Tatames japoneses podem estar relacionados a mudanças positivas na atividade cerebral e à redução de sentimentos de tensão e ansiedade, segundo um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Kyushu, no Japão. A pesquisa analisou como voluntários reagiam enquanto realizavam tarefas simples sentados sobre diferentes tipos de materiais e encontrou evidências de alterações em determinadas ondas cerebrais entre os participantes que utilizaram tatames produzidos com Igusa, uma espécie de junco tradicionalmente utilizado no país.

O estudo foi publicado na terça-feira (8/9) na revista científica Scientific Reports e analisou como voluntários reagiam enquanto realizavam tarefas simples sentados sobre diferentes tipos de materiais. Os pesquisadores observaram alterações em determinadas ondas cerebrais entre os participantes que utilizaram tatames confeccionados com Igusa.

Embora os resultados sejam considerados promissores, os próprios pesquisadores destacam que ainda são necessários novos estudos, realizados com grupos maiores e mais diversificados, antes que seja possível afirmar de maneira definitiva que o material possui efeitos positivos sobre a saúde mental.

Uma tradição japonesa que atravessa gerações

O Igusa é uma planta herbácea natural do Japão e possui uma relação histórica com a cultura e a vida cotidiana do país. Durante séculos, suas fibras foram utilizadas na fabricação dos tradicionais tatames, peças que fazem parte da arquitetura japonesa e são encontradas principalmente no piso de quartos, salas e outros ambientes.

Além da função prática, o tatame também está associado a uma característica marcante dos ambientes japoneses: a busca por espaços mais simples, organizados e próximos de elementos naturais.

A pesquisa da Universidade de Kyushu chama atenção justamente para essa relação entre tradição e possíveis respostas do organismo. Os cientistas investigaram se características específicas do Igusa, como seu odor natural e sua textura, poderiam estar relacionadas às alterações observadas nos participantes.

A hipótese é que a experiência sensorial proporcionada pelo material possa influenciar o funcionamento cerebral de alguma maneira. No entanto, ainda não está completamente esclarecido qual mecanismo seria responsável por essas respostas.

Como o experimento foi realizado

Para analisar os possíveis efeitos do Igusa, os pesquisadores criaram um ambiente controlado. Os voluntários foram colocados em uma sala à prova de som, reduzindo interferências externas que poderiam influenciar os resultados.

Ao todo, participaram 17 voluntários, com idade média de 21,5 anos. Um grupo realizou as atividades sentado sobre colchonetes produzidos com Igusa, enquanto outro utilizou colchonetes de polipropileno sem perfume, empregados como condição de controle.

Durante o experimento, os participantes realizaram tarefas consideradas simples. Enquanto isso, os pesquisadores monitoraram suas atividades cerebrais por meio de um eletroencefalógrafo, equipamento conhecido pela sigla EEG.

O aparelho permite registrar a atividade elétrica do cérebro e identificar diferentes padrões de ondas cerebrais. Essa análise ajudou a equipe a observar se havia alguma diferença significativa entre as pessoas expostas ao tatame de Igusa e aquelas que utilizaram o material de controle.

Depois da realização das tarefas, os voluntários também responderam a um questionário psicológico. O objetivo era identificar possíveis alterações relacionadas ao estado emocional, especialmente em aspectos como tensão e ansiedade.

Segundo Kuniyoshi Shimizu, líder do estudo, a comparação entre os resultados obtidos nas diferentes condições apresentou diferenças consideradas significativas pelos pesquisadores.

Mudanças nas ondas cerebrais

Um dos principais pontos observados na pesquisa foi a alteração na atividade de determinadas ondas cerebrais entre os participantes que utilizaram os tatames de Igusa.

Os pesquisadores identificaram aumento nas ondas beta, que estão associadas a estados de maior atividade e engajamento cognitivo. Em termos gerais, essas ondas podem aparecer quando uma pessoa está concentrada, realizando uma tarefa ou envolvida em determinada atividade mental.

Também foram observadas alterações relacionadas às ondas alfa e gama. Esses padrões de atividade cerebral estão envolvidos em diferentes processos, incluindo atenção, processamento de informações e estados de repouso.

