Um composto produzido pelo organismo após o consumo de romã pode ajudar a melhorar o funcionamento do coração, segundo um estudo realizado por pesquisadores do King’s College London. A substância, conhecida como urolitina A, apresentou efeitos promissores em testes experimentais, melhorando a capacidade do músculo cardíaco de relaxar e reduzindo alterações associadas à insuficiência cardíaca.
Os resultados foram publicados na quarta-feira (19) na revista científica Science Advances. A pesquisa analisou modelos animais e também tecidos cardíacos humanos cultivados em laboratório, permitindo aos pesquisadores observar como a substância atua sobre determinadas estruturas do coração.
Apesar dos resultados positivos, os cientistas fazem uma ressalva importante: a pesquisa ainda está em fase experimental e não demonstra que consumir romã seja capaz de tratar ou prevenir a insuficiência cardíaca.
Estudo concentra-se em um tipo específico de insuficiência cardíaca
A pesquisa teve como foco uma forma de insuficiência cardíaca em que o coração continua conseguindo realizar sua contração, mas se torna mais rígido e apresenta dificuldade para relaxar adequadamente.
Esse processo interfere no preenchimento do coração entre um batimento e outro. Quando o músculo cardíaco não consegue relaxar de maneira eficiente, a quantidade de sangue que entra no órgão pode ser prejudicada.
Esse tipo de alteração pode provocar sintomas como cansaço, falta de ar e redução da capacidade para realizar atividades cotidianas.
A condição representa um desafio para a medicina porque ainda existem limitações nas opções disponíveis para determinados pacientes. Por isso, pesquisadores continuam procurando novas formas de compreender os mecanismos envolvidos na doença e desenvolver possíveis estratégias terapêuticas.
Foi nesse contexto que a urolitina A chamou a atenção dos cientistas.
O que é a urolitina A?
A urolitina A não está presente diretamente em grandes quantidades na romã. Ela é produzida pelo organismo durante a digestão de determinados compostos encontrados em alimentos como romã, nozes e algumas frutas vermelhas.
A produção da substância depende, entre outros fatores, da maneira como a microbiota intestinal de cada pessoa metaboliza esses componentes.
No estudo, os pesquisadores investigaram os efeitos da urolitina A sobre o funcionamento do músculo cardíaco.
Os resultados indicaram que a substância pode ativar uma proteína envolvida nos mecanismos relacionados ao funcionamento dos vasos sanguíneos e do próprio coração.
Essa ativação parece favorecer o relaxamento do músculo cardíaco entre os batimentos.
Relaxamento é fundamental para o coração
O coração funciona por meio de um ciclo contínuo de contração e relaxamento.
Durante a contração, o músculo cardíaco bombeia sangue para o organismo. Em seguida, ocorre o relaxamento, período em que as câmaras cardíacas precisam se encher novamente para preparar o próximo batimento.
Quando o músculo se torna rígido, esse processo pode ser prejudicado.
Os pesquisadores observaram que a urolitina A melhorou a capacidade de relaxamento do coração nos modelos analisados.
Além disso, foram identificadas outras alterações consideradas positivas.
Os experimentos indicaram uma redução na formação de cicatrizes no tecido cardíaco e uma diminuição do aumento das células musculares do coração, fenômenos que podem contribuir para a rigidez do órgão.
Essas mudanças são relevantes porque a fibrose e o aumento excessivo das células cardíacas podem comprometer a capacidade do coração de funcionar adequadamente.
Melhora chegou a 80% nos testes com animais
Um dos resultados que mais chamou atenção na pesquisa foi observado nos experimentos realizados com animais.
Segundo os pesquisadores, a melhora na função cardíaca chegou a aproximadamente 80% em comparação com os animais que não receberam o composto.
O resultado indica que a urolitina A pode ter um papel importante nos mecanismos estudados.
Entretanto, é fundamental compreender que resultados obtidos em animais não podem ser automaticamente considerados equivalentes aos efeitos em seres humanos.
O organismo humano apresenta características muito mais complexas, e uma substância que demonstra determinado efeito em laboratório pode não apresentar o mesmo resultado quando administrada em pacientes.
Por isso, os pesquisadores também utilizaram tecido cardíaco humano em laboratório.
