Uma pesquisa científica publicada na revista PLOS One identificou uma possível relação entre as bactérias presentes na língua e a velocidade com que uma pessoa responde a determinadas tarefas cognitivas. O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido, e da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, analisou 60 adultos saudáveis e encontrou associações entre a presença de alguns microrganismos da boca e o desempenho em avaliações de memória, atenção, aprendizagem visual e reconhecimento de emoções.
Entre os principais resultados, os cientistas observaram que participantes com maior proporção da bactéria Prevotella histicola na língua apresentaram respostas mais rápidas em determinadas atividades. A associação foi identificada nos dois países, embora os testes em que o efeito apareceu tenham variado entre os grupos avaliados.
O trabalho foi publicado na segunda-feira, 5 de outubro de 2026, e amplia as investigações sobre a relação entre os microrganismos que vivem no corpo humano e o funcionamento do cérebro. Apesar dos resultados, os pesquisadores não demonstraram que essas bactérias sejam responsáveis por melhorar o raciocínio. O estudo aponta uma associação que precisa ser examinada em pesquisas maiores e mais aprofundadas.
Como a pesquisa foi realizada
Para desenvolver o estudo, a equipe científica reuniu 60 participantes, sendo 30 residentes no Reino Unido e 30 na Bélgica. Em cada grupo nacional, foram avaliados 15 adultos jovens e 15 pessoas mais velhas.
Todos os voluntários eram considerados saudáveis e não fumavam. Antes dos testes, os pesquisadores realizaram uma avaliação inicial das funções cognitivas dos participantes. Em seguida, eles passaram por dez atividades destinadas a examinar diferentes habilidades mentais.
Os testes incluíram tarefas relacionadas à memória, à atenção, à aprendizagem visual e à capacidade de reconhecer emoções. Além de registrar a quantidade de respostas corretas, os pesquisadores mediram o tempo que cada pessoa levava para responder às atividades propostas.
A equipe também coletou amostras da língua, da saliva e do sangue. Esse material permitiu investigar características biológicas dos participantes e comparar a composição dos microrganismos encontrados na boca com os resultados das avaliações cognitivas.
A partir da análise conjunta dessas informações, os cientistas procuraram identificar se determinadas bactérias apareciam com maior frequência entre as pessoas que apresentavam respostas mais rápidas ou melhor desempenho em tarefas específicas.
O procedimento possibilitou observar associações entre a microbiota oral e algumas medidas cognitivas. Entretanto, por se tratar de uma investigação com um grupo relativamente pequeno de pessoas, os resultados não permitem estabelecer conclusões definitivas sobre a população em geral.
O papel da Prevotella histicola
Um dos microrganismos que chamou a atenção dos pesquisadores foi a Prevotella histicola. Nos participantes dos dois países, uma maior proporção dessa bactéria na língua esteve associada a respostas mais rápidas em determinadas tarefas cognitivas.
O resultado despertou interesse por sugerir que características da microbiota oral podem estar relacionadas a aspectos do processamento de informações. Na prática, o tempo de resposta é uma das medidas utilizadas para avaliar a rapidez com que uma pessoa percebe um estímulo, interpreta uma informação e executa uma ação solicitada.
No entanto, responder rapidamente não significa, necessariamente, apresentar um raciocínio melhor em todas as situações. A avaliação das funções cognitivas depende de diferentes fatores, como a precisão das respostas, a complexidade da tarefa, a atenção e as características individuais de cada participante.
Por isso, a associação observada não deve ser interpretada como uma prova de que a presença dessa bactéria aumenta a inteligência ou melhora a capacidade de raciocínio. O estudo identificou uma relação estatística em determinadas atividades, mas não estabeleceu uma ligação direta de causa e efeito.
Os pesquisadores também precisam investigar se outros fatores biológicos ou comportamentais podem ajudar a explicar os resultados encontrados.
Outra bactéria apresentou resultados diferentes
Além da Prevotella histicola, os cientistas identificaram associações envolvendo a bactéria Haemophilus parainfluenzae. Esse microrganismo também esteve relacionado ao desempenho cognitivo nos dois países, mas os padrões observados variaram conforme o grupo e o tipo de tarefa.
Na Bélgica, uma maior presença da bactéria foi associada a respostas mais rápidas em atividades de reconhecimento de emoções e aprendizagem visual. Os pesquisadores também observaram uma relação com um número maior de acertos em um teste de memória.
No Reino Unido, a presença do mesmo microrganismo esteve relacionada a respostas mais rápidas em algumas atividades. Entretanto, no teste de reconhecimento de emoções, a associação apontou para respostas mais lentas.
