Educação e oportunidade se encontram em uma mudança histórica no vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Pela primeira vez, a seleção para ingresso na instituição conta com vagas reservadas especificamente para candidatos indígenas e quilombolas. A novidade abre uma possibilidade inédita para estudantes que, durante muito tempo, estiveram distantes de uma das seleções mais concorridas e exigentes do país.
Entre os candidatos estão José Lima, que saiu de uma aldeia indígena na Paraíba, e André Giancarlo, que deixou uma comunidade quilombola no interior de Sergipe. As histórias dos dois jovens são diferentes, mas carregam um ponto em comum: para chegar até o vestibular do ITA, foi necessário superar não apenas a distância geográfica, mas também obstáculos relacionados ao acesso à educação e às condições de preparação.
O Vestibular ITA 2027 terá sua primeira fase realizada no domingo (27), segundo o calendário oficial da instituição. A prova será aplicada das 13h às 18h, no horário de Brasília. A segunda fase está prevista para ocorrer entre os dias 20 e 23 de outubro.
Ao todo, o processo seletivo oferece 200 vagas. A distribuição inclui 140 vagas para ampla concorrência, 50 para candidatos pretos e pardos, seis para indígenas e quatro para quilombolas.
A ampliação do número total de vagas está relacionada ao processo de expansão do ITA, incluindo a implantação de uma unidade em Fortaleza, no Ceará. Já a entrada das reservas destinadas a indígenas e quilombolas representa uma mudança no perfil de acesso ao instituto.
Uma porta que começa a se abrir
Para José Lima, a oportunidade representa mais do que uma vaga em um vestibular. É também a possibilidade de que estudantes indígenas passem a enxergar o ITA como um espaço que pode fazer parte de seus projetos de vida.
O jovem começou a se aproximar da ideia de estudar no instituto ainda no ensino médio. No primeiro ano, um professor percebeu que José resolvia sozinho exercícios do livro didático enquanto os demais alunos acompanhavam a aula. Em vez de apenas observar, o professor decidiu apresentar a ele um desafio diferente: uma questão do próprio ITA.
A experiência despertou a curiosidade do estudante e fez com que ele começasse a pesquisar sobre a instituição e sobre a carreira de engenharia.
A partir daí, o sonho ganhou forma, mas o caminho continuou sendo difícil.
José estudava em sua casa, em Marcação, na Paraíba, utilizando recursos disponíveis pela internet. Posteriormente, conseguiu uma bolsa de estudos para frequentar um curso preparatório em Fortaleza. Foram três anos de preparação antes de uma nova mudança, desta vez para São José dos Campos, em São Paulo.
Atualmente, o estudante é aluno do Curso Poliedro, onde também recebe apoio com alojamento e alimentação.
Sem as bolsas, segundo ele, seria muito mais difícil manter o ritmo necessário para uma preparação tão intensa.
A trajetória mostra uma realidade importante: a reserva de vagas pode ampliar a possibilidade de participação, mas não substitui a preparação exigida por uma prova de alto nível.
O desafio começa muito antes do vestibular
A história de José também chama atenção para uma questão que ultrapassa o próprio vestibular. A criação das vagas reservadas não elimina automaticamente as diferenças existentes entre estudantes que chegam à seleção com condições educacionais muito distintas.
Em comunidades indígenas, por exemplo, o acesso a professores, laboratórios, internet, materiais didáticos e cursos preparatórios pode ser mais limitado do que em grandes centros urbanos.
É nesse contexto que José vê a nova política como uma oportunidade para tornar sonhos antes considerados distantes um pouco mais próximos.
Para ele, a reserva de vagas funciona como uma espécie de possibilidade de entrada em espaços que historicamente tiveram pouca presença indígena.
Mas o estudante também chama atenção para a necessidade de melhorar as condições de ensino na origem. Para que mais jovens possam chegar ao ITA no futuro, é preciso que eles tenham condições de descobrir cedo que esse caminho também pode ser possível.
André saiu de um território quilombola para estudar
A trajetória de André Giancarlo também começou longe dos grandes centros educacionais.
Ele deixou o povoado Ladeiras, em Sergipe, quando os pais decidiram mudar a rotina da família para investir em sua educação. A mudança para Aracaju representou uma transformação importante em sua vida.
Segundo o estudante, a decisão não era comum na região. Muitos jovens começam a trabalhar cedo para ajudar financeiramente suas famílias, o que reduz as possibilidades de seguir uma trajetória acadêmica mais longa.
Os pais de André fizeram um esforço significativo para que ele pudesse estudar. Trabalharam de domingo a domingo em dois restaurantes até conseguirem abrir o próprio negócio.
