A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro de dois medicamentos genéricos à base de liraglutida, substância utilizada no tratamento da obesidade e do diabetes mellitus tipo 2. As autorizações foram concedidas à farmacêutica EMS e publicadas no Diário Oficial da União (DOU) nesta terça-feira (8).
A decisão representa mais um movimento importante no mercado brasileiro de medicamentos que atuam sobre o sistema GLP-1, classe que ganhou grande visibilidade nos últimos anos devido ao uso no controle do diabetes e também no tratamento da obesidade. A expectativa é que a ampliação da oferta possa contribuir para aumentar as alternativas disponíveis aos pacientes e, futuramente, favorecer maior concorrência no mercado.
Os dois produtos aprovados são soluções injetáveis de liraglutida na concentração de 6 mg/mL, destinadas à aplicação sob a pele. As apresentações autorizadas incluem diferentes quantidades de cartuchos e canetas aplicadoras. Segundo as informações do registro, a autorização tem validade até 2036, enquanto os lotes terão prazo de validade de 18 meses.
Dois registros, uma mesma substância
Embora tenham indicações relacionadas a condições diferentes, os dois medicamentos utilizam a mesma substância ativa: a liraglutida.
Um dos registros está associado a um medicamento destinado ao tratamento da obesidade, enquanto o outro está relacionado ao tratamento do diabetes tipo 2. A diferença está principalmente nas indicações terapêuticas, doses e orientações de uso estabelecidas para cada situação.
A liraglutida já faz parte do mercado brasileiro há mais de uma década. A Anvisa possui registros de medicamentos com a substância para diferentes finalidades, incluindo produtos voltados ao diabetes tipo 2 e à obesidade. Entre os medicamentos registrados anteriormente estão o Victoza, indicado para diabetes, e o Saxenda, destinado ao tratamento da obesidade e do sobrepeso.
A chegada de versões genéricas, portanto, não significa que a substância esteja sendo introduzida agora no país. A novidade está na ampliação das alternativas de medicamentos que utilizam a liraglutida como princípio ativo.
Como a liraglutida funciona?
A liraglutida pertence à classe dos agonistas do receptor do GLP-1, hormônio envolvido em mecanismos importantes de controle da glicose e da saciedade.
De maneira geral, a substância atua ajudando o organismo a aumentar a liberação de insulina quando os níveis de açúcar no sangue estão elevados. Ela também reduz a velocidade com que o estômago esvazia seu conteúdo e pode aumentar a sensação de saciedade.
Esses mecanismos explicam por que a liraglutida pode ser utilizada tanto no controle do diabetes tipo 2 quanto em tratamentos relacionados ao excesso de peso.
No caso da obesidade, o medicamento não deve ser entendido simplesmente como uma solução rápida para emagrecimento. O tratamento precisa estar associado a acompanhamento profissional e, conforme cada caso, a mudanças na alimentação, atividade física e outros cuidados necessários para a saúde.
Essa orientação é especialmente importante porque os medicamentos da classe GLP-1 passaram a despertar grande interesse do público nos últimos anos. O crescimento da procura também levou as autoridades sanitárias brasileiras a reforçarem o controle sobre a utilização desses produtos.
Aprovação não significa chegada imediata às farmácias
Apesar do registro concedido pela Anvisa, os novos genéricos não chegam automaticamente às farmácias de todo o país.
Antes da comercialização, ainda é necessário cumprir outras etapas regulatórias, entre elas a definição do preço máximo dos medicamentos pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED).
A CMED estabelece os valores máximos que podem ser praticados no mercado brasileiro, incluindo o Preço Fábrica e o Preço Máximo ao Consumidor. A própria Anvisa explica que os preços podem ser consultados pelo consumidor pelo nome do medicamento ou pelo princípio ativo.
Por isso, ainda não é possível afirmar quando os novos produtos estarão efetivamente disponíveis nas farmácias ou qual será o valor cobrado pelos medicamentos.
Receita médica continua sendo obrigatória
Outro ponto importante para quem acompanha a novidade é que a aprovação não altera as regras de segurança relacionadas à venda desses medicamentos.
Desde junho de 2025, os medicamentos agonistas do receptor GLP-1 passaram a ter regras mais rígidas para prescrição e dispensação no Brasil. A receita médica precisa ser apresentada em duas vias e uma delas deve ficar retida na farmácia ou drogaria. A validade da prescrição é de até 90 dias.
A medida foi adotada pela Anvisa diante do aumento do uso desses medicamentos sem acompanhamento adequado e da preocupação com eventos adversos relacionados ao uso fora das indicações aprovadas.
A regra também alcança medicamentos que possuem liraglutida, além de outras substâncias da mesma classe, como semaglutida, dulaglutida, tirzepatida e exenatida.
Mercado de medicamentos GLP-1 passa por expansão
A aprovação dos dois genéricos de liraglutida ocorre em um momento de expansão do número de medicamentos da classe GLP-1 disponíveis no Brasil.
Em 2026, a Anvisa já autorizou diversos novos medicamentos contendo substâncias como semaglutida. Em julho, por exemplo, a agência registrou cinco novos medicamentos à base de semaglutida, ampliando as opções destinadas ao tratamento do diabetes tipo 2.
Em agosto, a agência também anunciou o registro de duas novas canetas de semaglutida produzidas pela EMS e pela Germed.
Segundo a própria Anvisa, a priorização das análises de medicamentos contendo semaglutida e liraglutida foi adotada diante da necessidade de ampliar o abastecimento do mercado brasileiro e reduzir possíveis problemas de oferta desses produtos.
Nesse cenário, a entrada de novos genéricos de liraglutida pode representar mais uma etapa na ampliação da concorrência e da disponibilidade de tratamentos.
A importância do acompanhamento médico
Para pacientes que convivem com diabetes tipo 2 ou obesidade, a notícia pode representar uma nova possibilidade de acesso a tratamentos já conhecidos pela medicina. No entanto, especialistas e autoridades sanitárias reforçam que medicamentos desse tipo devem ser utilizados de acordo com indicação médica.
A escolha do tratamento depende das características de cada paciente, histórico de saúde, outros medicamentos utilizados e objetivos terapêuticos. A dose também não deve ser definida por conta própria.
A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” trouxe benefícios ao aumentar o interesse da população por tratamentos contra a obesidade, mas também gerou preocupação com a automedicação e com o uso dos produtos para finalidades diferentes das aprovadas.
Por isso, a orientação é que a decisão sobre iniciar, interromper ou modificar um tratamento seja tomada em conjunto com um profissional de saúde.
Mais opções, mas com responsabilidade
A aprovação dos dois genéricos de liraglutida pela Anvisa representa uma novidade relevante para o mercado farmacêutico brasileiro. Os medicamentos poderão ampliar, futuramente, as alternativas disponíveis para pessoas que precisam de tratamento para obesidade ou diabetes tipo 2.
Ainda assim, é importante separar a aprovação regulatória da chegada efetiva dos produtos às farmácias. Os medicamentos precisam passar pelas etapas necessárias, incluindo a definição dos preços pela CMED, antes de começarem a ser comercializados.
Para o paciente, a principal mensagem é de cautela: a existência de novas opções terapêuticas é positiva, mas o tratamento deve continuar sendo individualizado e acompanhado por profissionais habilitados.
Em meio à crescente procura por medicamentos que atuam sobre o GLP-1, a decisão da Anvisa reforça também a importância de ampliar o acesso sem abrir mão da segurança. Afinal, quando o assunto é saúde, informação correta, acompanhamento médico e uso responsável continuam sendo tão importantes quanto a própria disponibilidade de novos medicamentos.















