A menopausa pode provocar mudanças no organismo que vão muito além dos sintomas mais conhecidos, como ondas de calor, alterações no sono e mudanças de humor. Um novo estudo publicado na revista científica Nature Medicine encontrou alterações em proteínas presentes no sangue de mulheres durante a transição para a menopausa que também estão relacionadas a processos de envelhecimento cerebral e ao risco de doença de Alzheimer.
A pesquisa, publicada em 22 de setembro de 2026, foi realizada por cientistas de instituições do Canadá e dos Estados Unidos e reuniu dados de diferentes grupos de mulheres. Os pesquisadores observaram mudanças relacionadas à inflamação, ao metabolismo, à comunicação entre os neurônios e a processos biológicos associados à doença de Alzheimer.
Os resultados ajudam a ampliar a compreensão sobre o que acontece no organismo feminino durante a meia-idade e levantam novas possibilidades para estudar a relação entre alterações hormonais, envelhecimento cerebral e saúde cognitiva.
É importante destacar, porém, que o trabalho não demonstra que a menopausa cause Alzheimer. O estudo identificou associações entre determinadas alterações moleculares relacionadas à menopausa e indicadores de envelhecimento cognitivo e risco de demência em fases posteriores da vida. Os próprios pesquisadores apontam a necessidade de novos estudos para entender melhor essa relação.
O que acontece com as proteínas durante a menopausa
Na primeira etapa da pesquisa, os cientistas analisaram 80 mulheres entre 43 e 58 anos, divididas entre os períodos anterior à menopausa, de transição menopausal e posterior à menopausa. Também participaram 36 homens de idade semelhante, utilizados como grupo de comparação.
Os pesquisadores avaliaram 118 proteínas presentes no sangue e identificaram 16 que apresentavam níveis mais elevados nas mulheres após a menopausa, mesmo depois de considerados os efeitos da idade.
Essas proteínas estavam relacionadas a diferentes processos do organismo. Entre eles estavam mecanismos inflamatórios, funcionamento das conexões entre células nervosas, metabolismo e processos biológicos associados à doença de Alzheimer.
A partir dessas alterações, a equipe criou uma espécie de pontuação molecular relacionada à menopausa. O índice aumentou progressivamente entre as diferentes fases da transição menopausal.
Um dos resultados considerados relevantes pelos pesquisadores foi que essas mudanças estiveram mais relacionadas aos níveis hormonais do que à idade das participantes.
Queda do estrogênio e aumento do FSH
A menopausa é marcada por profundas alterações hormonais. Entre elas está a redução do estradiol, uma das principais formas de estrogênio produzidas pelos ovários, e o aumento do hormônio folículo-estimulante, conhecido como FSH.
No estudo, as alterações observadas nas proteínas do sangue acompanharam essas mudanças hormonais.
A pesquisa também encontrou diferenças relacionadas a determinados sintomas da menopausa. Mulheres que relataram suores noturnos apresentaram níveis mais elevados de algumas proteínas associadas à inflamação.
Entre os marcadores identificados estavam proteínas como CCL13, CXCL1, CCL26 e CCL2. Os pesquisadores destacam que essas associações ajudam a entender como sintomas físicos da transição menopausal podem estar relacionados a alterações biológicas mais amplas.
Isso não significa, entretanto, que mulheres que apresentam suores noturnos necessariamente tenham maior risco de desenvolver Alzheimer. A associação encontrada é um sinal para investigação científica, e não uma ferramenta individual de diagnóstico.
Resultados foram comparados com mais de 2,8 mil mulheres
Para verificar se os resultados encontrados inicialmente poderiam ser reproduzidos em uma população maior, os pesquisadores utilizaram dados do UK Biobank, banco de informações de saúde do Reino Unido.
Nessa etapa, foram analisadas 2.814 mulheres entre 45 e 60 anos, divididas em grupos de acordo com o estágio da menopausa.
Os resultados confirmaram parte das alterações identificadas no primeiro grupo. Os pesquisadores encontraram mudanças mais amplas em proteínas relacionadas a processos inflamatórios e ao metabolismo após a menopausa.
A análise também apontou sinais compatíveis com maior envelhecimento biológico de diferentes órgãos e células, incluindo o cérebro.
Essa etapa foi importante porque permitiu observar que as mudanças não estavam restritas ao pequeno grupo utilizado na primeira fase da pesquisa.
