A sanfona brasileira vai voltar a ocupar um dos grandes palcos da música internacional. Mestrinho, um dos principais nomes da nova geração do forró, está de volta ao Rock in Rio e promete uma apresentação diferente daquela que marcou sua estreia no festival, em 2024. Desta vez, o músico quer apresentar ao público o forró em sua forma mais autêntica, valorizando suas raízes, sua sonoridade e a força da música nordestina.

Aos 37 anos, Mestrinho retorna ao evento no dia 12 de setembro, com apresentação no Palco Global Village. O artista fez história em sua primeira participação ao se tornar o primeiro sanfoneiro a realizar um show solo no Rock in Rio.

Na estreia, ele surpreendeu o público ao mostrar que a sanfona é capaz de transitar por diferentes universos musicais. O repertório começou com clássicos do forró, como “A Volta da Asa Branca” e “Que Nem Jiló”, mas ganhou uma dimensão inesperada quando o músico incorporou sucessos do rock, entre eles “Love of My Life” e “We Are The Champions”, do Queen, além de “Sweet Child O’ Mine”, do Guns N’ Roses.

A mistura chamou atenção e mostrou a versatilidade do instrumento. Agora, porém, Mestrinho decidiu seguir outro caminho.

Desta vez, o forró será protagonista

Em entrevista ao g1, o sanfoneiro explicou que a proposta para sua segunda participação será diferente.

Segundo Mestrinho, a primeira apresentação tinha também o objetivo de mostrar ao público a capacidade da sanfona de dialogar com diferentes estilos musicais. Desta vez, ele pretende colocar o forró no centro do espetáculo.

“Ali, como foi o meu primeiro Rock in Rio, eu estava chegando, e quis mostrar um pouco dessa versatilidade que muitas pessoas assistiram e viram. Agora eu vou chegar com o forró na sua essência purinha mesmo, que eu amo”, afirmou.

A escolha representa também uma forma de reafirmar as raízes do artista.

Nascido dentro da tradição da música nordestina, Mestrinho construiu sua carreira tendo a sanfona como principal instrumento e encontrou na mistura de referências uma maneira própria de se expressar.

Mesmo com a decisão de dedicar o novo show ao forró, o músico não esconde sua admiração pelo rock.

A sanfona como instrumento universal

A escolha das músicas de rock na estreia não aconteceu por acaso. Mestrinho é admirador de grandes nomes do gênero e cita artistas como Queen, Beatles e David Bowie entre suas referências.

Para ele, a experiência serviu para demonstrar que a sanfona não precisa ficar limitada a um único estilo musical.

O instrumento tradicionalmente associado ao forró pode assumir diferentes características dependendo da maneira como é utilizado e da sensibilidade de quem toca.

Mestrinho defende justamente essa liberdade artística. Para ele, conhecer as características de cada gênero é fundamental para conseguir fazer uma mistura respeitosa, sem descaracterizar nenhuma das músicas.

Essa visão ajuda a explicar a trajetória do artista, que passou a ocupar espaços cada vez maiores dentro da música brasileira sem abandonar a identidade construída a partir do forró.

Forró também faz parte da história do Rock in Rio

Apesar do nome do festival estar diretamente ligado ao rock, o Rock in Rio sempre abriu espaço para diferentes manifestações musicais.

Desde a primeira edição, em 1985, artistas ligados ao forró já fizeram parte da programação. Entre eles estavam nomes como Elba Ramalho e Alceu Valença.

Para Mestrinho, o espaço conquistado pelo gênero atualmente é satisfatório.

O músico entende que o festival possui uma identidade ampla e que a diversidade musical faz parte de sua própria história.

“Ele se chama Rock in Rio, mas é um festival de música”, avaliou.

Mestrinho também acredita que não existe a necessidade de transformar a presença do forró em uma disputa por espaço. Para ele, o mais importante é que o gênero continue sendo valorizado e apresentado para diferentes públicos.

A participação de artistas nordestinos em grandes festivais nacionais ajuda justamente a ampliar o alcance da música regional e mostrar que o forró pode dialogar com públicos de diferentes lugares.

Inspirações que ajudaram a construir sua carreira

Entre as principais referências de Mestrinho estão dois nomes fundamentais da música brasileira: Dominguinhos e Gilberto Gil.

