Um caso médico raro chamou a atenção da comunidade científica após uma mulher apresentar convulsões exclusivamente durante o período menstrual e receber um diagnóstico presumido de endometriose cerebral. A paciente, que tinha 41 anos quando sofreu a primeira crise, em fevereiro de 2019, passou por anos de investigação até que os médicos identificassem uma possível relação entre as alterações neurológicas, o ciclo menstrual e uma lesão localizada no hipocampo, região do cérebro relacionada à memória.
O acompanhamento se tornou ainda mais significativo em março de 2026, quando uma nova ressonância magnética não mostrou mais a lesão identificada nos primeiros exames. A paciente também permaneceu sem novas convulsões após passar por tratamento hormonal, iniciado em 2021.
O relato foi publicado em 11 de setembro no Journal of Clinical Medicine por pesquisadores da Universidade de Medicina e Farmácia Grigore T. Popa, na Romênia. Os especialistas levantaram a hipótese de que a mulher pudesse apresentar endometriose cerebral, uma manifestação extremamente rara da doença.
Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores ressaltaram que o diagnóstico não foi confirmado por análise de tecido. Por isso, o caso permanece classificado como presumido, e outras explicações para as convulsões e para a lesão cerebral não podem ser totalmente descartadas.
Primeiras crises e descoberta de um padrão incomum
As primeiras manifestações ocorreram em fevereiro de 2019. Durante os episódios, a mulher apresentava perda parcial ou completa da consciência, olhar fixo e confusão mental após as crises, além de dificuldades para recordar acontecimentos recentes.
A paciente não tinha histórico de epilepsia entre familiares de primeiro grau e mantinha ciclos menstruais regulares. Também não relatava sintomas frequentemente associados à endometriose, como cólicas intensas, dores durante as relações sexuais ou dor pélvica recorrente.
A avaliação neurológica ocorreu aproximadamente seis meses depois do início dos episódios. A partir daí, ela passou a registrar em um diário as datas das crises e os períodos menstruais.
O acompanhamento revelou um detalhe decisivo: as convulsões aconteciam exclusivamente durante o sangramento menstrual.
Essa relação levou os médicos a investigar a possibilidade de que as oscilações hormonais estivessem influenciando a atividade cerebral da paciente. O padrão também levantou a hipótese de epilepsia catamenial, condição em que as crises epilépticas se intensificam em determinadas fases do ciclo menstrual.
Exames identificaram uma lesão no hipocampo
Em agosto de 2019, uma ressonância magnética revelou uma alteração no hipocampo direito, estrutura cerebral importante para a formação e a consolidação das memórias e que também participa dos circuitos envolvidos nas crises epilépticas.
A primeira imagem mostrou uma área com sinal alterado e aparente inchaço nas regiões próximas. Inicialmente, os médicos consideraram diferentes possibilidades, incluindo uma malformação cerebral, uma infecção ou um tumor.
Outros exames não esclareceram a origem do problema. O eletroencefalograma, que registra a atividade elétrica cerebral, não identificou descargas típicas de epilepsia, embora tenha sido realizado fora dos episódios. Os testes de memória e raciocínio também apresentaram resultados normais.
Durante aproximadamente um ano e meio, a mulher utilizou medicamentos antiepilépticos, isoladamente ou em combinação. Entretanto, as crises continuaram acontecendo.
Uma nova ressonância, realizada em 2020, mostrou uma alteração nodular de aproximadamente um centímetro na região posterior do hipocampo. A lesão absorvia o contraste utilizado no exame e apresentava um pequeno ponto escuro, que poderia indicar a presença de cálcio ou resíduos de ferro decorrentes de um sangramento antigo.
Embora a possibilidade de tumor continuasse sendo considerada, a aparência da alteração também levantou dúvidas sobre a ocorrência de sangramento local. Esse detalhe contribuiu para que a endometriose entrasse entre as hipóteses investigadas.
Mesmo com exames adicionais, os médicos não conseguiram determinar com segurança a natureza da lesão.
Tratamento hormonal interrompeu as convulsões
Em 2021, diante da coincidência entre as crises e o período menstrual, a equipe médica decidiu iniciar um tratamento hormonal para controlar a possível influência do ciclo sobre os sintomas.
A paciente passou a utilizar dienogeste e desogestrel, dois hormônios sintéticos com ação semelhante à progesterona, empregados em determinadas estratégias de tratamento da endometriose.
Segundo os pesquisadores, as crises e os demais sintomas neurológicos desapareceram completamente. Após três meses de melhora, os medicamentos antiepilépticos foram suspensos.
A evolução foi acompanhada durante os anos seguintes, e a mulher permaneceu sem novas convulsões.
O tratamento hormonal foi interrompido em setembro de 2025, após o relato da última menstruação. Mesmo depois da suspensão, as crises não retornaram.
Em março de 2026, uma nova ressonância magnética não identificou mais a lesão anteriormente observada no hipocampo.
A sequência de acontecimentos fortaleceu a suspeita dos pesquisadores, mas não comprovou definitivamente que a endometriose tenha sido responsável pelas alterações cerebrais.
O que é epilepsia catamenial?
A epilepsia catamenial ocorre quando as crises epilépticas apresentam uma relação consistente com determinadas fases do ciclo menstrual. Segundo a literatura citada pelos autores do estudo, esse padrão pode atingir entre um terço e metade das mulheres em idade reprodutiva que vivem com epilepsia.
