Canetas emagrecedoras utilizadas no tratamento da obesidade podem passar a ser oferecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), caso a incorporação seja aprovada pelas instâncias responsáveis. O Ministério da Saúde estima que a compra dos medicamentos em grande escala poderá reduzir entre 80% e 90% o valor pago pelo poder público aos fabricantes. A previsão inicial é de um investimento de aproximadamente R$ 1,5 bilhão por ano para disponibilizar os tratamentos no sistema público.
O anúncio representa uma nova etapa na discussão sobre o acesso aos medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, que inclui princípios ativos como semaglutida e liraglutida. Esses medicamentos ganharam grande popularidade nos últimos anos por sua utilização no tratamento da obesidade e do diabetes, mas o preço ainda é um dos principais obstáculos para ampliar o acesso da população.
Apesar da projeção apresentada pelo Ministério da Saúde, as canetas ainda não estão disponíveis gratuitamente para todos os pacientes pelo SUS. O governo protocolou, em 24 de setembro, um pedido de análise junto à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec). A comissão deverá avaliar as evidências e definir as condições para uma eventual incorporação.
Preços caíram com aumento da concorrência
Uma das principais razões apontadas pelo Ministério da Saúde para a possibilidade de redução dos custos é o aumento da concorrência no mercado brasileiro.
Desde 2025, o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vêm adotando medidas para estimular o registro de novos medicamentos e ampliar a oferta de tratamentos à base de GLP-1 no país.
De acordo com dados divulgados pelo governo, 25 canetas emagrecedoras já haviam sido registradas no Brasil até setembro, sendo 14 delas somente em 2026. Entre os produtos estão medicamentos genéricos e similares, além de opções produzidas nacionalmente.
A ampliação da oferta teve impacto direto nos preços praticados nas farmácias. Segundo o Ministério da Saúde, o valor desses medicamentos caiu cerca de 70% em menos de um ano.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que a maior concorrência, combinada à possibilidade de produção nacional e ao poder de compra do SUS, cria condições para uma redução ainda maior nos valores pagos pelo governo.
A estimativa apresentada pela pasta é que uma aquisição em grande escala possa proporcionar descontos entre 80% e 90% em relação aos preços de referência do mercado.
Governo estima gasto de R$ 1,5 bilhão por ano
Mesmo com a expectativa de descontos expressivos, a incorporação dos medicamentos representaria um investimento significativo para o sistema público de saúde.
O Ministério da Saúde trabalha com uma estimativa preliminar de aproximadamente R$ 1,5 bilhão por ano para a aquisição das canetas, caso a tecnologia seja incorporada ao SUS.
A lógica apresentada pelo governo é que o investimento em medicamentos para controlar a obesidade também poderá ter reflexos sobre outros custos do sistema de saúde.
Em comunicado, Padilha afirmou que a proposta não deve ser tratada como uma solução estética, mas como parte de uma estratégia de tratamento da obesidade associada a outras medidas de cuidado.
A pasta avalia que o controle adequado da doença pode contribuir para reduzir complicações relacionadas à obesidade e, em determinados grupos de pacientes, diminuir a necessidade de procedimentos de maior complexidade.
Quem poderá receber as canetas?
A eventual incorporação ao SUS não significa que qualquer pessoa interessada em emagrecer terá acesso automaticamente aos medicamentos.
O Ministério da Saúde afirma que o uso deverá seguir critérios clínicos e protocolos específicos, com indicação para pacientes que realmente necessitem do tratamento.
A definição desses critérios será uma das etapas importantes do processo de incorporação.
A proposta encaminhada à Conitec considera o uso de medicamentos à base de semaglutida ou liraglutida, princípios ativos que já não possuem proteção de patente no Brasil. A análise deverá levar em consideração evidências científicas, eficácia, segurança, impacto orçamentário e condições de utilização dentro do sistema público.
O Ministério da Saúde também conduz estudos para avaliar a utilização desses medicamentos em pacientes atendidos pelo SUS.
Um dos trabalhos ocorre no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, onde foi desenvolvido um protocolo de pesquisa para acompanhar pacientes com obesidade grave ou associada a outras doenças. Ao todo, 250 pacientes deverão ser acompanhados no estudo.
Obesidade é tratada como questão de saúde pública
A discussão sobre a entrada das canetas no SUS ocorre em meio ao crescimento da prevalência da obesidade no Brasil.
