O cenário da educação básica brasileira apresenta avanços importantes, mas ainda carrega desafios profundos. Um levantamento divulgado nesta quinta-feira (20) pelo Todos Pela Educação mostra que seis em cada dez estudantes que concluem o ensino médio na rede pública apresentam nível de aprendizagem considerado abaixo do básico.

A análise foi construída a partir dos resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) entre 2005 e 2025 e permite observar como o desempenho dos estudantes brasileiros mudou ao longo de duas décadas.

Mais do que analisar apenas as notas médias obtidas nas avaliações, o estudo classificou os alunos conforme níveis de aprendizagem, permitindo identificar quantos alcançam um conhecimento considerado adequado e quantos permanecem abaixo do nível esperado para a etapa escolar.

Os resultados mostram uma realidade marcada por contrastes. Enquanto os anos iniciais do ensino fundamental registraram uma evolução expressiva, os avanços diminuem conforme os estudantes avançam na trajetória escolar.

O problema se torna especialmente preocupante no ensino médio, etapa que antecede a entrada dos jovens no ensino superior, no mercado de trabalho e em outras fases da vida adulta.

Avanço expressivo nos anos iniciais

Entre os resultados positivos apresentados pelo levantamento está a evolução registrada entre estudantes do 5º ano do ensino fundamental.

Em língua portuguesa, a proporção de alunos da rede pública com nível de aprendizagem considerado adequado passou de 22,4% em 2005 para 60,7% em 2025.

Em matemática, o crescimento também foi significativo. O percentual de estudantes com aprendizagem adequada aumentou de 14,8% para 50,6% no mesmo período.

Para Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação, os números demonstram que houve uma transformação relevante nos anos iniciais da educação básica.

Segundo ele, os dados indicam que políticas educacionais e mudanças implementadas ao longo das últimas duas décadas contribuíram para melhorar o aprendizado das crianças nessa etapa.

O avanço, entretanto, não se mantém na mesma intensidade ao longo das séries seguintes.

Desempenho cai no 9º ano

Quando os estudantes chegam ao 9º ano do ensino fundamental, os indicadores mostram uma evolução mais lenta.

Em língua portuguesa, o percentual de alunos com aprendizagem adequada aumentou de 14,5% em 2005 para 38,3% em 2025.

Apesar do crescimento, o resultado significa que a maioria dos estudantes ainda não alcança o nível considerado adequado ao final dessa etapa.

A situação é ainda mais preocupante em matemática.

Em 2005, apenas 7,9% dos estudantes do 9º ano apresentavam aprendizagem adequada. Vinte anos depois, o percentual chegou a 18,8%.

Ou seja, o crescimento foi de apenas 10,9 pontos percentuais durante todo o período analisado.

Os números revelam uma dificuldade que acompanha muitos estudantes durante a passagem dos anos iniciais para os anos finais do ensino fundamental.

Essa perda de ritmo no aprendizado pode comprometer conteúdos que serão fundamentais posteriormente, especialmente no ensino médio.

Ensino médio concentra os maiores desafios

É no final da educação básica que o levantamento apresenta seus dados mais preocupantes.

De acordo com a análise do Todos Pela Educação, seis em cada dez estudantes que concluem o ensino médio estão em um nível de aprendizagem considerado abaixo do básico.

O problema aparece de maneira particularmente forte em matemática.

Em 2005, somente 5,2% dos estudantes do ensino médio apresentavam aprendizagem considerada adequada nessa disciplina.

Em 2025, o percentual chegou a apenas 8,5%.

O crescimento de 3,3 pontos percentuais em duas décadas mostra que o país ainda encontra enormes dificuldades para garantir que os jovens concluam a educação básica dominando conhecimentos fundamentais de matemática.

Em língua portuguesa, o cenário apresentou melhora mais significativa. O percentual de estudantes com aprendizagem adequada passou de 15,7% para 35,2% entre 2005 e 2025.

Apesar de o índice ter mais que dobrado, ainda significa que uma parcela expressiva dos jovens termina o ensino médio sem alcançar o nível considerado adequado.

Um alerta para o futuro dos jovens

Os resultados vão além de números educacionais.

A aprendizagem adquirida durante a educação básica pode influenciar diretamente as oportunidades disponíveis para os jovens ao longo da vida.

Um estudante que chega ao fim do ensino médio com dificuldades em leitura, interpretação de textos e matemática pode enfrentar obstáculos adicionais para ingressar em uma universidade, disputar determinadas vagas de emprego ou acompanhar cursos de formação profissional.