As diferenças reforçam a complexidade do tema. Uma bactéria não parece estar relacionada da mesma maneira a todas as habilidades avaliadas, e os resultados encontrados em um grupo não podem ser automaticamente reproduzidos em outro.
Essa variação também mostra por que é necessário realizar novas pesquisas antes de afirmar que determinadas bactérias favorecem ou prejudicam o funcionamento cerebral.
Os participantes eram pessoas saudáveis, e os resultados não foram apresentados como evidência de comprometimento cognitivo ou de qualquer doença. O estudo investigou diferenças de desempenho entre indivíduos, sem estabelecer um diagnóstico clínico a partir da composição da microbiota oral.
Por que os cientistas investigam as bactérias da boca?
A boca abriga uma comunidade diversificada de microrganismos, conhecida como microbiota oral. Essas bactérias participam de diferentes processos biológicos e podem desempenhar funções importantes para o equilíbrio do organismo.
Uma das áreas que despertam interesse científico envolve a participação de determinadas bactérias na transformação do nitrato, substância presente em alimentos como a beterraba e outros vegetais.
Depois de ingerido, parte do nitrato chega à saliva. Nesse ambiente, algumas bactérias presentes na boca podem convertê-lo em nitrito. Posteriormente, esse composto pode contribuir para a produção de óxido nítrico, uma molécula envolvida na dilatação dos vasos sanguíneos e na regulação do fluxo de sangue.
O óxido nítrico desempenha funções importantes no sistema cardiovascular, e sua relação com a circulação sanguínea também desperta interesse em pesquisas sobre o cérebro. Isso porque o funcionamento cerebral depende do fornecimento adequado de oxigênio e nutrientes, transportados pelo sangue.
A participação dos microrganismos nesse processo é uma das razões pelas quais os cientistas investigam possíveis conexões entre a microbiota oral e diferentes aspectos da saúde humana.
Ainda assim, a existência desse mecanismo biológico não comprova que as bactérias identificadas no estudo tenham melhorado diretamente o desempenho cognitivo dos participantes. Essa hipótese exige investigações específicas para determinar quais mecanismos podem estar envolvidos.
O que os resultados significam para a saúde?
A pesquisa contribui para ampliar o conhecimento sobre a relação entre os microrganismos que vivem na boca e o funcionamento do organismo. Entretanto, seus resultados devem ser interpretados com cautela, principalmente porque envolveram apenas 60 participantes.
Estudos com amostras maiores, diferentes perfis de voluntários e acompanhamento ao longo do tempo poderão ajudar a esclarecer se as associações observadas se repetem em outras populações. Também será necessário investigar se existe algum mecanismo biológico capaz de explicar a relação entre determinadas bactérias e a velocidade das respostas cognitivas.
Outro ponto importante é distinguir associação de causalidade. Quando duas características aparecem relacionadas em uma pesquisa, isso não significa que uma seja responsável pela outra. Outros fatores podem influenciar simultaneamente a composição da microbiota oral e o desempenho nos testes.
Por enquanto, não há fundamento para recomendar o consumo de produtos específicos, suplementos ou mudanças na alimentação com o objetivo de aumentar a presença das bactérias mencionadas e acelerar o raciocínio.
A manutenção da saúde bucal continua sendo importante para prevenir problemas como cáries e doenças gengivais. A escovação regular, o uso adequado do fio dental e as consultas odontológicas são medidas reconhecidas para cuidar dos dentes e das gengivas, mas não devem ser apresentadas como métodos comprovados para melhorar a velocidade do pensamento com base nesse estudo.
Novas pesquisas podem ampliar o conhecimento
A investigação publicada na PLOS One representa mais um passo no estudo da relação entre a microbiota humana e as funções cognitivas. Ao identificar associações entre bactérias da língua e o tempo de resposta em tarefas específicas, os pesquisadores abriram novas possibilidades para compreender como diferentes sistemas do organismo podem estar relacionados.
Os resultados, porém, não significam que exista uma bactéria capaz de tornar uma pessoa mais inteligente ou de garantir um raciocínio mais rápido. A pesquisa oferece pistas científicas, mas ainda não apresenta respostas definitivas.
Com novos estudos, os cientistas poderão avaliar a consistência dessas associações, investigar possíveis mecanismos biológicos e compreender se as diferenças observadas têm relevância para a saúde ao longo da vida.
Até lá, a principal conclusão é que a microbiota oral pode estar relacionada a aspectos do desempenho cognitivo, mas a natureza dessa relação ainda precisa ser esclarecida. A descoberta reforça a importância da pesquisa científica para investigar conexões entre áreas do corpo humano que, à primeira vista, podem parecer distantes, como a saúde da boca e o processamento de informações pelo cérebro.
















