Vinte e cinco anos depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, as consequências da ação terrorista da Al-Qaeda continuam provocando mortes nos Estados Unidos. O ataque que destruiu as Torres Gêmeas do World Trade Center, atingiu o Pentágono e provocou a queda de um quarto avião na Pensilvânia deixou 2.977 mortos naquele dia. No entanto, a tragédia não terminou quando os incêndios foram controlados ou quando os escombros começaram a ser retirados.
As doenças provocadas pela exposição à poeira, fumaça e substâncias tóxicas liberadas após a destruição das estruturas passaram a produzir uma segunda onda de vítimas ao longo das décadas seguintes.
Dados do Fundo de Compensação às Vítimas do 11 de Setembro, conhecido pela sigla VCF, mostram a dimensão dessa consequência tardia. Segundo os dados analisados, milhares de pessoas tiveram suas mortes reconhecidas como relacionadas às doenças provocadas pela exposição decorrente dos atentados.
O número de pedidos de indenização por morte relacionados ao episódio já ultrapassou a quantidade de pessoas que morreram diretamente nos ataques. O cenário revela uma dimensão menos conhecida do 11 de setembro: para muitas famílias, a tragédia continuou durante anos depois daquela manhã.
Quatro aviões sequestrados
Na manhã de 11 de setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados por integrantes da Al-Qaeda.
O primeiro deles foi o American Airlines 11, que fazia a rota entre Boston e Los Angeles. A aeronave foi tomada por cinco sequestradores e atingiu a Torre Norte do World Trade Center, em Nova York.
Pouco depois, o United Airlines 175, também partindo de Boston com destino a Los Angeles, foi sequestrado por cinco integrantes do grupo terrorista. O avião atingiu a Torre Sul do complexo empresarial.
As duas colisões provocaram incêndios de grandes proporções e, posteriormente, o colapso das torres.
O terceiro avião, o American Airlines 77, seguia de Washington para Los Angeles. A aeronave foi sequestrada e lançada contra o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
O quarto avião, o United Airlines 93, havia partido de Newark com destino a São Francisco. Quatro sequestradores assumiram o controle da aeronave. Durante o voo, passageiros descobriram por telefone que outros aviões haviam sido utilizados nos ataques e decidiram reagir.
A tentativa de retomada do controle impediu que o avião chegasse ao alvo planejado. A aeronave caiu em uma área rural da Pensilvânia.
Ao todo, os quatro ataques provocaram a morte de 2.977 pessoas, sem contar os 19 sequestradores.
A segunda tragédia começou entre os escombros
Enquanto as atenções do mundo estavam voltadas para as imagens das torres em chamas, uma ameaça invisível se espalhava pelas ruas de Nova York.
O colapso das estruturas lançou enormes quantidades de poeira e fumaça sobre Manhattan. O material carregava partículas provenientes de concreto, vidro, metais e outros componentes dos edifícios, além de substâncias consideradas perigosas para a saúde.
Entre os materiais presentes estavam amianto, sílica e produtos resultantes da combustão provocada pelos incêndios.
A região próxima ao World Trade Center permaneceu coberta por uma mistura de poeira e fumaça durante dias. Pessoas que estavam nas proximidades respiraram aquele ar sem saber exatamente quais seriam as consequências futuras.
Bombeiros, policiais e equipes médicas trabalharam durante horas e, posteriormente, por meses, na área atingida. Sobreviventes, trabalhadores, moradores e pessoas que estavam simplesmente passando pelo local também ficaram expostos.
A tragédia, portanto, deixou de ser apenas uma questão de trauma psicológico e passou a produzir consequências físicas que seriam identificadas ao longo dos anos.
Doenças começaram a aparecer
A exposição aos contaminantes liberados durante o colapso das Torres Gêmeas e durante os trabalhos de resgate foi associada a diversos problemas de saúde.
Entre as condições registradas estão doenças respiratórias, queimaduras, fraturas, transtornos relacionados à saúde mental e diferentes tipos de câncer.
Muitas dessas doenças não apareceram imediatamente. Em alguns casos, os sintomas surgiram anos depois, dificultando a compreensão inicial da relação entre os problemas de saúde e o trabalho realizado na região do World Trade Center.
Para milhares de pessoas, a lembrança do 11 de setembro passou a estar associada não apenas às imagens daquele dia, mas também a consultas médicas, tratamentos prolongados e perdas familiares.
É nesse contexto que os programas de assistência criados pelo governo norte-americano passaram a desempenhar um papel importante.
Fundo de Compensação atende vítimas até hoje
Criado em 2011 durante o governo do então presidente Barack Obama, o Fundo de Compensação às Vítimas do 11 de Setembro foi desenvolvido para indenizar pessoas que sofreram ferimentos, desenvolveram doenças ou morreram em consequência dos ataques e da exposição aos seus efeitos.
O programa atende diferentes grupos. Entre eles estão socorristas, sobreviventes, trabalhadores, turistas, moradores e familiares de vítimas que tenham sido afetados pelas consequências dos atentados.
