Jogo criado com auxílio de inteligência artificial transforma ministros do Supremo em personagens de uma disputa inspirada nos clássicos arcades

A crise que envolve o Supremo Tribunal Federal (STF) nas últimas semanas ganhou uma representação inusitada fora dos tribunais: um jogo de luta em estilo arcade que transforma ministros da Corte em personagens de uma disputa virtual. Batizado de “Supremo Tribunal Fighter”, o projeto utiliza referências do cenário político e institucional de Brasília para criar uma experiência inspirada em jogos clássicos de combate.

A criação é de Felipe Pacheco, especialista em inteligência artificial, que desenvolveu o jogo como parte de um desafio pessoal de produzir um projeto diferente a cada dia durante o mês de setembro. A iniciativa acabou encontrando no momento político brasileiro uma fonte de inspiração para transformar as notícias envolvendo o Supremo em uma produção bem-humorada e tecnológica.

No jogo, o usuário pode escolher entre dez magistrados do STF e colocá-los para disputar combates em diferentes cenários. Entre os ambientes representados estão o plenário do Supremo, o Congresso Nacional e a Praça dos Três Poderes, além de outros locais associados ao universo político e às notícias que movimentaram o debate público.

A proposta não pretende reproduzir literalmente o funcionamento do tribunal. Trata-se de uma representação satírica, construída para transformar personagens e acontecimentos conhecidos do noticiário em elementos de entretenimento.

Inteligência artificial participou de todo o processo

Segundo Felipe Pacheco, a inteligência artificial teve participação praticamente integral na criação do projeto. O desenvolvedor explicou que utilizou ferramentas de IA para pesquisar referências visuais e informações relacionadas aos ministros, produzir as ilustrações dos personagens e dos cenários e desenvolver a mecânica do jogo.

A tecnologia também foi utilizada na criação de músicas e efeitos sonoros.

“Para esse jogo, eu pedi para a IA se virar e fazer absolutamente tudo”, explicou o criador ao comentar o processo de desenvolvimento.

A experiência chama atenção porque mostra como ferramentas de inteligência artificial estão sendo utilizadas não apenas para tarefas profissionais ou acadêmicas, mas também para projetos criativos que misturam tecnologia, cultura digital e acontecimentos do cotidiano.

Em vez de desenvolver manualmente cada ilustração, cenário e elemento do jogo, Felipe utilizou a IA como uma espécie de equipe virtual de produção.

O resultado é uma estética inspirada nos antigos jogos de fliperama, especialmente nos títulos de luta que marcaram as décadas de 1980 e 1990.

Ministros viram personagens de videogame

Os dez magistrados representados no jogo aparecem como personagens que podem ser selecionados pelo jogador. Cada um deles possui uma representação visual criada a partir das referências fornecidas à inteligência artificial.

O processo começou com informações sobre três ministros: Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Dias Toffoli. A partir dessas referências iniciais, a inteligência artificial foi utilizada para ajudar na criação dos demais personagens.

As imagens utilizadas nos combates, conhecidas no universo dos videogames como “sprites”, seguem a estética dos jogos antigos, com visual pixelado e movimentos que remetem aos clássicos do gênero.

A escolha pelo estilo 8-bit não aconteceu por acaso. Esse formato ajuda a reforçar o caráter humorístico da produção e estabelece uma distância clara entre o jogo e a realidade institucional.

Assim, decisões judiciais, disputas políticas e personalidades conhecidas do noticiário são transformadas em elementos de uma brincadeira digital.

Da política para o universo dos games

A ideia do “Supremo Tribunal Fighter” surgiu durante uma sequência de projetos desenvolvidos por Felipe Pacheco ao longo de setembro.

Antes de criar o jogo, o desenvolvedor já havia produzido um site em formato semelhante aos antigos testes de personalidade populares na internet. O projeto simulava a pergunta sobre “quem você seria na festa do Vorcaro?”, fazendo referência ao banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do extinto Banco Master.

A partir da repercussão dos acontecimentos envolvendo o sistema financeiro, a política e o Judiciário, Felipe percebeu que poderia transformar a chamada “rinha” política envolvendo integrantes do STF em uma ideia ainda mais visual.

Foi então que surgiu a associação com os jogos de luta.

A lógica era simples: se os debates e divergências entre figuras públicas já pareciam uma disputa aos olhos de parte do público, por que não transformar essa ideia em um jogo inspirado nos clássicos dos fliperamas?

“Pensando nessa ‘rinha’ do STF que está acontecendo, ouvindo notícias, podcasts. E aí, dentro da ideia de fazer um projeto por dia, pensei: dá para fazer um jogo estilo Street Fighter”, contou.

