A conquista de uma vaga no curso de medicina da Universidade de São Paulo (USP) representa muito mais do que a entrada em uma universidade para Giulia Maria Zanfelice, de 22 anos, moradora de Rio Claro, no interior de São Paulo. O sonho também simboliza a possibilidade de abrir um novo caminho para sua família e retribuir, por meio da profissão, os benefícios das políticas públicas que fizeram parte de sua trajetória.

Depois de cinco anos de preparação em cursinhos pré-vestibulares, a estudante se prepara para enfrentar a Fuvest pela sexta vez. A primeira fase do processo seletivo está marcada para 1º de novembro de 2026. Mesmo diante do cansaço, das frustrações e da pressão que acompanha uma disputa tão concorrida, Giulia continua determinada a conquistar uma vaga em medicina, especialmente no campus de Pinheiros, na capital paulista.

A história da jovem revela uma realidade compartilhada por milhares de estudantes brasileiros: a luta para ingressar em um curso altamente disputado, conciliando expectativas pessoais, dificuldades emocionais e a necessidade de manter a confiança mesmo quando os resultados não aparecem no tempo esperado.

Um sonho que envolve toda a família

Para Giulia, tornar-se médica está diretamente relacionado aos valores que aprendeu dentro de casa. Criada por três mulheres, ela afirma que recebeu ensinamentos sobre solidariedade, coragem, força e resiliência, princípios que continuam presentes em sua caminhada.

A estudante também pretende trabalhar no Sistema Único de Saúde (SUS), contribuindo para o atendimento da população e para o fortalecimento de um sistema que faz parte da realidade de milhões de brasileiros.

“O sonho da minha vida é ser médica, trabalhar no Sistema Único de Saúde (SUS) e poder retribuir de alguma forma as políticas públicas das quais eu e minha família fizemos e fazemos uso”, afirmou.

Ela destaca que a entrada na universidade terá um significado especial para sua família. Caso alcance o objetivo, será a primeira pessoa entre seus familiares a conquistar uma graduação.

“Fui criada por três mulheres que me ensinaram muito sobre o coletivo, sobre força, coragem e resiliência. E, quando eu entrar na faculdade, serei a primeira da minha família a ter graduação”, declarou.

A perspectiva de alcançar esse marco ajuda a explicar por que Giulia continua tentando, mesmo depois de tantas provas e períodos de preparação. Mais do que realizar uma aspiração individual, ela deseja construir uma trajetória que possa inspirar outras pessoas próximas.

A comparação com outros estudantes é um dos maiores desafios

Embora mantenha a determinação, Giulia reconhece que o caminho não é simples. Uma das principais dificuldades é lidar com a comparação com colegas que já conseguiram entrar na faculdade enquanto ela continua estudando para alcançar a própria aprovação.

Esse sentimento pode aumentar a ansiedade e a impressão de que o tempo está passando sem que o objetivo seja alcançado. Em um ambiente marcado por resultados, classificações e expectativas, é comum que candidatos questionem a própria capacidade quando veem outras pessoas avançando.

A estudante, porém, procura concentrar a atenção na própria evolução. Ela entende que cada período de preparação traz novas oportunidades de aprendizado, mesmo quando o conteúdo já foi estudado anteriormente.

Segundo Giulia, revisitar assuntos conhecidos permite compreender conceitos de maneiras diferentes, aprimorar a aplicação de fórmulas e desenvolver estratégias para resolver questões. Por isso, ela não considera os anos de cursinho uma experiência desperdiçada.

A visão demonstra uma mudança importante na forma de encarar o vestibular: em vez de avaliar toda a trajetória apenas pelo resultado de uma prova, a estudante também reconhece os conhecimentos e as habilidades adquiridos durante a preparação.

Persistência e paciência fazem parte do processo

A realidade de Giulia não é isolada. Murillo Moura, de 21 anos, também se prepara há quatro anos para conquistar uma vaga em medicina. Aluno de um curso pré-vestibular da Oficina do Estudante, ele afirma que aprender a ter paciência com o processo é um dos principais desafios de quem permanece tentando.

Para o estudante, a vontade de se tornar um bom profissional e cuidar da saúde das pessoas é o que sustenta sua motivação.

“Para quem está na mesma situação que eu, digo: não desista, porque vale a pena no final. Já ouvi relatos de várias pessoas que passaram e confirmaram isso. Então, é ter resiliência e paciência”, ressaltou.

A experiência dos dois estudantes evidencia que a preparação para medicina exige uma combinação de disciplina, constância e capacidade de lidar com a incerteza. A aprovação depende do desempenho nas provas e da concorrência, fatores que nem sempre estão inteiramente sob o controle dos candidatos.

