IBJR estima que receitas de plataformas clandestinas podem saltar de R$ 27,9 bilhões para R$ 56 bilhões; entidade identificou mais de 60 mil endereços suspeitos na internet e alerta para riscos aos consumidores.
O mercado ilegal de apostas esportivas no Brasil pode registrar um crescimento de 101% após a proibição do funcionamento das chamadas bets no país. A estimativa é do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidade que representa empresas do setor, e aponta que as receitas das plataformas clandestinas podem aumentar em aproximadamente R$ 28,1 bilhões por ano. O cenário levanta preocupações sobre a segurança dos apostadores, a fiscalização das atividades digitais e os desafios enfrentados pelas autoridades para combater operadores que atuam fora da legislação.
De acordo com a projeção apresentada pelo instituto, a receita anual do mercado irregular, que estaria em torno de R$ 27,9 bilhões, poderia alcançar R$ 56 bilhões. O cálculo considera uma possível migração de aproximadamente 70% da atividade anteriormente concentrada nas plataformas autorizadas para operadores clandestinos. Os outros 30% deixariam de participar desse mercado, segundo a simulação.
A estimativa foi elaborada a partir de informações do Ministério da Fazenda referentes ao primeiro semestre de 2026 e de estudos da LCA Consultoria Econômica sobre a participação de empresas ilegais no setor de apostas. O levantamento utiliza o indicador Gross Gaming Revenue (GGR), que representa a diferença entre o valor apostado pelos usuários e os prêmios efetivamente pagos.
É importante destacar que os números apresentados não correspondem ao total de dinheiro movimentado pelos brasileiros em apostas. O GGR mede a receita bruta das operações depois do pagamento dos prêmios, sendo um indicador utilizado para avaliar o tamanho econômico desse mercado.
Mais de 60 mil endereços suspeitos foram identificados
Além da projeção de crescimento financeiro, o IBJR informou ter identificado 60.477 endereços suspeitos de oferecer serviços de apostas ilegais pela internet. O número chama a atenção pelo alcance das operações digitais e pela facilidade com que novas páginas podem surgir, mudar de endereço ou divulgar links para atrair usuários.
Desse total, 34.134 endereços apresentaram características associadas à atividade de apostas, incluindo oferta de bônus promocionais, sistemas de cadastro e opções de pagamento por Pix.
Somente na terça-feira (27), a ferramenta de monitoramento LegitBet acrescentou 436 endereços à sua base de acompanhamento. Desse conjunto, 231 apresentaram características compatíveis com plataformas de apostas. O sistema também identificou 374 links suspeitos divulgados nos canais monitorados.
Os dados reforçam a preocupação com a expansão de serviços que podem operar sem autorização dos órgãos responsáveis. Entretanto, o próprio instituto ressalta que a inclusão de um endereço na base de monitoramento não significa, necessariamente, que um novo site tenha sido criado ou que todos os domínios identificados sejam comprovadamente ilegais.
A confirmação de irregularidades depende de uma investigação específica, capaz de verificar quem controla as páginas, quais serviços são oferecidos e se existe autorização para funcionamento.
Sites utilizam nomes de empresas conhecidas para atrair apostadores
Outro aspecto identificado pelo monitoramento é a utilização de nomes, símbolos e identidades visuais semelhantes aos de empresas conhecidas do mercado de apostas.
Entre as marcas mencionadas estão Betano, Novibet, Bet365 e BetMGM. Algumas páginas suspeitas utilizariam elementos visuais parecidos com os dessas empresas e ofereceriam bônus promocionais para conquistar a confiança dos usuários.
Essa prática pode aumentar o risco de confusão, principalmente entre pessoas que não possuem conhecimento sobre a regulamentação das apostas no Brasil.
Um consumidor pode acreditar que está acessando uma plataforma conhecida, quando, na realidade, pode estar fornecendo informações pessoais e financeiras a operadores sem autorização. Em situações dessa natureza, também existe o risco de dificuldades para recuperar valores depositados ou receber prêmios anunciados.