Dados apresentados pelo Ministério da Saúde apontam que a prevalência da obesidade entre brasileiros passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024.
O aumento fez com que o tratamento da condição ganhasse espaço nas políticas públicas de saúde, principalmente diante da relação entre obesidade e outras doenças crônicas.
O objetivo do governo é avaliar como os medicamentos podem ser utilizados dentro de uma estratégia mais ampla de cuidado, evitando que as canetas sejam vistas como um tratamento isolado.
A orientação também está alinhada às recomendações internacionais mais recentes sobre o uso de terapias baseadas em GLP-1. A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende que esses medicamentos sejam utilizados dentro de estratégias abrangentes, associadas a alimentação adequada, atividade física e acompanhamento profissional.
Produção nacional pode ajudar a ampliar o acesso
Outro ponto considerado estratégico pelo Ministério da Saúde é o fortalecimento da produção nacional.
A entrada de fabricantes brasileiros no mercado é apontada como uma das medidas que ajudaram a aumentar a concorrência e reduzir os preços.
Segundo o Ministério da Saúde, pelo menos quatro dos novos produtos registrados em 2026 são produzidos no Brasil. A ampliação da capacidade de fabricação também é vista como importante para garantir maior segurança no abastecimento e diminuir a dependência de fornecedores externos.
A Anvisa também aprovou novos medicamentos à base de semaglutida ao longo de 2026. Em julho, por exemplo, a agência registrou cinco novos medicamentos com o princípio ativo, após pedido de prioridade feito pelo Ministério da Saúde para ampliar o acesso e fortalecer a concorrência no mercado brasileiro.
Ainda não há distribuição gratuita ampla
Apesar das expectativas, é importante diferenciar a previsão de incorporação da oferta efetiva pelo SUS.
Neste momento, as canetas ainda não estão disponíveis gratuitamente para a população de forma ampla. O processo precisa passar pela avaliação da Conitec e, posteriormente, seguir as etapas administrativas necessárias para uma eventual implementação.
O pedido protocolado pelo Ministério da Saúde prevê a avaliação da oferta desses medicamentos para pacientes com obesidade. A eventual incorporação deverá estabelecer critérios clínicos para determinar quais pessoas poderão receber o tratamento.
Isso significa que o anúncio do governo não representa, neste momento, uma liberação imediata das canetas nas unidades básicas de saúde.
Mudança pode afetar tratamento da obesidade no país
Se a incorporação for aprovada, o SUS poderá passar a oferecer uma alternativa terapêutica que atualmente tem custo elevado para grande parte dos pacientes que utilizam os medicamentos de forma particular.
A possibilidade de comprar os produtos em grande escala também poderá alterar a relação entre o poder público e os fabricantes, ampliando a capacidade de negociação e reduzindo o impacto financeiro da aquisição.
Para os pacientes, a eventual mudança poderá representar uma ampliação do acesso ao tratamento, especialmente para pessoas com obesidade que enfrentam dificuldades para custear medicamentos de uso contínuo.
Ao mesmo tempo, especialistas e autoridades de saúde destacam que o uso das canetas precisa ocorrer com indicação e acompanhamento profissional.
Próximos passos
O processo agora depende da avaliação da Conitec. A comissão deverá analisar as evidências disponíveis e os impactos clínicos e econômicos da possível incorporação dos medicamentos.
Enquanto isso, o Ministério da Saúde mantém os estudos sobre o uso das terapias de GLP-1 e trabalha na ampliação da produção nacional.
A perspectiva apresentada pelo governo é de que, caso os medicamentos sejam incorporados, a combinação entre concorrência, produção brasileira e compras em grande escala permita reduzir significativamente os custos.
A estimativa de até 90% de desconto, portanto, refere-se às condições de aquisição projetadas para o SUS, e não significa que o paciente terá necessariamente um desconto dessa proporção nas farmácias.
O cenário ainda está em construção, mas a discussão já representa uma mudança importante na forma como o Brasil trata o acesso aos medicamentos contra a obesidade. Se a incorporação avançar, as chamadas canetas emagrecedoras poderão deixar de ser um tratamento restrito a quem consegue arcar com os custos particulares e passar a integrar, sob critérios médicos definidos, a estrutura de atendimento do sistema público de saúde.