A partir dessa ideia, o projeto ganhou forma rapidamente com o auxílio das ferramentas de inteligência artificial.

Crise no Supremo inspira produção satírica

O lançamento do jogo ocorre justamente em um momento de grande atenção sobre o Supremo Tribunal Federal. Nas últimas semanas, decisões, declarações e acusações envolvendo integrantes da Corte passaram a ocupar espaço significativo no debate político brasileiro.

A tensão aumentou ainda mais nesta terça-feira (15), quando o plenário do STF iniciou uma sessão para analisar a abertura de uma investigação envolvendo Alexandre de Moraes e alegações de suposta relação com Daniel Vorcaro.

A sessão teve início por volta das 10h30 e foi interrompida para um intervalo próximo das 13h. O retorno, inicialmente previsto para as 14h, acabou sendo adiado para as 15h. Os trabalhos foram retomados por volta das 15h30.

O julgamento colocou novamente o STF no centro das atenções e ampliou o interesse público em torno dos ministros e de seus posicionamentos.

Foi justamente esse ambiente de tensão institucional que serviu de combustível para o projeto criado por Felipe.

Humor como forma de interpretar o noticiário

Embora possa parecer apenas uma brincadeira, a criação também demonstra uma característica cada vez mais comum na internet: a transformação de acontecimentos políticos em produtos digitais de entretenimento.

Memes, vídeos, jogos, montagens e outros formatos passaram a funcionar como maneiras alternativas de interpretar acontecimentos complexos.

No caso do “Supremo Tribunal Fighter”, a escolha pelo videogame cria uma linguagem que pode alcançar pessoas que normalmente não acompanham discussões jurídicas mais detalhadas.

O usuário não precisa conhecer profundamente o funcionamento do STF para compreender a proposta básica do jogo. Basta reconhecer os personagens e o contexto político que inspirou a produção.

Essa facilidade de compreensão é uma das características que tornam projetos independentes feitos com inteligência artificial cada vez mais populares.

Um retrato do momento político brasileiro

A criação de Felipe Pacheco também funciona como um retrato curioso do ambiente político brasileiro em setembro de 2026. Questões envolvendo o Supremo, o governo federal, a oposição e investigações passaram a fazer parte do cotidiano das redes sociais.

Nesse ambiente, acontecimentos extremamente complexos são frequentemente transformados em conteúdos rápidos, visuais e satíricos.

O “Supremo Tribunal Fighter” leva essa lógica a outro nível ao transformar ministros da mais alta Corte do país em personagens de um videogame.

O projeto, no entanto, deve ser entendido dentro do campo da sátira e do entretenimento. A representação digital não corresponde às funções reais dos ministros nem pretende reproduzir o funcionamento do Supremo Tribunal Federal.

A proposta é brincar com referências conhecidas do público e utilizar a tecnologia para criar uma experiência diferente.

IA amplia possibilidades para criadores independentes

Talvez um dos aspectos mais relevantes do projeto esteja justamente na forma como ele foi produzido.

Ferramentas de inteligência artificial reduziram barreiras técnicas que, até pouco tempo atrás, poderiam impedir uma pessoa de criar sozinha um jogo com personagens, cenários, músicas, efeitos sonoros e mecânicas próprias.

O trabalho de Felipe mostra como um criador independente pode utilizar essas ferramentas para transformar uma ideia surgida a partir do noticiário em um produto digital em pouco tempo.

Ao mesmo tempo, o projeto também levanta discussões sobre os novos caminhos da produção artística e tecnológica. À medida que a inteligência artificial assume funções antes realizadas exclusivamente por ilustradores, programadores, designers e compositores, cresce a necessidade de compreender como essas ferramentas serão incorporadas à criação de conteúdo.

No caso do “Supremo Tribunal Fighter”, a tecnologia serviu para transformar uma leitura bem-humorada da política em uma experiência interativa.

Enquanto o STF enfrenta uma fase de intensa exposição pública, os acontecimentos que cercam a Corte continuam ultrapassando os limites dos tribunais e chegando a diferentes espaços da sociedade.

Desta vez, chegaram aos videogames.

Entre pixels, cenários de Brasília e personagens inspirados nos ministros, o projeto de Felipe Pacheco traduz, de maneira irreverente, a temperatura do debate institucional brasileiro. É uma demonstração de como a inteligência artificial, combinada à criatividade individual, pode transformar até mesmo os assuntos mais sérios do noticiário em experiências digitais capazes de provocar curiosidade, humor e reflexão.