IBGE divulgou nesta sexta-feira (18) novos dados sobre as desigualdades enfrentadas pelas pessoas com deficiência no Brasil, e um dos números que mais chama atenção está relacionado à educação. Entre os jovens de 15 a 29 anos que apresentam dificuldades de mobilidade, mas não possuem comprometimento cognitivo, 23,3% não sabem ler e escrever. Entre os jovens da mesma faixa etária sem deficiência, o índice é de aproximadamente 1%.
Os dados fazem parte do estudo “Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil”, produzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. A publicação analisa diferentes dimensões da vida das pessoas com deficiência, incluindo educação, acesso a serviços, participação social e condições de inclusão.
O contraste observado na alfabetização revela uma diferença significativa. Embora a dificuldade de mobilidade, por si só, não esteja diretamente relacionada à capacidade intelectual de uma pessoa aprender a ler e escrever, os números mostram que esse grupo enfrenta barreiras educacionais que precisam ser observadas dentro de um contexto mais amplo.
O levantamento não permite atribuir individualmente a causa do analfabetismo a uma falha específica do sistema educacional. Entretanto, a diferença entre os grupos evidencia uma desigualdade de acesso e permanência que acompanha pessoas com deficiência ao longo da trajetória escolar.
Quando a deficiência também envolve funções intelectuais
O cenário se torna ainda mais complexo entre pessoas com deficiência que apresentam dificuldades associadas exclusivamente a funções intelectuais.
De acordo com os dados apresentados pelo IBGE, 40,4% das pessoas de 15 a 29 anos desse grupo não sabem ler e escrever.
O número precisa ser interpretado com cuidado. Uma dificuldade cognitiva pode interferir no processo de aprendizagem, mas isso não significa que todas as pessoas com esse tipo de deficiência tenham as mesmas necessidades ou possibilidades educacionais.
Existem diferentes formas de deficiência intelectual e diferentes níveis de desenvolvimento. Uma pessoa pode apresentar limitações em determinadas habilidades e, ao mesmo tempo, desenvolver outras competências com apoio adequado.
Da mesma forma, a alfabetização não deve ser analisada apenas pela presença ou ausência da matrícula em uma escola. O processo de aprendizagem depende de recursos pedagógicos, profissionais preparados, acessibilidade, acompanhamento individualizado e condições para que o estudante participe efetivamente das atividades.
Estar matriculado não significa estar plenamente incluído
Um dos principais pontos revelados pelo levantamento é justamente a diferença entre frequentar uma instituição de ensino e ter acesso efetivo à educação.
A matrícula representa uma etapa importante, mas a inclusão educacional depende também das condições oferecidas pela escola.
Entre crianças e adolescentes com deficiência severa, por exemplo, a frequência escolar é menor do que entre aqueles sem deficiência.
Na faixa de 6 a 14 anos, 95,6% das crianças com deficiência severa estavam na escola, enquanto a proporção entre aquelas sem deficiência chegava a 98,4%.
Entre adolescentes de 15 a 17 anos, a diferença também aparece: 82,8% dos jovens com deficiência severa frequentavam a escola, contra 85,4% daqueles sem deficiência.
Nos casos classificados como deficiência profunda, a distância é ainda maior. Entre crianças de 6 a 14 anos, a frequência escolar chega a 82,3%, enquanto entre crianças sem deficiência o percentual é de 98,4%.
Entre adolescentes de 15 a 17 anos com deficiência profunda, a frequência cai para 65,6%, diante de 85,4% entre aqueles sem deficiência.
Os números mostram que a desigualdade se torna especialmente visível à medida que a trajetória escolar avança.
Acessibilidade ainda é um desafio nas escolas
Outro aspecto importante do estudo está relacionado à estrutura disponível nas instituições de ensino.
Para que a inclusão aconteça de maneira efetiva, estudantes com deficiência precisam encontrar condições adequadas para circular, participar das atividades e receber atendimento educacional compatível com suas necessidades.
Entre os recursos analisados pelo levantamento está a chamada sala de recursos multifuncionais, utilizada para o Atendimento Educacional Especializado (AEE).
O levantamento aponta que esse espaço está presente em 34,5% das escolas públicas e em 15,2% das instituições particulares.
Outro recurso fundamental é o banheiro acessível. Segundo os dados apresentados, ele está disponível em 54,8% das escolas públicas e em 64,4% das particulares.
A presença de profissionais de apoio também apresenta diferenças. Nas escolas públicas, o recurso aparece em 32,8% das instituições analisadas. Na rede particular, o percentual é de 4,6%.
