenvolvimento dos estudantes.

Essas condições não eliminam todas as diferenças sociais, mas podem reduzir a dependência de serviços privados para suprir necessidades educacionais básicas.

Uma escola estruturada, com profissionais valorizados e acompanhamento pedagógico adequado, tem melhores condições de identificar dificuldades antes que elas se transformem em obstáculos maiores para a aprendizagem.

Crescimento da procura revela um desafio para a educação

O aumento de 52% nos pedidos de reforço escolar registrados pela GetNinjas em agosto de 2026 evidencia a movimentação em torno das aulas complementares e a preocupação de muitas famílias com o desempenho acadêmico dos filhos.

Para alguns estudantes, o acompanhamento particular pode representar uma oportunidade de superar dificuldades, recuperar a confiança e desenvolver habilidades importantes. Para outros, funciona como uma preparação adicional em busca de melhores resultados em provas e processos seletivos.

O desafio está em garantir que essas oportunidades não fiquem restritas a quem pode pagar.

Enquanto as famílias procuram alternativas para apoiar os filhos, o debate sobre o ensino suplementar reforça a necessidade de investir na qualidade da educação básica e ampliar o acesso a recursos de aprendizagem.

Mais do que melhorar notas no fim do semestre, o objetivo deve ser assegurar que todos os estudantes tenham condições de aprender, desenvolver suas capacidades e construir um futuro com mais oportunidades.