A dor crônica na coluna pode transformar atividades simples do cotidiano em desafios que afetam não apenas a mobilidade, mas também a vida profissional, familiar e emocional. Foi essa realidade que a coordenadora de comércio exterior Alice Batista, moradora de Campinas, no interior de São Paulo, enfrentou durante 13 anos. Aos 32 anos, ela começou a conviver com fortes dores na região lombar, que foram se agravando e limitaram progressivamente sua capacidade de se movimentar.
Casada e mãe de dois filhos, Alice precisou adaptar a rotina às limitações impostas pelo problema. Sentar, caminhar e até dormir se tornaram tarefas difíceis. Nas crises mais intensas, a dor comprometia tanto sua autonomia que ela dependia da ajuda de familiares para se alimentar e ir ao banheiro.
Hoje, aos 45 anos, a paulista conta uma história diferente. Depois de passar por uma cirurgia de artrodese lombar, em novembro de 2024, ela conseguiu retomar atividades que antes pareciam distantes de sua realidade. A recuperação permitiu que voltasse a praticar exercícios, participasse de aulas de dança e viajasse com a família.
O caso chama a atenção para os impactos da dor crônica e para a importância de uma avaliação médica cuidadosa quando os tratamentos convencionais deixam de proporcionar alívio suficiente.
Treze anos convivendo com limitações
Durante mais de uma década, Alice procurou alternativas para controlar o desconforto e evitar que a condição continuasse comprometendo sua qualidade de vida. Entre os tratamentos realizados estavam sessões frequentes de fisioterapia, acupuntura e infiltrações.
Embora essas medidas proporcionassem algum alívio, os resultados eram temporários. Em determinadas situações, a melhora durava apenas algumas horas ou dias, e a dor voltava a interferir em suas atividades.
Com o passar do tempo, a necessidade de conviver com as limitações também provocou consequências emocionais. A rotina passou a ser organizada em função dos sintomas, e a possibilidade de realizar planos simples se tornou cada vez mais incerta.
“A dor foi me moldando. Fui adaptando a forma de andar, me movimentar, pensar e viver”, relatou Alice ao descrever o impacto do problema.
Ela também recordou que uma das primeiras crises mais graves aconteceu quando os filhos ainda tinham apenas dois anos. Naquele período, a dificuldade para realizar atividades básicas tornou a situação especialmente dolorosa, tanto fisicamente quanto emocionalmente.
A experiência demonstra como problemas persistentes na coluna podem ultrapassar a dimensão física. Quando a dor interfere no sono, na mobilidade e na independência, o sofrimento também pode afetar os relacionamentos, a disposição e a maneira como a pessoa enxerga o futuro.
Quando a cirurgia passou a ser considerada
Após anos de tentativas com tratamentos não cirúrgicos, a evolução do problema e a redução dos benefícios das medicações levaram à avaliação de uma intervenção para estabilizar a coluna.
Alice passou por uma artrodese lombar em novembro de 2024. O procedimento consiste na união de duas ou mais vértebras para estabilizar uma região da coluna que apresenta alterações e pode estar associada à dor ou à perda de funcionalidade.
Segundo Mário Lenza, gerente médico de Ortopedia do Hospital Israelita Albert Einstein, a técnica pode ser indicada em situações específicas, especialmente quando existe instabilidade vertebral associada a sintomas importantes e os tratamentos conservadores não oferecem resultados satisfatórios.
A indicação, porém, não é automática para todas as pessoas que sentem dores nas costas. A decisão depende da avaliação clínica, dos exames de imagem, da causa dos sintomas, das condições de saúde do paciente e dos benefícios e riscos esperados.
Por isso, especialistas destacam a importância de investigar a origem da dor antes de definir a estratégia terapêutica.
Como funciona a artrodese lombar
A artrodese é uma cirurgia destinada a promover a estabilização da coluna por meio da fusão entre vértebras. Conforme a técnica utilizada e as características de cada caso, o procedimento pode envolver a retirada de um disco intervertebral comprometido e a colocação de implantes que ajudam a manter o alinhamento e a estabilidade da região.
Em determinadas abordagens, são utilizados dispositivos de titânio, enxerto ósseo, parafusos e hastes. Esses recursos ajudam a manter as vértebras na posição planejada enquanto ocorre o processo de consolidação óssea.
A técnica escolhida varia conforme o diagnóstico e a necessidade de cada paciente. Nem todos os procedimentos de artrodese utilizam exatamente os mesmos materiais ou seguem a mesma abordagem cirúrgica.
Os avanços nas técnicas operatórias e nos implantes também ampliaram as possibilidades de tratamento. Em pacientes selecionados, métodos menos invasivos podem reduzir a agressão aos tecidos ao redor da coluna e contribuir para a recuperação. Ainda assim, os resultados dependem de vários fatores, incluindo a condição inicial, a extensão da cirurgia e o cumprimento das orientações médicas.