Esses dados ajudam a dimensionar que a inclusão escolar envolve uma série de fatores que vão muito além da existência de uma vaga.
A importância do Atendimento Educacional Especializado
A sala de recursos multifuncionais é um dos instrumentos utilizados para oferecer o Atendimento Educacional Especializado aos estudantes que necessitam desse suporte.
O atendimento pode envolver recursos pedagógicos e estratégias específicas para favorecer a participação do aluno no processo educacional.
Quando uma escola possui estrutura adequada, profissionais capacitados e mecanismos de acessibilidade, o estudante encontra melhores condições para acompanhar as atividades e desenvolver suas habilidades.
Por outro lado, quando esses recursos são insuficientes, a presença física na escola não necessariamente se transforma em inclusão plena.
É justamente essa diferença que os dados ajudam a visualizar: o desafio não está somente em colocar o estudante dentro da sala de aula, mas em garantir que ele consiga aprender, interagir e participar da vida escolar.
Caminho até a universidade ainda é desigual
As diferenças educacionais também aparecem quando se observa o acesso ao ensino superior.
Apesar dos obstáculos existentes ao longo da educação básica, houve crescimento no número de estudantes com deficiência matriculados no ensino superior, especialmente com a expansão da educação a distância.
Segundo os dados reunidos no levantamento, o número de estudantes com deficiência matriculados na modalidade EAD quadruplicou entre 2019 e 2024.
Considerando as modalidades presencial e a distância, o número de matrículas de estudantes com deficiência também cresceu significativamente ao longo dos anos. Entre 2004 e 2014, por exemplo, passou de 33.377 para 95.572.
O crescimento mostra uma ampliação do acesso ao ensino superior, mas a matrícula não significa necessariamente conclusão do curso.
O próprio levantamento não detalha quantos dos estudantes que ingressaram conseguiram concluir a formação universitária.
Uma desigualdade que começa cedo
Os números apresentados pelo IBGE ajudam a revelar que as dificuldades enfrentadas pelas pessoas com deficiência não aparecem somente na fase adulta. Em muitos casos, elas começam ainda na infância e podem se acumular durante toda a trajetória educacional.
Quando uma criança não encontra acessibilidade adequada, apoio pedagógico ou recursos especializados, os impactos podem acompanhar sua vida escolar.
No caso dos jovens com dificuldades de mobilidade e sem comprometimento cognitivo, a taxa de analfabetismo de 23,3% chama atenção justamente porque demonstra uma diferença que não pode ser explicada simplesmente pela capacidade intelectual.
O dado indica a necessidade de observar as condições sociais e educacionais oferecidas a esse grupo.
É importante também evitar generalizações. Pessoas com deficiência formam uma população diversa, com necessidades, características e trajetórias diferentes. Os indicadores estatísticos ajudam a identificar padrões de desigualdade, mas não descrevem individualmente a experiência de cada pessoa.
Educação inclusiva depende de condições concretas
Os dados divulgados pelo IBGE reforçam uma questão fundamental: inclusão educacional não se resume à matrícula.
É necessário garantir acessibilidade física, materiais adequados, profissionais de apoio, atendimento especializado e estratégias pedagógicas capazes de considerar diferentes necessidades.
A presença de banheiros acessíveis, salas de recursos e profissionais especializados representa parte dessa estrutura.
Ao mesmo tempo, a inclusão envolve também a preparação das escolas para lidar com diferentes formas de aprendizagem e garantir que o estudante participe efetivamente das atividades.
O contraste entre os índices de analfabetismo de jovens com e sem deficiência mostra a dimensão do desafio. Enquanto cerca de 1% dos jovens de 15 a 29 anos sem deficiência não sabe ler e escrever, a proporção chega a 23,3% entre aqueles com dificuldades de mobilidade sem comprometimento cognitivo.
O estudo do IBGE, portanto, coloca em evidência uma realidade que muitas vezes permanece escondida atrás das estatísticas gerais de educação.
Mais do que medir quantos estudantes estão dentro das escolas, os dados ajudam a levantar uma pergunta essencial: quantos estão realmente tendo condições de aprender?
Responder a essa questão exige olhar para a acessibilidade, para o atendimento especializado e para as diferentes necessidades dos estudantes. Os números mostram que ainda existem barreiras importantes a serem enfrentadas para que o direito à educação seja efetivamente alcançado por todas as pessoas com deficiência.