Por isso, manter uma rotina de estudos e reconhecer os próprios limites pode ser tão importante quanto dominar os conteúdos exigidos pelo processo seletivo.

Anos de cursinho também representam amadurecimento

A psicóloga e orientadora educacional Mariana Viviani, do Colégio Oficina do Estudante, explica que o período de preparação não deve ser visto apenas como uma espera pela aprovação. Segundo ela, a experiência também contribui para o desenvolvimento de características necessárias à vida acadêmica e profissional.

Disciplina, responsabilidade, organização e resiliência são algumas das habilidades que os estudantes podem desenvolver durante os anos de estudo. Essas competências também serão importantes na graduação, especialmente em cursos exigentes como medicina, que possuem uma carga extensa de conteúdos e demandam dedicação contínua.

A especialista destaca que a preparação prolongada pode contribuir para a maturidade dos candidatos, ajudando-os a enfrentar responsabilidades e desafios que não terminam com a aprovação.

Outro ponto de atenção é a pressão emocional provocada pela ideia de que o vestibular representa uma oportunidade definitiva. Quando a prova é encarada como uma situação de “tudo ou nada”, o medo de fracassar pode se tornar ainda maior.

Para Mariana, é importante reduzir essa percepção e compreender que cada tentativa faz parte de uma caminhada mais ampla. A aprovação, quando acontece, resulta de todo o esforço acumulado, e não apenas do desempenho em um único dia.

Essa perspectiva não elimina a ansiedade, mas pode ajudar o estudante a lidar melhor com ela, valorizando o próprio percurso sem ignorar a importância de cuidar da saúde mental.

Fuvest 2027 terá mudanças na primeira fase

Além dos desafios emocionais, os candidatos precisam acompanhar as regras e o calendário do processo seletivo. No Vestibular Fuvest 2027, uma das principais mudanças está na quantidade de questões da primeira fase.

A prova passará a ter 80 questões de múltipla escolha, em vez das tradicionais 90. De acordo com a instituição, a mudança busca oferecer mais tempo para reflexão e análise em uma avaliação que exige cada vez mais a integração de diferentes áreas do conhecimento. A duração da prova será mantida.

A lista de leituras obrigatórias também passou por alterações em relação à edição anterior. Para o Vestibular 2027, as obras selecionadas são de autoria feminina, reunindo escritoras de diferentes épocas e origens.

Entre os títulos indicados estão Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta; Nebulosas, de Narcisa Amália; Memórias de Martha, de Julia Lopes de Almeida; Caminho de pedras, de Rachel de Queiroz; A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector; Geografia, de Sophia de Mello Breyner Andresen; Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane; Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo; e A visão das plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida.

Conhecer o conteúdo programático, organizar revisões e acompanhar os comunicados oficiais são medidas importantes para que os candidatos se preparem de maneira estratégica.

Confira as principais datas da Fuvest 2027

O calendário divulgado para o processo seletivo prevê as seguintes etapas:

  • 1º de novembro de 2026: aplicação da primeira fase;
  • 23 de novembro de 2026: divulgação dos convocados para a segunda fase e dos respectivos locais de prova;
  • 6 e 7 de dezembro de 2026: realização da segunda fase;
  • 8 a 11 de dezembro de 2026: provas de competências específicas para candidatos aos cursos de Música, Artes Cênicas e Artes Visuais;
  • 26 de janeiro de 2027: divulgação da primeira chamada.

Os candidatos devem consultar os canais oficiais da Fuvest para confirmar informações, verificar os locais de prova e acompanhar eventuais comunicados.

Uma trajetória que vai além do resultado

A história de Giulia mostra que a preparação para o vestibular pode envolver muito mais do que livros, exercícios e simulados. Também exige lidar com expectativas, superar frustrações e encontrar motivos para continuar quando o caminho parece longo.

Aos 22 anos, a estudante segue em busca de uma oportunidade que considera capaz de transformar sua vida e ampliar as possibilidades de sua família. A vontade de trabalhar no SUS e a influência das mulheres que a criaram continuam entre suas principais motivações.

Sua sexta tentativa será mais uma etapa dessa caminhada. Independentemente do resultado imediato, os anos de preparação já representam conhecimento acumulado, amadurecimento e experiência diante de desafios.

Para milhares de jovens que compartilham o mesmo objetivo, histórias como a de Giulia reforçam a importância de persistir sem ignorar a saúde emocional, respeitar o próprio ritmo e compreender que trajetórias diferentes não precisam seguir o mesmo calendário.

A aprovação é o objetivo, mas o percurso também tem valor. E, para quem sonha em vestir o jaleco e cuidar de outras pessoas, cada etapa pode representar mais um passo em direção ao futuro desejado.

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