Para os pesquisadores, os resultados indicam que o contato com o Igusa pode estar relacionado a uma resposta cerebral diferente daquela observada quando os participantes utilizaram os colchonetes de polipropileno.

É importante, entretanto, interpretar esses resultados com cautela. Uma alteração na atividade cerebral não significa automaticamente que uma pessoa esteja mais saudável ou que determinado material possa tratar ansiedade, estresse ou qualquer outro problema de saúde mental.

O estudo aponta uma possível associação e abre espaço para novas investigações.

Participantes relataram menos tensão e ansiedade

Além das medições realizadas por meio do EEG, os pesquisadores também analisaram as percepções dos próprios voluntários.

Após as atividades, aqueles que utilizaram os tapetes de Igusa relataram redução nos níveis de tensão e ansiedade. Entre os participantes que utilizaram os colchonetes de polipropileno sem perfume, não foram observadas mudanças significativas semelhantes.

Essa diferença chamou a atenção da equipe porque sugere que a experiência proporcionada pelo material pode envolver não apenas respostas fisiológicas, mas também uma percepção subjetiva de maior relaxamento.

Os cientistas acreditam que características sensoriais do Igusa podem desempenhar algum papel nesse processo. O cheiro natural da planta e a sensação provocada pelo contato com sua superfície estão entre os fatores que podem contribuir para a resposta observada.

Ainda assim, não é possível determinar, com base apenas nesse experimento, se o benefício estaria relacionado principalmente ao odor, à textura, à associação cultural do material ou à combinação desses elementos.

Pequena amostra exige novos estudos

Apesar dos resultados positivos, existe uma importante limitação na pesquisa: o número de participantes foi reduzido.

Com apenas 17 voluntários, os resultados não podem ser automaticamente generalizados para toda a população. Pessoas de diferentes idades, culturas, condições de saúde e características individuais podem reagir de maneiras distintas ao mesmo estímulo.

Por isso, uma das próximas etapas apontadas pelos pesquisadores é justamente repetir os testes envolvendo um número maior de pessoas e grupos mais diversificados.

Estudos maiores também poderão ajudar a esclarecer se os efeitos identificados permanecem quando a exposição ao material acontece durante períodos mais longos ou em situações diferentes das utilizadas no experimento.

Essa etapa será fundamental para entender melhor a relação entre o Igusa, o ambiente e as respostas do cérebro.

Tradição e ciência lado a lado

A pesquisa da Universidade de Kyushu também chama atenção por aproximar um elemento tradicional da cultura japonesa da investigação científica moderna.

O tatame de Igusa está presente no cotidiano japonês há gerações. Agora, pesquisadores procuram compreender, por meio de métodos científicos, se características desse material podem ter alguma influência sobre o estado emocional e a atividade cerebral.

Isso não significa que os tatames devam ser considerados uma solução para problemas psicológicos ou neurológicos. O estudo não avaliou tratamentos médicos e não permite substituir acompanhamento profissional ou terapias comprovadas.

A principal contribuição da pesquisa está em apresentar evidências iniciais de que determinados estímulos ambientais podem estar associados a mudanças mensuráveis na atividade cerebral e na percepção de bem-estar.

Em uma época em que muitas pessoas vivem sob pressão, com excesso de estímulos e rotinas cada vez mais aceleradas, pesquisas sobre a influência dos ambientes sobre o cérebro ganham importância.

O próximo passo será descobrir se os resultados observados em um pequeno grupo de jovens podem ser reproduzidos em uma escala maior. Caso novas pesquisas confirmem os achados, o tradicional Igusa poderá ganhar ainda mais atenção não apenas por sua importância cultural, mas também pelo possível papel que seus estímulos sensoriais desempenham na concentração, no relaxamento e no equilíbrio emocional.

Por enquanto, a ciência oferece uma pista interessante: um objeto tão tradicional quanto o tatame japonês pode esconder efeitos sobre a maneira como o cérebro responde ao ambiente. Mas, antes de transformar essa possibilidade em uma conclusão definitiva, serão necessários mais estudos, mais participantes e novas evidências.