A explicação envolve a influência dos hormônios sobre a atividade dos neurônios.
O estrogênio pode favorecer a excitabilidade cerebral, enquanto a progesterona e determinados produtos de sua metabolização contribuem para mecanismos que reduzem a atividade neuronal.
No período próximo à menstruação, os níveis de progesterona diminuem. Em algumas mulheres com predisposição a crises epilépticas, essa mudança pode contribuir para o aumento dos episódios.
No caso analisado, as convulsões estavam concentradas durante o sangramento menstrual. Entretanto, especialistas ressaltam que essa associação não significa, necessariamente, que exista endometriose.
A própria oscilação hormonal pode explicar crises que se repetem em determinadas fases do ciclo, mesmo quando não há tecido semelhante ao endométrio fora do útero.
Por isso, o registro das datas menstruais e dos sintomas pode ajudar os profissionais de saúde a identificar padrões importantes para o diagnóstico e a escolha do tratamento.
Como a endometriose poderia atingir o cérebro?
A endometriose é uma doença caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio, camada que reveste o interior do útero, em outras regiões do organismo.
A condição é mais frequentemente identificada na pelve, podendo atingir estruturas como os ovários, o intestino e outros tecidos próximos aos órgãos reprodutivos.
A doença é considerada crônica e inflamatória, e suas manifestações variam significativamente entre as pacientes. Algumas apresentam dores intensas e dificuldades reprodutivas, enquanto outras podem ter poucos sintomas ou descobrir a condição durante investigações por outros motivos.
A presença de tecido semelhante ao endométrio no cérebro, porém, é extremamente incomum.
Entre as hipóteses discutidas pelos especialistas estão a disseminação de células por meio da circulação sanguínea ou dos vasos linfáticos e a transformação de determinadas células em tecidos com características semelhantes às do endométrio.
Outra possibilidade é que células fora do lugar tenham permanecido desde o desenvolvimento embrionário e passado a responder às alterações hormonais após o início dos ciclos menstruais.
Se um foco desse tipo estivesse localizado no hipocampo, poderia, teoricamente, sofrer alterações hormonais, inflamação e pequenos sangramentos ao longo do ciclo, contribuindo para sintomas neurológicos.
Entretanto, os mecanismos envolvidos nessa possível manifestação ainda não estão bem estabelecidos. As explicações continuam sendo hipóteses científicas, e não uma conclusão definitiva sobre o caso.
Diagnóstico exige cautela
Os pesquisadores consideraram a resposta ao tratamento hormonal, o padrão menstrual das convulsões, a evolução da lesão nas imagens e o desaparecimento da alteração na ressonância como elementos que sustentam a suspeita de endometriose cerebral.
Entretanto, nenhum desses fatores, isoladamente ou em conjunto, confirma a doença de maneira definitiva.
A confirmação por análise de tecido exigiria a identificação de células compatíveis com endometriose em uma amostra retirada da lesão. No caso da paciente, os médicos avaliaram que uma biópsia no hipocampo apresentaria riscos e optaram por não realizar o procedimento.
Outras explicações também continuam possíveis, incluindo alterações cerebrais relacionadas às próprias crises epilépticas, processos inflamatórios ou até mesmo um tumor de crescimento lento.
Além disso, o controle das convulsões com hormônios não prova que havia endometriose no cérebro, já que a intervenção também poderia ter interrompido crises desencadeadas pelas oscilações naturais do ciclo menstrual.
Os autores destacam que o estudo descreve uma única paciente e, portanto, não permite estabelecer conclusões aplicáveis a todos os casos semelhantes.
Caso reforça a importância de investigar sintomas recorrentes
A literatura médica já registrou outros relatos de possível endometriose cerebral, mas a doença nessa localização permanece excepcionalmente rara. Os pesquisadores identificaram oito casos publicados na revisão apresentada no estudo, sem encontrar, até onde relataram, outro caso com uma lesão claramente descrita no hipocampo.
A ausência de sintomas pélvicos também não foi suficiente para excluir a hipótese na paciente analisada. Ainda assim, isso não significa que mulheres que apresentam convulsões durante a menstruação tenham endometriose cerebral.
O principal aprendizado está na importância de observar a repetição dos sintomas e comunicar essas informações aos profissionais de saúde. Um diário menstrual associado ao registro das crises pode ajudar a orientar a investigação, especialmente quando existe uma relação temporal consistente.
Convulsões exigem avaliação médica, independentemente da fase do ciclo menstrual. Quando os episódios se repetem, é importante procurar atendimento especializado para investigar as possíveis causas e definir a conduta mais adequada.
O caso acompanhado durante sete anos mostra como a observação cuidadosa dos sintomas, os exames de imagem e a resposta ao tratamento podem contribuir para esclarecer condições complexas. Ao mesmo tempo, reforça a necessidade de cautela diante de doenças raras, nas quais algumas perguntas permanecem sem resposta.
Para os pesquisadores, a experiência abre espaço para novas investigações sobre a relação entre hormônios, atividade cerebral e endometriose. Embora a origem das crises dessa paciente continue sem confirmação definitiva, a evolução clínica registrada oferece informações relevantes para médicos que enfrentam situações semelhantes.
A conclusão é que convulsões associadas ao período menstrual merecem atenção e investigação individualizada, sem conclusões precipitadas. Reconhecer padrões pode ser um passo importante para o diagnóstico, mas a confirmação da causa depende da análise cuidadosa de cada caso.