O jovem também carrega uma forte relação com a história de sua família e com a comunidade quilombola de origem. Parte de seus familiares não teve acesso à escola. Em documentos antigos guardados pela família, André encontrou registros relacionados à sua ancestralidade, incluindo o nome de Maximina Bispa Professora, identificada como sua tataravó.
A história familiar reforça para ele o significado de chegar a uma instituição como o ITA.
Preconceito também faz parte do caminho
A mudança para Aracaju trouxe oportunidades, mas também experiências difíceis.
André conta que, aos 9 anos, pouco depois de chegar à capital sergipana, foi vítima de uma ofensa racista praticada por um colega.
A situação foi conversada dentro de casa. Sua mãe, que também é negra, compartilhou experiências pessoais e orientou o filho sobre como lidar com situações semelhantes.
Anos depois, André encara um desafio diferente: disputar uma vaga em uma das instituições de ensino mais seletivas do Brasil.
Para ele, a existência da reserva específica para quilombolas não significa aprovação garantida.
“Ter a vaga não garante a aprovação, mas me estimulou a concorrer”, resumiu o estudante em entrevista à CNN Brasil.
A frase ajuda a dimensionar a função da política de reserva. A vaga reservada amplia o espaço de disputa, mas o candidato ainda precisa enfrentar todas as etapas e cumprir os critérios acadêmicos estabelecidos no edital.
Cotas não reduzem a exigência da prova
Um ponto importante do Vestibular ITA 2027 é que os candidatos que concorrem pelas reservas precisam alcançar os critérios mínimos previstos para avançar no processo seletivo.
Ou seja, a reserva não representa uma prova com conteúdo diferente ou uma redução automática das exigências acadêmicas.
O edital estabelece os critérios de classificação e as condições para que os candidatos possam avançar entre as fases do processo. A documentação também precisa comprovar o pertencimento às categorias correspondentes.
No caso dos candidatos quilombolas, o edital prevê procedimento de verificação documental complementar, incluindo declaração de pertencimento étnico assinada por lideranças ligadas à associação da comunidade e certificação da Fundação Cultural Palmares que reconheça a comunidade.
Para indígenas, também existem procedimentos específicos de comprovação previstos no edital.
A política, portanto, cria uma nova porta de entrada, mas não elimina a necessidade de conhecimento, disciplina e preparação.
A nova realidade do vestibular
A reserva de vagas para indígenas e quilombolas está inserida em uma mudança mais ampla na política federal de ações afirmativas. A Lei nº 15.142, de 3 de junho de 2025, estabeleceu reserva de 30% das vagas em concursos públicos federais para pessoas pretas e pardas, indígenas e quilombolas, além de determinar procedimentos específicos para a participação desses grupos.
No caso do ITA, a aplicação da política aparece de forma específica no processo seletivo para ingresso na instituição.
A novidade também ganha relevância porque o ITA historicamente é associado a um processo de seleção altamente competitivo e a uma formação voltada principalmente às áreas de engenharia e tecnologia.
Para jovens como José e André, chegar ao vestibular já representa uma conquista construída ao longo de anos.
Domingo será o primeiro grande teste
No domingo (27), os dois estudantes estarão entre os candidatos que enfrentarão a primeira fase do vestibular.
José levará consigo a história de uma aldeia indígena da Paraíba, as horas de estudo em casa, as bolsas que permitiram sua preparação e o desejo de ver outros jovens indígenas ocupando espaços semelhantes.
André levará a memória do povoado Ladeiras, o esforço dos pais, a história de sua família quilombola e a expectativa de transformar uma oportunidade inédita em realidade.
Independentemente do resultado, a presença dos dois no processo seletivo já registra um momento de mudança no acesso ao ITA.
A reserva de vagas não resolve sozinha as desigualdades educacionais. Também não garante aprovação. O que ela faz é ampliar o número de caminhos possíveis para estudantes que, muitas vezes, precisaram percorrer uma distância muito maior para chegar à mesma linha de partida.
Para José, o desejo é que cada vez mais estudantes indígenas conheçam o vestibular e possam disputar oportunidades semelhantes.
André, por sua vez, deixa uma mensagem aos jovens de sua comunidade: uma vaga pode representar o começo de uma trajetória que antes parecia impossível.
No domingo, os dois irão descobrir até onde a preparação construída ao longo dos últimos anos poderá levá-los.
Para além dos números do vestibular, porém, a estreia das vagas para indígenas e quilombolas coloca novas histórias dentro dos corredores de uma instituição que, agora, começa a escrever também um capítulo diferente de sua própria história.