Recuperação trouxe mudanças importantes
No caso de Alice, a melhora foi percebida logo no período posterior à operação. Ela relatou ter despertado da anestesia com menos dor do que sentia antes da cirurgia.
A recuperação também foi acompanhada por avanços na mobilidade. Segundo seu relato, cerca de três meses depois do procedimento, já participava de atividades com bola durante as sessões de fisioterapia.
Com o passar do tempo, ela conseguiu ampliar a rotina de exercícios e recuperar parte da liberdade que havia perdido durante os anos de sofrimento.
“Acordei da anestesia com menos dor do que entrei. Com três meses, eu já estava jogando bola na fisioterapia. Hoje faço aulas de dança, vou à academia e viajo com a minha família. A cirurgia me devolveu a vida”, contou.
A mudança representa mais do que a possibilidade de praticar atividades físicas. Para quem passou anos dependendo de outras pessoas em períodos de crise, recuperar a autonomia pode significar voltar a participar da vida familiar e social com mais confiança.
Apesar do resultado relatado por Alice, a evolução de cada paciente é individual. A recuperação após uma artrodese pode exigir acompanhamento prolongado, reabilitação e adaptações nas atividades, conforme a orientação da equipe de saúde.
Dor na coluna é um problema frequente no Brasil
Problemas crônicos na coluna estão entre as condições de saúde que podem comprometer a qualidade de vida de adultos brasileiros. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já apontaram uma parcela expressiva da população convivendo com problemas crônicos de coluna.
A intensidade dos sintomas, entretanto, varia de pessoa para pessoa. Algumas apresentam desconforto ocasional e respondem a medidas conservadoras, enquanto outras enfrentam dores persistentes que limitam o trabalho, o sono e a mobilidade.
O tratamento pode envolver orientação sobre atividades físicas, fisioterapia, medicamentos e outras intervenções, dependendo do diagnóstico. A cirurgia costuma ser considerada quando existe uma indicação específica e as alternativas não cirúrgicas não produzem os resultados esperados.
O acompanhamento médico também ajuda a avaliar a evolução dos sintomas e a identificar situações que exigem investigação mais rápida.
A importância de acompanhar os resultados
Além de observar exames e aspectos técnicos, os profissionais de saúde podem utilizar questionários que registram a percepção dos próprios pacientes sobre sua recuperação. Esses instrumentos são conhecidos como medidas de resultados relatados pelo paciente, ou PROMs, na sigla em inglês.
Eles ajudam a avaliar mudanças na dor, na capacidade de realizar atividades diárias e na qualidade de vida após determinados tratamentos.
Segundo informações atribuídas ao Hospital Israelita Albert Einstein no material de origem, levantamentos da instituição indicam que 89% dos pacientes submetidos à artrodese lombar relatam melhora funcional após um ano. Esse percentual deve ser entendido no contexto dos pacientes e dos critérios utilizados pelo levantamento, não como uma garantia de resultado para todas as pessoas submetidas à cirurgia.
A avaliação individual continua sendo indispensável para estabelecer expectativas realistas e planejar o acompanhamento.
Quando procurar atendimento
Dores nas costas podem ter diferentes causas, e nem toda lombalgia indica uma doença grave ou a necessidade de cirurgia. No entanto, quando o desconforto é persistente, piora progressivamente ou começa a limitar atividades cotidianas, é importante procurar avaliação profissional.
Sinais como perda de força nas pernas, dificuldade súbita para caminhar, perda de sensibilidade na região íntima ou alterações recentes no controle da urina e das fezes exigem atendimento médico urgente.
A orientação adequada permite investigar a origem dos sintomas e identificar o tratamento mais indicado para cada situação.
Uma nova etapa após anos de sofrimento
A trajetória de Alice Batista evidencia o impacto que a dor crônica pode exercer sobre diferentes dimensões da vida e como a recuperação da mobilidade pode representar uma mudança significativa para quem conviveu durante anos com limitações.
Depois da artrodese lombar, ela voltou a realizar atividades que faziam falta em sua rotina e passou a aproveitar momentos com a família de maneira diferente.
Sua experiência também reforça a importância de não normalizar dores persistentes nem adiar a busca por atendimento quando os sintomas comprometem a autonomia. O diagnóstico correto, a avaliação criteriosa e o acompanhamento contínuo são fundamentais para definir o melhor caminho.
Embora cada caso tenha características próprias, a história mostra que, com investigação adequada e tratamento individualizado, é possível buscar mais funcionalidade, independência e qualidade de vida.
















