Inep divulgou a nova edição da cartilha “A Redação do Enem 2026 – Cartilha do Participante”, documento que reúne orientações importantes para os estudantes que irão participar do Exame Nacional do Ensino Médio neste ano. A publicação apresenta explicações sobre os critérios utilizados na avaliação, exemplos de redações com nota máxima e recomendações para que os candidatos desenvolvam seus textos de maneira adequada.

Entre os principais pontos destacados na edição de 2026 está, novamente, o alerta para o uso dos chamados “repertórios de bolso”. O termo é utilizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para definir referências previamente decoradas e utilizadas de maneira genérica, sem que exista uma relação consistente entre a citação e o tema proposto na redação.

A orientação não é nova, mas aparece novamente de forma explícita na cartilha deste ano. Segundo o Inep, não basta inserir no texto o nome de um filósofo, escritor, obra, acontecimento histórico ou conceito conhecido. É necessário demonstrar por que aquela referência contribui efetivamente para a discussão apresentada pelo candidato.

A recomendação ganha importância especialmente para estudantes que se preparam durante meses para a prova e costumam memorizar citações consideradas “coringas” para tentar utilizá-las independentemente do tema escolhido pelo exame.

O que são os chamados “repertórios de bolso”?

De acordo com a cartilha, repertórios de bolso são referências prontas, memorizadas e utilizadas frequentemente pelos participantes de forma genérica ou pouco aprofundada.

Na prática, o problema não está em memorizar uma referência. Ter conhecimento prévio sobre filósofos, acontecimentos históricos, obras literárias, pesquisas científicas, conceitos sociológicos e outros elementos culturais pode ser bastante útil durante a produção textual.

A dificuldade surge quando esse conhecimento é colocado na redação apenas para demonstrar erudição, sem estabelecer uma conexão real com o problema apresentado.

O próprio Inep explica que é como se o candidato carregasse um repertório “guardado no bolso” para utilizar em qualquer tema, mesmo quando a referência não é adequada ou pertinente à discussão.

A cartilha reforça que o repertório precisa cumprir uma função dentro da argumentação. Ou seja, a referência deve ajudar o estudante a explicar, contextualizar, exemplificar ou aprofundar a ideia que está sendo desenvolvida.

Exemplo apresentado pelo Inep

Para tornar a orientação mais clara, a Cartilha do Participante do Enem 2026 apresenta um exemplo baseado em uma redação produzida na edição de 2025, cujo tema foi “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”.

No texto analisado pelo Inep, o participante escreveu uma referência ao pensamento de Aristóteles, afirmando que “o homem é um animal político”. Em seguida, relacionou a ideia ao envelhecimento e afirmou que o tema precisava ser discutido pela sociedade.

Para o Inep, entretanto, a referência apresentou baixa produtividade porque o conceito filosófico não foi desenvolvido de maneira específica para explicar a situação das pessoas idosas no Brasil.

O problema, portanto, não foi simplesmente citar Aristóteles. A questão foi a ausência de uma conexão argumentativa suficientemente desenvolvida entre o conceito utilizado e o tema proposto.

Segundo a análise apresentada na cartilha, a referência acabou funcionando de maneira mais ornamental do que argumentativa.

O exemplo ajuda a explicar uma diferença importante para quem está se preparando para o Enem: uma citação pode ser verdadeira, famosa e intelectualmente relevante, mas ainda assim não contribuir para a redação se não estiver articulada ao argumento.

Como utilizar repertório de maneira produtiva

Para evitar esse problema, o estudante precisa pensar no repertório como uma ferramenta de argumentação, e não como um enfeite textual.

Uma referência produtiva deve estar relacionada ao tema e ser explicada dentro do contexto apresentado pelo candidato. O ideal é que o estudante consiga demonstrar ao avaliador qual é a relação entre aquele conhecimento e o problema discutido.

A cartilha destaca que o repertório sociocultural precisa ser legitimamente relacionado ao tema, bem contextualizado e articulado aos argumentos.