O sanfoneiro teve a oportunidade de trabalhar com os dois artistas e considera essas experiências fundamentais para sua formação.

Dominguinhos, especialmente, ocupa um lugar de destaque na trajetória de Mestrinho.

O músico conta que sua maneira de enxergar a sanfona mudou completamente depois que conheceu o mestre.

“Eu tocava o acordeon de um jeito antes de conhecer ele, e depois que eu o conheci, mudou totalmente a minha visão do instrumento”, afirmou.

A influência não se limita à técnica. Mestrinho também se inspira na capacidade que Dominguinhos tinha de transitar por diferentes estilos sem perder sua identidade.

O mesmo acontece com Gilberto Gil, que ao longo da carreira explorou gêneros como reggae, rock, samba e música nordestina.

Para Mestrinho, essa liberdade é um exemplo de como um artista pode construir uma identidade que esteja acima de um único gênero.

“Sou um artista que vem do forró, mas pretendo não ser um artista rotulado de uma coisa só”, declarou.

Dominguinho ganha espaço no Rock in Rio

Outro momento especial da apresentação será a homenagem ao projeto “Dominguinho”, que reuniu Mestrinho, João Gomes e Jota.Pê.

Lançado em 2025, o trabalho se transformou em um dos projetos mais importantes da carreira recente do sanfoneiro e ajudou a aproximar diferentes gerações do público do forró.

O trio também iniciou uma nova turnê pelo Brasil, ampliando o alcance do projeto.

Para Mestrinho, “Dominguinho” representa muito mais do que um trabalho musical. O projeto nasceu da amizade entre os três artistas e acabou ganhando uma dimensão que surpreendeu os próprios envolvidos.

O sanfoneiro destaca que a parceria não surgiu apenas por questões profissionais, mas principalmente pela afinidade existente entre os músicos.

Essa conexão é justamente uma das características que Mestrinho considera mais importantes no projeto.

Um projeto que mudou sua trajetória

O sucesso de “Dominguinho” também trouxe novas oportunidades para Mestrinho.

Embora o artista já tivesse uma carreira consolidada antes do projeto, ele reconhece que a parceria com João Gomes e Jota.Pê alcançou públicos diferentes e colocou sua música em novos espaços.

Mais do que números ou reconhecimento profissional, o músico acredita que o projeto ajudou a mostrar novamente a força do forró para uma parcela ampla do público brasileiro.

Por isso, considera impossível subir ao palco do Rock in Rio sem apresentar alguma música relacionada ao trabalho.

A intenção é celebrar o impacto que “Dominguinho” teve e, ao mesmo tempo, reforçar a importância da amizade que deu origem à parceria.

Mestrinho ainda acompanhará João Gomes

Depois de sua própria apresentação, o sanfoneiro pretende acompanhar outro momento especial do festival.

João Gomes estará no Palco Sunset ao lado da Orquestra Brasileira, e Mestrinho pretende estar presente para prestigiar o parceiro.

A participação dos dois artistas em diferentes momentos do Rock in Rio reforça a presença da música nordestina em uma das maiores celebrações musicais do país.

Um futuro juntos ainda é possível

Com o sucesso do projeto, uma pergunta naturalmente surge: haverá um terceiro álbum do “Dominguinho”?

Mestrinho não descarta a possibilidade.

Os três artistas têm seus próprios projetos e carreiras, o que torna impossível prever exatamente por quanto tempo a parceria continuará.

Ainda assim, existe o desejo de permanecer juntos e continuar celebrando a amizade por meio da música.

Mestrinho afirma que a intenção é envelhecer junto com os parceiros, mas reconhece que a vida e os caminhos profissionais de cada um podem influenciar o futuro do projeto.

Enquanto isso, o presente reserva mais um momento especial.

No Rock in Rio, Mestrinho terá novamente a oportunidade de mostrar a força da sanfona e do forró para milhares de pessoas. Se em 2024 ele surpreendeu ao misturar a música nordestina com grandes clássicos do rock, agora a promessa é voltar às raízes e apresentar o gênero em sua essência.

Será uma celebração da cultura nordestina, da sanfona e de uma música que atravessou gerações sem perder sua capacidade de emocionar.

No palco, Mestrinho pretende provar mais uma vez que a música brasileira não precisa escolher entre tradição e inovação. É justamente no encontro entre as duas que novos caminhos podem surgir.