Por isso, especialistas em segurança digital recomendam atenção redobrada antes de realizar qualquer cadastro, compartilhar documentos ou efetuar transferências financeiras para páginas de apostas.
Proibição levanta debate sobre proteção dos consumidores
Na avaliação do IBJR, a possível transferência de apostadores para plataformas clandestinas representa um dos principais riscos associados à proibição das bets.
As empresas autorizadas precisam cumprir exigências relacionadas à identificação dos usuários, fiscalização das movimentações financeiras, prevenção à lavagem de dinheiro e mecanismos de proteção contra o acesso de menores de idade.
Quando uma operação funciona fora dessas regras, os consumidores podem ficar mais vulneráveis a fraudes, publicidade enganosa, retenção indevida de valores e ausência de canais confiáveis para reclamações.
Outro ponto importante envolve a proteção de pessoas que apresentam comportamento compulsivo relacionado às apostas. Plataformas regulamentadas estão sujeitas a obrigações de responsabilidade e mecanismos de controle que podem não existir em operações clandestinas.
A preocupação também envolve a capacidade de fiscalização do poder público. Com milhares de endereços digitais suspeitos, o trabalho de identificação, bloqueio e acompanhamento dessas atividades exige integração entre órgãos governamentais, instituições financeiras e empresas de tecnologia.
O crescimento do mercado ilegal, caso a projeção se confirme, poderá representar um desafio adicional para as autoridades responsáveis pela regulamentação e pelo combate às atividades financeiras irregulares.
Medida provisória aguarda análise do Congresso Nacional
A discussão ocorre em meio à tramitação da Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro de 2026 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que estabeleceu a proibição do funcionamento das bets no país.
A medida possui validade inicial até 23 de novembro de 2026. Caso não seja aprovada pelo Congresso Nacional dentro do prazo, poderá ser prorrogada por mais 60 dias. Depois desse período, se continuar sem votação, perderá sua eficácia.
Conforme o calendário legislativo informado, a proposta deverá entrar em regime de urgência no dia 9 de novembro. A partir desse momento, poderá trancar a pauta da Casa legislativa em que estiver em tramitação, caso não seja apreciada.
Até esta sexta-feira (30), o texto ainda aguardava a instalação da comissão mista responsável por realizar a primeira análise da proposta.
A discussão no Congresso deverá envolver diferentes aspectos da política de apostas no Brasil, incluindo os efeitos econômicos da proibição, a capacidade de fiscalização do Estado e os mecanismos necessários para impedir que operadores clandestinos ocupem o espaço deixado pelas empresas autorizadas.
O desafio de combater o mercado clandestino
O levantamento do IBJR apresenta um cenário que vai além dos números financeiros. A possível expansão de 101% do mercado ilegal evidencia a complexidade de controlar atividades que funcionam em ambientes digitais e podem alcançar consumidores em diferentes regiões do país.
Para os apostadores, a principal orientação é verificar a regularidade das plataformas antes de realizar depósitos ou fornecer informações pessoais. A existência de uma página na internet, a oferta de bônus ou a utilização de uma marca conhecida não são garantias de legitimidade.
O debate também coloca em evidência a necessidade de políticas públicas que conciliem fiscalização, proteção ao consumidor e combate às atividades ilegais.
Enquanto o Congresso analisa a medida provisória, o setor acompanha os possíveis impactos da proibição e os riscos de uma migração significativa de usuários para ambientes sem controle adequado.
Mais do que discutir o futuro das apostas esportivas, a situação levanta uma questão fundamental: como proteger os brasileiros diante de um mercado digital que pode continuar funcionando, mesmo quando suas atividades são proibidas?
A resposta dependerá da capacidade das autoridades de fiscalizar, identificar irregularidades e oferecer mecanismos efetivos de proteção à população.
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