Ao longo de 25 anos, o fundo recebeu mais de 200 mil pedidos de indenização relacionados a ferimentos, doenças e mortes.
Os números mostram que o alcance da tragédia foi muito maior do que o registrado nas primeiras horas daquele 11 de setembro.
De acordo com os dados apresentados, mais de 77 mil pedidos foram atendidos, incluindo dezenas de milhares relacionados a ferimentos ou outras complicações de saúde. Os valores pagos em compensações já ultrapassam US$ 18,5 bilhões.
Também chama atenção a quantidade de solicitações relacionadas especificamente a mortes. Parte significativa desses pedidos foi apresentada muitos anos depois dos ataques, mostrando como determinadas doenças podem levar décadas para se manifestar.
Novos pedidos continuam chegando
Mesmo 25 anos depois, o sistema continua recebendo solicitações.
Dados referentes a 2026 mostram que centenas de novos pedidos de indenização por morte foram apresentados nos primeiros meses do ano. Isso significa que, enquanto o país se prepara para marcar o aniversário de um quarto de século dos atentados, famílias continuam enfrentando consequências relacionadas à tragédia.
A situação demonstra que o 11 de setembro não pertence apenas ao passado.
Para muitos sobreviventes e familiares, o atentado ainda está presente na rotina por meio de doenças, tratamentos e perdas que ocorreram muito depois da queda das torres.
O ar tóxico de Nova York
Nova York foi o local mais atingido pelos ataques. Após o colapso das torres, uma enorme nuvem de poeira tomou conta da região.
Estudos apontaram que a poluição provocada pelo desastre alcançou uma extensa área de Manhattan. Durante os trabalhos de resgate e limpeza, milhares de pessoas permaneceram expostas aos resíduos.
Anos depois, documentos relacionados à qualidade do ar na cidade passaram a receber atenção renovada.
A divulgação de informações sobre o período posterior aos ataques reacendeu o debate sobre o que autoridades sabiam a respeito das condições ambientais na região e como os riscos foram comunicados à população e aos trabalhadores.
O tema é especialmente sensível porque envolve pessoas que, nos dias seguintes ao atentado, trabalharam no local acreditando estar contribuindo para salvar vidas e recuperar a cidade.
Consequências também atingiram Pensilvânia e Pentágono
Os efeitos da exposição não ficaram restritos a Nova York.
Na Pensilvânia, onde caiu o voo 93, o acidente provocou incêndios e uma grande quantidade de fumaça e resíduos.
No Pentágono, equipes de resgate e limpeza também ficaram expostas à fumaça, ao combustível de aviação, ao calor provocado pelos incêndios, a produtos químicos e aos destroços resultantes da colisão.
Assim como em Nova York, algumas das consequências para a saúde apareceram somente anos depois.
O reconhecimento dessas doenças como relacionadas aos ataques permitiu que sobreviventes e familiares buscassem assistência e compensação financeira.
Uma tragédia que ainda não terminou
O aniversário de 25 anos do 11 de setembro costuma ser marcado por homenagens às 2.977 pessoas que morreram naquele dia. Mas os números atuais mostram que a história possui outra dimensão.
Há uma geração de sobreviventes que carrega até hoje as marcas físicas e emocionais daquela manhã.
Há também socorristas que adoeceram depois de passar horas, dias ou meses trabalhando entre os escombros. Existem famílias que perderam parentes anos depois, vítimas de doenças relacionadas à exposição aos materiais tóxicos.
Por isso, quando os Estados Unidos recordam o 11 de setembro, a memória não deve se limitar às imagens dos aviões atingindo as Torres Gêmeas.
A tragédia também está presente nos hospitais, nos tratamentos médicos e nas famílias que continuam recebendo indenizações ou buscando reconhecimento por doenças adquiridas depois dos ataques.
25 anos de memória e consequências
O 11 de setembro transformou a história dos Estados Unidos e provocou mudanças profundas na segurança, na política internacional e na luta contra o terrorismo.
Mas seus efeitos também foram sentidos no corpo e na vida de milhares de pessoas.
A poeira que tomou as ruas de Nova York naquele dia acabou carregando consigo consequências que permaneceram invisíveis durante muito tempo. Algumas apareceram anos depois, outras décadas mais tarde.
Em 2026, quando o mundo completa 25 anos desde os atentados, a quantidade de mortes relacionadas às consequências de saúde do episódio reforça uma constatação dolorosa: o 11 de setembro não terminou em 2001.
Para milhares de sobreviventes, socorristas e familiares, aquela manhã continua fazendo parte do presente.
A história dos atentados, portanto, não é composta apenas pelas quatro aeronaves, pelas Torres Gêmeas, pelo Pentágono ou pela Pensilvânia. Ela também é contada pelas pessoas que sobreviveram, adoeceram e, em muitos casos, morreram anos depois em consequência de uma exposição que ocorreu em poucas horas, mas deixou marcas para toda a vida.












