O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a mencionar a possibilidade de disputar um novo mandato presidencial e afirmou acreditar que tem direito de concorrer pela terceira vez ao cargo. A declaração foi feita na quinta-feira (22 de outubro), durante um comício realizado no estado de Iowa, onde o republicano voltou a questionar o resultado das eleições presidenciais de 2020, vencidas pelo democrata Joe Biden.

Durante o discurso, Trump afirmou que teria vencido três eleições presidenciais e utilizou essa interpretação para justificar sua intenção de tentar retornar às urnas em uma futura disputa. A fala reacendeu o debate sobre os limites constitucionais para a permanência de um presidente na Casa Branca e sobre as reiteradas declarações do republicano a respeito do pleito de 2020.

“Roubaram-nos a segunda [eleição]; na verdade, ganhei três vezes, por isso acho que tenho o direito de me recandidatar”, declarou o presidente.

A afirmação faz referência à eleição de 2020, quando Trump buscou a reeleição, mas foi derrotado por Joe Biden. O resultado foi confirmado pelas autoridades eleitorais norte-americanas e pelos procedimentos institucionais previstos no país. Trump, entretanto, continua contestando o desfecho daquele pleito.

O presidente já havia manifestado em outras ocasiões o desejo de permanecer no poder por mais tempo. Apesar das declarações, a Constituição dos Estados Unidos estabelece uma restrição expressa à quantidade de mandatos presidenciais que uma mesma pessoa pode exercer.

O que diz a Constituição dos Estados Unidos?

A possibilidade de um terceiro mandato presidencial é limitada pela 22ª Emenda da Constituição norte-americana, ratificada em 1951. O dispositivo determina que nenhuma pessoa poderá ser eleita presidente dos Estados Unidos mais de duas vezes.

A regra vale independentemente de os mandatos serem consecutivos ou separados por um intervalo. Dessa forma, um presidente que tenha sido eleito duas vezes não pode simplesmente aguardar alguns anos e voltar a disputar a Presidência pela terceira vez.

A emenda foi aprovada após o período em que Franklin Delano Roosevelt ocupou a Presidência por quatro mandatos eleitorais, em um contexto histórico marcado pela Grande Depressão e pela Segunda Guerra Mundial. Antes da mudança constitucional, a tradição política norte-americana favorecia a limitação informal de dois mandatos, embora essa prática não estivesse expressamente estabelecida na Constituição.

A ratificação da 22ª Emenda transformou essa tradição em uma restrição jurídica.

No caso de Trump, a questão envolve seus dois mandatos conquistados nas urnas. Ele foi eleito em 2016, perdeu a eleição de 2020 para Biden e voltou a vencer a disputa presidencial em 2024. Considerando essas duas vitórias eleitorais, a Constituição impede que seja eleito novamente para a Presidência.

Por isso, a declaração de que teria direito a uma nova candidatura não altera, por si só, as regras constitucionais em vigor.

Qualquer tentativa de modificar esse limite exigiria enfrentar os mecanismos legais previstos no sistema norte-americano, incluindo o processo formal de alteração da Constituição, que envolve requisitos rigorosos de aprovação e ratificação pelos estados.

Trump volta a questionar a eleição de 2020

A declaração feita em Iowa também voltou a colocar em evidência as alegações de Trump sobre a eleição presidencial de 2020.

Naquele ano, o republicano tentou conquistar um segundo mandato consecutivo, mas foi derrotado por Joe Biden. Após o resultado, Trump e seus aliados contestaram a votação em diferentes estados e apresentaram questionamentos sobre o processo eleitoral.

As alegações de fraude generalizada não foram comprovadas de forma capaz de alterar o resultado oficial da eleição. Disputas judiciais, recontagens e verificações realizadas em diferentes locais não modificaram a vitória de Biden, que assumiu a Presidência em janeiro de 2021.

Mesmo assim, Trump continuou afirmando que a eleição havia sido roubada. O tema tornou-se uma das marcas de seu discurso político e permanece presente em manifestações públicas, entrevistas e comícios.

Ao declarar que venceu três eleições, o presidente associa sua contestação do resultado de 2020 à defesa de uma nova candidatura. A afirmação, no entanto, não corresponde ao número de vitórias presidenciais oficialmente reconhecidas: Trump foi eleito em 2016 e 2024, enquanto Biden venceu a disputa de 2020.

