Líderes nacionalistas defendem que cada nação tenha liberdade para decidir seu futuro, enquanto partidos britânicos acusam o movimento de ameaçar a unidade do Reino Unido

A discussão sobre o futuro do Reino Unido ganhou força nesta semana após líderes da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte se reunirem para defender o direito de suas nações decidirem sobre seus próprios caminhos políticos e constitucionais. O encontro, realizado nesta segunda-feira (14), terminou com a assinatura de um memorando que afirma que nenhum governo sediado em Westminster deveria impedir processos democráticos relacionados à autodeterminação.

As três nações fazem parte do Reino Unido ao lado da Inglaterra, país onde está localizado o Parlamento britânico, no Palácio de Westminster, em Londres. Pela primeira vez desde o início do processo de descentralização de poderes, no fim dos anos 1990, os governos das três nações são liderados por representantes de partidos que defendem, em diferentes graus, uma mudança na relação com Westminster.

O documento assinado por representantes do Plaid Cymru, do País de Gales, do Partido Nacional Escocês (SNP), da Escócia, e do Sinn Féin, da Irlanda do Norte, foi apresentado como um compromisso de cooperação e defesa do direito de cada povo escolher seu próprio futuro.

Apesar da aproximação, existem diferenças importantes entre as três nações. Enquanto a liderança escocesa e a norte-irlandesa defendem abertamente a possibilidade de referendos, o líder galês Rhun ap Iorwerth evita estabelecer uma data para uma eventual consulta popular sobre a independência do País de Gales.

“O tempo de Westminster está chegando ao fim”

Um dos trechos mais fortes do memorando afirma que “o tempo de Westminster está chegando ao fim” e que nenhum governo britânico deveria ter o direito de bloquear a democracia ou impedir que uma nação decida sobre seu futuro.

A declaração representa uma mudança significativa no tom do debate constitucional britânico. Embora movimentos independentistas existam há décadas na Escócia, no País de Gales e na Irlanda do Norte, a atual configuração política aumentou a visibilidade dessas reivindicações.

Os líderes ressaltaram, entretanto, que cada nação possui uma trajetória própria e que os processos não precisam acontecer simultaneamente.

A ideia é que Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte possam cooperar em áreas de interesse comum, como energia, economia e relações com países europeus, sem necessariamente abrir mão das diferenças políticas existentes entre os movimentos nacionalistas.

Um acordo específico de colaboração entre País de Gales e Escócia também era esperado para esta segunda-feira.

Escócia mantém pressão por novo referendo

Na Escócia, o debate sobre independência já possui um histórico mais consolidado. O país realizou um referendo em 2014 para decidir se deveria deixar o Reino Unido.

Naquela ocasião, a permanência venceu por 55% dos votos, contra 45% favoráveis à independência.

Mais de uma década depois, o assunto continua presente na política escocesa. O líder do SNP, John Swinney, classificou a reunião desta segunda-feira como um momento importante na trajetória constitucional do Reino Unido.

Para Swinney, as eleições realizadas em maio criaram uma nova realidade política, na qual os líderes das três nações defendem que seus povos tenham maior controle sobre o próprio futuro.

O dirigente escocês também afirmou que o princípio da autodeterminação é fundamental e manifestou confiança de que os escoceses escolheriam a independência caso recebessem novamente a oportunidade de votar.

Na semana passada, o primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, havia dado declarações interpretadas como uma possível abertura para um novo referendo escocês caso existisse apoio público suficiente. Posteriormente, porém, ele esclareceu que uma nova consulta continua fora de questão nas condições atuais.

A mudança de tom gerou reações entre os nacionalistas escoceses, que continuam pressionando por uma nova oportunidade de consulta popular.

Irlanda do Norte vive debate diferente

Na Irlanda do Norte, a discussão sobre uma possível saída do Reino Unido está diretamente ligada à possibilidade de reunificação da ilha da Irlanda.

A primeira-ministra Michelle O’Neill, do Sinn Féin, participou do encontro e defendeu o direito de os norte-irlandeses decidirem sobre seu futuro. Para ela, as diferentes nações que compõem o Reino Unido possuem características próprias e necessidades distintas.

O contexto norte-irlandês, porém, é diferente daquele encontrado na Escócia e no País de Gales.