Isso significa que decorar dezenas de citações não necessariamente garante uma boa nota. Mais importante do que a quantidade de referências é a capacidade de compreender o conhecimento e utilizá-lo de maneira coerente.

Um estudante que conhece menos citações, mas consegue relacioná-las corretamente ao tema, pode construir uma argumentação mais consistente do que alguém que utiliza várias referências famosas sem explicá-las.

Como funciona a redação do Enem

A redação do Enem é composta por um texto dissertativo-argumentativo de até 30 linhas, elaborado a partir de uma situação-problema apresentada na prova.

O candidato deve desenvolver uma discussão sobre o tema proposto utilizando conhecimentos adquiridos ao longo de sua formação e informações presentes nos textos motivadores.

A avaliação é dividida em cinco competências. Cada uma vale até 200 pontos, permitindo que a redação alcance a pontuação máxima de 1.000 pontos.

Entre os aspectos observados pelos avaliadores estão o domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, a compreensão do tema, a organização das informações e dos argumentos, a utilização adequada de mecanismos linguísticos e a elaboração de uma proposta de intervenção relacionada ao problema discutido.

A correção é realizada por avaliadores independentes, seguindo os critérios estabelecidos pelo Inep.

Situações que podem levar à nota zero

A cartilha também apresenta situações que podem resultar em nota zero na redação.

Entre elas estão a fuga total ao tema, a produção de texto com até sete linhas, a inserção de trechos desconectados do assunto proposto e o descumprimento da estrutura dissertativo-argumentativa exigida pelo exame.

O desrespeito à seriedade do exame também aparece entre as situações que podem comprometer integralmente a avaliação.

Por isso, além de dominar técnicas de argumentação, o candidato precisa prestar atenção às regras básicas da prova e às características do gênero textual solicitado.

Preparação exige mais do que decorar citações

A publicação da nova cartilha reforça uma mudança importante na forma como muitos estudantes se preparam para a redação.

Durante anos, tornou-se comum a circulação de listas com citações atribuídas a filósofos e personalidades históricas que poderiam, supostamente, ser utilizadas em praticamente qualquer tema. A estratégia pode parecer atraente, principalmente para quem busca segurança antes da prova, mas o próprio Inep alerta que referências genéricas podem perder valor quando não apresentam relação concreta com o assunto.

Nesse cenário, estudar temas sociais, políticos, históricos, ambientais, culturais e econômicos pode ser mais útil do que simplesmente memorizar frases.

O estudante também pode desenvolver o hábito de perguntar, ao inserir uma referência: “Como esse conhecimento explica o problema que estou discutindo?”.

Se a resposta não estiver clara, existe o risco de a citação ocupar espaço no texto sem fortalecer a argumentação.

Enem continua sendo uma das principais portas para a universidade

Criado há mais de duas décadas, o Enem se consolidou como uma das principais formas de acesso ao ensino superior no Brasil.

A nota obtida pelos participantes pode ser utilizada em processos de seleção como o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), além de processos próprios adotados por instituições de ensino superior.

O resultado também pode ser utilizado por universidades portuguesas que possuem acordos de cooperação com o Inep, ampliando as possibilidades para estudantes brasileiros que pretendem estudar em Portugal.

Nesse contexto, a redação representa uma parcela importante da avaliação e exige preparação específica.

Com a divulgação da Cartilha do Participante de 2026, o Inep reforça que escrever bem para o Enem não significa simplesmente utilizar palavras difíceis ou acumular citações famosas. A construção de um texto consistente depende principalmente da capacidade de compreender o tema, organizar ideias e utilizar conhecimentos de forma pertinente.

Para os candidatos, a mensagem central é direta: repertório pode enriquecer a redação, mas somente quando está verdadeiramente conectado ao argumento. Mais do que ter uma “citação coringa” pronta para qualquer situação, é necessário saber pensar, contextualizar e construir relações entre conhecimento e realidade.