A repetição dessas alegações também mantém o debate sobre a confiança nas instituições eleitorais norte-americanas, um assunto que ganhou destaque na política do país nos últimos anos.

Declaração sobre um possível quarto mandato

A fala realizada em Iowa não foi a primeira ocasião em que Trump mencionou a possibilidade de permanecer na Presidência além dos limites previstos pela Constituição.

Em julho, o republicano fez uma declaração na qual afirmou, em tom apresentado como provocação, que pretendia concorrer a um quarto mandato. Na ocasião, também voltou a questionar o resultado da eleição de 2020.

“Para mostrar o quanto me importo com a imprensa e salvar a audiência, quero anunciar minha intenção de concorrer ao quarto mandato como presidente”, afirmou diante de jornalistas.

A referência ao quarto mandato foi interpretada no contexto das declarações recorrentes do presidente sobre a possibilidade de prolongar sua permanência no cargo. Entretanto, o comentário não altera a legislação norte-americana nem representa, por si só, a apresentação de uma candidatura formal.

A repetição desse tipo de afirmação mantém o assunto em circulação no debate político, mesmo diante da barreira constitucional.

As declarações também provocam discussões sobre a forma como o presidente aborda os limites institucionais e sobre as possibilidades legais de alterar as regras que organizam o sistema político dos Estados Unidos.

Seria possível mudar o limite de mandatos?

A alteração da 22ª Emenda exigiria um processo constitucional complexo. Nos Estados Unidos, uma emenda pode ser proposta por dois terços da Câmara dos Representantes e do Senado ou por uma convenção convocada a pedido de dois terços das legislaturas estaduais.

Depois de proposta, a mudança precisa ser ratificada por três quartos dos estados, conforme os procedimentos constitucionais aplicáveis.

Esse modelo exige um amplo apoio político e institucional. Não basta, portanto, que o presidente manifeste vontade de concorrer novamente ou que tenha apoio de parte do eleitorado.

Além disso, a Constituição norte-americana estabelece mecanismos destinados a limitar a concentração de poder e organizar a sucessão presidencial. A restrição de mandatos integra esse conjunto de regras e não pode ser afastada por uma declaração pública.

O debate sobre uma possível mudança constitucional pode ocorrer no campo político, mas qualquer alteração dependeria do cumprimento das exigências legais estabelecidas no país.

Repercussão política e institucional

As declarações de Trump têm repercussão porque envolvem duas questões centrais da democracia norte-americana: a confiança no processo eleitoral e o respeito aos limites constitucionais do Poder Executivo.

A contestação de resultados eleitorais sem comprovação suficiente pode alimentar dúvidas sobre a legitimidade das instituições. Ao mesmo tempo, a limitação de mandatos busca impedir que uma mesma pessoa permaneça indefinidamente no cargo por meio de sucessivas eleições.

No sistema dos Estados Unidos, o presidente exerce funções importantes na condução do governo federal, na política externa e na administração pública. Ainda assim, seus poderes estão sujeitos à Constituição, às leis e aos mecanismos de controle institucional.

O episódio em Iowa mostra que Trump continua utilizando a possibilidade de uma nova candidatura como parte de seu discurso público. Entretanto, a viabilidade de uma terceira eleição presidencial permanece limitada pela legislação constitucional em vigor.

Até que haja uma mudança formal nas regras, o limite de dois mandatos continua sendo o parâmetro jurídico aplicável.

O que acontece agora?

A declaração de Trump não representa uma alteração automática nas regras eleitorais nem garante a possibilidade de uma nova candidatura. O presidente pode continuar falando sobre o tema, mas uma tentativa de disputar um terceiro mandato enfrentaria a restrição estabelecida pela 22ª Emenda.

O debate deverá continuar enquanto o republicano mantiver o assunto em seus discursos e manifestações públicas. Para compreender os desdobramentos, será importante distinguir as declarações políticas dos procedimentos legais necessários para modificar a Constituição.

Por enquanto, o cenário jurídico é claro: Donald Trump foi eleito presidente em 2016 e 2024, mas não pode ser eleito para um terceiro mandato sob a regra constitucional atualmente em vigor.

A nova manifestação em Iowa, portanto, reacende uma discussão política de grande repercussão, mas não modifica o limite estabelecido pela legislação norte-americana para o exercício da Presidência.