O Acordo da Sexta-Feira Santa, firmado em 1998 após décadas de conflito, estabeleceu princípios para a realização de uma eventual consulta sobre o status constitucional da Irlanda do Norte. Entre as condições está a existência de uma mudança significativa na opinião pública que indique apoio à realização de um referendo.

O próprio Burnham comparou a situação escocesa às regras aplicadas à Irlanda do Norte, embora posteriormente tenha reafirmado sua posição contrária a uma nova consulta na Escócia neste momento.

O’Neill, por sua vez, considera que Westminster não atende adequadamente às necessidades das nações que compõem o Reino Unido.

A participação da primeira-ministra nas conversas também provocou críticas da vice-primeira-ministra norte-irlandesa Emma Little-Pengelly, do Partido Unionista Democrático (DUP), que se opõe ao projeto de reunificação da Irlanda.

País de Gales adota estratégia mais cautelosa

No País de Gales, o cenário apresenta diferenças importantes. Rhun ap Iorwerth, líder do Plaid Cymru e primeiro-ministro galês após as eleições de maio, afirma que o país viveu um ponto de virada político.

A vitória histórica do Plaid Cymru fortaleceu o debate sobre a autonomia galesa e a relação com Westminster.

Apesar disso, Iorwerth não pretende estabelecer, neste momento, uma data para um referendo sobre a independência.

O Plaid Cymru já afirmou que não pretende realizar uma consulta desse tipo antes das próximas eleições para o Senedd, previstas para 2030. O governo galês também pretende criar uma comissão nacional para estabelecer bases e estudar caminhos relacionados ao futuro constitucional do país.

Iorwerth argumenta que o momento de um eventual referendo deverá ser determinado pelo próprio povo galês.

“O cronograma será definido pelo povo do País de Gales quando eles estiverem convencidos”, afirmou o líder, ressaltando que sua função é convencer a população.

Atualmente, o governo galês não possui competência para convocar sozinho um referendo sobre independência. Por isso, uma das reivindicações é justamente a transferência de novos poderes de Westminster para o País de Gales.

Debate também envolve dinheiro e serviços públicos

A discussão sobre independência não se limita à identidade nacional. Questões econômicas e administrativas também estão no centro do debate.

Os governos descentralizados há anos discutem o funcionamento da fórmula Barnett, mecanismo utilizado pelo Tesouro britânico para calcular a distribuição de recursos públicos entre Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

Representantes galeses afirmam que o sistema prejudica o país e defendem mudanças na forma de financiamento.

Ao mesmo tempo, há argumentos de que a Escócia seria uma das principais beneficiárias do atual modelo.

O debate sobre recursos se mistura a questões relacionadas à saúde, educação, segurança e infraestrutura. No País de Gales, opositores do Plaid Cymru afirmam que o governo deveria concentrar esforços na solução de problemas internos, especialmente nas filas do NHS galês e nos indicadores educacionais.

O líder trabalhista galês Ken Skates acusou o Plaid Cymru de estar mais interessado em ampliar seus poderes políticos do que em apresentar resultados à população.

Conservadores e representantes do Partido Reformista também criticaram a prioridade dada à independência.

Governo britânico defende a união

Diante do movimento dos líderes nacionalistas, o governo do Reino Unido reafirmou sua posição favorável à manutenção da união entre Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

Em declaração, o governo afirmou que o primeiro-ministro está comprometido com mudanças nas quatro nações, mas continua acreditando firmemente na união.

O embate deverá continuar nos próximos meses. Os líderes dos governos descentralizados têm reunião prevista com o primeiro-ministro no próximo mês, quando questões relacionadas à distribuição de poderes e à administração das nações deverão voltar à pauta.

O cenário revela um Reino Unido diante de um dos mais importantes debates constitucionais de sua história recente. A Escócia mantém viva a possibilidade de uma nova tentativa de independência, a Irlanda do Norte discute o futuro da relação com a Irlanda e o País de Gales amplia sua busca por autonomia.

Ainda não existe um calendário comum para qualquer processo de separação. Também não há garantia de que novos referendos serão autorizados.

O que mudou, porém, é o peso político da discussão. Com os três governos nacionais liderados por forças que defendem algum grau de autodeterminação, Westminster enfrenta uma pressão simultânea e inédita desde o processo de descentralização.

O futuro do Reino Unido, portanto, permanece em aberto. Entre reivindicações por maior autonomia, defesa da união e demandas por novos referendos, o debate deverá ocupar espaço crescente na política britânica nos próximos anos.