Testes também foram realizados com tecido humano
Além dos experimentos com animais, os cientistas analisaram tecido cardíaco humano cultivado em laboratório.
O material foi produzido a partir de células-tronco geneticamente modificadas, permitindo que os pesquisadores observassem diretamente os efeitos do composto em células cardíacas humanas.
De acordo com os resultados, os efeitos observados foram semelhantes aos identificados nos modelos animais.
Esse resultado aumenta o interesse científico pela substância, mas ainda não representa uma confirmação de que a urolitina A funcionará como tratamento para pessoas com insuficiência cardíaca.
Para chegar a essa conclusão, seriam necessários estudos clínicos envolvendo voluntários e pacientes.
Resultados ainda precisam ser confirmados
Embora a pesquisa tenha apresentado resultados considerados promissores, os próprios autores destacam que ainda existe um longo caminho até uma possível aplicação clínica.
A urolitina A já foi estudada anteriormente em seres humanos e apresenta um perfil de segurança considerado favorável em pesquisas anteriores.
Mesmo assim, isso não significa que ela possa ser utilizada atualmente para tratar insuficiência cardíaca.
Será necessário realizar ensaios clínicos específicos para avaliar se a substância realmente melhora a função do coração em pessoas diagnosticadas com a doença.
Esses estudos também precisarão determinar qual seria a dose adequada, por quanto tempo o composto deveria ser utilizado, quais pacientes poderiam se beneficiar e quais possíveis efeitos adversos poderiam surgir.
Comer romã não substitui tratamento médico
Um dos principais cuidados após a divulgação da pesquisa é evitar a interpretação de que simplesmente comer romã seria suficiente para tratar problemas cardíacos.
Embora a fruta faça parte de uma alimentação equilibrada e contenha diversos compostos de interesse nutricional, o estudo não demonstrou que o consumo da fruta seja capaz de tratar a insuficiência cardíaca.
A produção de urolitina A pelo organismo também pode variar de uma pessoa para outra.
Portanto, não é possível estabelecer, com base nessa pesquisa, uma quantidade de romã que produziria efeitos terapêuticos no coração.
Pessoas diagnosticadas com doenças cardiovasculares devem continuar seguindo as orientações de seus médicos e não substituir medicamentos ou tratamentos prescritos por alimentos, suplementos ou substâncias experimentais.
Alimentação continua importante para a saúde cardiovascular
Mesmo sem comprovar um efeito terapêutico da romã, uma alimentação equilibrada continua sendo uma das medidas importantes para a manutenção da saúde cardiovascular.
Uma dieta variada, com frutas, verduras, legumes, grãos e outros alimentos nutritivos, pode fazer parte de hábitos associados a uma vida mais saudável.
Também são importantes outros fatores, como prática regular de atividade física quando liberada por profissionais de saúde, controle da pressão arterial, acompanhamento dos níveis de colesterol, não fumar e realizar consultas médicas quando necessário.
Esses cuidados não substituem tratamentos específicos para pessoas que já possuem doenças cardíacas, mas podem contribuir para a manutenção da saúde ao longo da vida.
Pesquisa abre caminho para novas investigações
O estudo realizado pelo King’s College London representa uma nova frente de investigação sobre os mecanismos envolvidos na insuficiência cardíaca.
A descoberta de que a urolitina A pode melhorar o relaxamento do músculo cardíaco e reduzir alterações estruturais observadas nos modelos experimentais oferece aos cientistas novos caminhos para estudar possíveis tratamentos.
Ainda assim, os resultados precisam ser confirmados em pesquisas clínicas antes que qualquer conclusão sobre o uso da substância em pacientes possa ser estabelecida.
Por enquanto, a descoberta deve ser encarada como uma evidência experimental promissora, e não como um tratamento disponível.
A expectativa dos pesquisadores é que estudos futuros possam esclarecer se os efeitos observados em laboratório também se repetem em pessoas com insuficiência cardíaca.
Enquanto isso, a romã permanece sendo uma fruta que pode integrar uma alimentação equilibrada, mas não deve ser considerada, isoladamente, uma terapia para doenças do coração.