Por isso, especialistas defendem que o debate sobre educação não deve se limitar ao acesso à escola.

Garantir que crianças e adolescentes estejam matriculados é fundamental, mas também é necessário assegurar que eles efetivamente aprendam.

Para Gabriel Corrêa, os resultados devem servir como um alerta para a sociedade e para o poder público.

A avaliação do especialista é que os níveis de aprendizagem registrados atualmente, principalmente no ensino médio, ainda estão muito distantes do que seria necessário para garantir uma formação adequada aos estudantes.

Desigualdade entre os estados

O estudo também chama atenção para as diferenças existentes entre as redes públicas de ensino das unidades federativas.

Os resultados mostram que alguns estados conseguiram avançar de maneira mais consistente, enquanto outros apresentam indicadores mais baixos ou evoluções menos significativas.

Entre os destaques positivos estão Paraná, Piauí, Goiás e Espírito Santo, apontados pelo levantamento como estados que vêm apresentando indicadores de aprendizagem acima da média nacional em diferentes etapas.

No 5º ano do ensino fundamental, considerando os resultados de 2025, Paraná aparece com 76,3% dos estudantes no nível adequado de aprendizagem. Ceará registra 72,1%, enquanto Santa Catarina chega a 69%.

Na outra ponta estão Roraima, com 45,9%, Rio Grande do Norte, com 45,1%, e Sergipe, com 44,7%.

Embora os índices mais baixos ainda representem um desafio, a comparação também evidencia que as redes públicas possuem condições bastante diferentes para garantir a aprendizagem dos estudantes.

Ceará aparece entre os destaques

O desempenho do Ceará chama atenção no levantamento.

O estado aparece entre os melhores resultados nacionais no 5º ano, com mais de sete em cada dez estudantes atingindo o nível adequado de aprendizagem.

No 9º ano, o Ceará também aparece entre os três estados com melhores indicadores, com 50,1% dos estudantes alcançando o nível considerado adequado.

O Paraná lidera essa etapa, com 50,8%, seguido pelo Ceará e por Goiás, que registra 48,8%.

Entre os menores índices do 9º ano estão Maranhão, com 25,2%, Bahia, com 24,8%, e Roraima, com 20%.

Os números mostram que não existe uma realidade única para a educação brasileira. Enquanto determinadas redes conseguem apresentar avanços importantes, outras ainda enfrentam dificuldades para garantir resultados básicos.

O desafio de manter o aluno aprendendo

Uma das principais questões levantadas pelos dados é justamente entender por que os avanços observados nos primeiros anos não conseguem ser mantidos nas etapas seguintes.

A melhora registrada no 5º ano demonstra que é possível elevar os níveis de aprendizagem na rede pública.

O desafio agora é fazer com que esse progresso acompanhe os estudantes durante toda a trajetória escolar.

A transição para os anos finais do ensino fundamental e, posteriormente, para o ensino médio envolve mudanças importantes. Os conteúdos ficam mais complexos, as disciplinas se tornam mais específicas e muitos adolescentes também passam a enfrentar dificuldades sociais e econômicas que podem interferir na permanência e no desempenho escolar.

Nesse contexto, melhorar a aprendizagem exige ações contínuas, formação adequada dos profissionais da educação, acompanhamento dos estudantes e políticas públicas capazes de considerar as diferentes realidades existentes no país.

Educação como prioridade nacional

O levantamento do Todos Pela Educação apresenta uma fotografia importante da educação brasileira ao longo dos últimos 20 anos.

Os dados mostram que houve avanços e que determinadas políticas produziram resultados positivos, especialmente nos anos iniciais do ensino fundamental.

Ao mesmo tempo, revelam que o país ainda tem um longo caminho pela frente.

O fato de seis em cada dez estudantes terminarem o ensino médio com aprendizagem abaixo do básico representa um desafio que ultrapassa governos e períodos eleitorais.

É uma questão que envolve famílias, professores, gestores, escolas e toda a sociedade.

Mais do que elevar índices, o objetivo precisa ser garantir que cada estudante tenha condições reais de aprender, desenvolver suas capacidades e concluir a educação básica preparado para os próximos passos.

A educação brasileira avançou em duas décadas, mas os números mostram que avançar não é suficiente. O grande desafio agora é garantir que esse progresso alcance todos os estudantes e permaneça durante toda a vida escolar.