Relação com memória e envelhecimento cognitivo
Depois de identificar as alterações moleculares associadas à menopausa, os cientistas buscaram entender se esse padrão poderia ter alguma relação com a saúde cognitiva ao longo do envelhecimento.
Para isso, foram utilizados dados de quatro grupos independentes de mulheres mais velhas, totalizando 11.925 participantes.
As mulheres que apresentavam pontuações mais altas no chamado perfil proteômico da menopausa tiveram, de forma consistente, resultados menos favoráveis em algumas avaliações relacionadas ao envelhecimento cognitivo. Essas avaliações consideram capacidades como memória e raciocínio.
Em uma das análises, que acompanhou 11.059 mulheres por uma média de 15,7 anos, o padrão molecular associado à menopausa esteve relacionado a um risco maior de demência por Alzheimer.
Os pesquisadores, no entanto, classificaram o tamanho dessa associação como relativamente pequeno. Além disso, as relações encontradas não apresentaram o mesmo padrão para todos os tipos de demência.
Não houve associação estatisticamente significativa semelhante para demência vascular, demência frontotemporal ou para o conjunto de todas as demências analisadas.
Menopausa não significa que a mulher desenvolverá Alzheimer
Um dos pontos mais importantes do estudo é justamente evitar uma interpretação direta entre menopausa e doença de Alzheimer.
A menopausa é uma etapa natural do envelhecimento reprodutivo feminino e ocorre em todas as mulheres que possuem ovários. A grande maioria das mulheres que passa pela menopausa não desenvolve demência.
Segundo os próprios autores, a transição menopausal pode representar uma fase importante para compreender mecanismos que influenciam o envelhecimento cerebral, mas isso não significa que a menopausa seja, isoladamente, uma causa de Alzheimer.
A pesquisa trabalha principalmente com marcadores biológicos que podem ajudar os cientistas a identificar mudanças que acontecem décadas antes do aparecimento dos sintomas de demência.
Estudo ainda tem limitações
Apesar do número expressivo de participantes nas diferentes etapas, os pesquisadores reconhecem limitações importantes.
A primeira amostra, utilizada para identificar as alterações relacionadas à menopausa, foi relativamente pequena, com apenas 80 mulheres. Além disso, as proteínas e os hormônios foram medidos em um único momento, o que impede acompanhar diretamente como essas mudanças evoluem ao longo da transição menopausal.
Outro ponto é que os sintomas foram relatados pelas próprias participantes, enquanto as proteínas encontradas no sangue podem ter origem em diferentes tecidos do organismo. Portanto, não é possível afirmar que todas as alterações observadas tenham origem diretamente no cérebro.
Por isso, os autores defendem estudos longitudinais, capazes de acompanhar as mesmas mulheres durante vários anos, desde antes da menopausa até períodos posteriores.
Possíveis caminhos para novas pesquisas
Apesar das limitações, o estudo abre uma frente importante para a ciência. A identificação de alterações moleculares relacionadas à menopausa pode ajudar pesquisadores a entender melhor como os hormônios sexuais, a inflamação, o metabolismo e o funcionamento cerebral se relacionam durante o envelhecimento.
No futuro, esses marcadores poderão ser investigados como possíveis ferramentas para acompanhar a saúde cerebral ou identificar mecanismos que possam ser utilizados no desenvolvimento de estratégias de prevenção e tratamento.
Ainda é cedo, porém, para transformar os resultados em recomendações médicas específicas. Os pesquisadores ressaltam que serão necessários novos estudos para confirmar os mecanismos observados e entender quais alterações realmente têm impacto sobre o cérebro.
Para as mulheres, a principal mensagem é que a menopausa deve ser compreendida como uma fase de importantes transformações no organismo, que merece acompanhamento adequado. Sintomas e mudanças nessa etapa não devem ser ignorados, mas também não devem ser interpretados automaticamente como sinais de doença.
O novo estudo acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça científico ao mostrar que a transição menopausal está associada a mudanças moleculares que permanecem relevantes quando os pesquisadores analisam indicadores de envelhecimento cognitivo muitos anos depois.
A descoberta não estabelece uma relação de causa e efeito entre menopausa e Alzheimer, mas reforça uma linha de pesquisa cada vez mais importante: compreender o que acontece no organismo feminino durante a meia-idade pode ajudar a ciência a identificar, com maior antecedência, fatores relacionados à saúde do cérebro ao longo do envelhecimento.















