O calor extremo representa uma ameaça crescente à saúde de gestantes e bebês, com possíveis consequências que vão desde complicações durante a gravidez até o parto prematuro, o baixo peso ao nascer e a morte do bebê antes do nascimento. Diante desse cenário, a Organização das Nações Unidas (ONU) fez um alerta internacional e pediu aos países que ampliem as medidas de proteção à saúde materna e neonatal diante do avanço das mudanças climáticas.

A preocupação foi apresentada por Simon Stiell, chefe da área de ação climática da ONU, durante um evento organizado pela fundação Wellcome, realizado em 5 de outubro de 2026, em Fiji. O encontro ocorreu antes da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP31, prevista para novembro, em Antalya, na Turquia.

Segundo o dirigente, a elevação das temperaturas exige uma resposta mais abrangente dos governos, especialmente para proteger pessoas em condições de maior vulnerabilidade. A gravidez, por envolver mudanças fisiológicas importantes no organismo da mulher e o desenvolvimento do bebê, precisa receber atenção específica nas políticas públicas de adaptação climática.

“Temperaturas em alta significam perigo em alta na gravidez”, afirmou Stiell, conforme comunicado divulgado pela ONU.

O alerta reforça a necessidade de tratar o calor extremo não apenas como uma questão ambiental, mas também como um problema de saúde pública que pode afetar diretamente a segurança da gestação, do parto e dos primeiros dias de vida.

Pesquisa aponta preocupação entre profissionais de saúde

Durante o evento em Fiji, foram apresentados resultados de uma pesquisa encomendada pela fundação Wellcome com profissionais que atuam na área de saúde materna em cinco países.

De acordo com os dados divulgados, 73% dos entrevistados relataram ter observado um aumento das complicações de saúde relacionadas ao calor nos cinco anos anteriores. O levantamento também identificou uma preocupação expressiva entre os profissionais com os efeitos das temperaturas elevadas sobre gestantes, bebês ainda no útero e recém-nascidos.

Entre os participantes, 81% afirmaram estar preocupados ou muito preocupados com o crescimento dos riscos associados ao calor extremo caso as medidas de prevenção e proteção não sejam ampliadas.

Quase todos os profissionais ouvidos também relataram já ter atendido uma gestante ou um bebê cuja saúde, segundo a avaliação deles, havia sido afetada pelas altas temperaturas.

Os resultados evidenciam a preocupação de quem acompanha de perto a saúde materna e neonatal. Entretanto, os percentuais refletem as respostas dos profissionais entrevistados e não devem ser interpretados, isoladamente, como uma estimativa da frequência dessas complicações entre todas as gestantes.

A pesquisa contribui para chamar a atenção para um problema que exige mais investigação, planejamento dos serviços de saúde e estratégias capazes de reduzir a exposição ao calor durante os períodos de temperaturas extremas.

Quais são os riscos do calor extremo durante a gravidez?

A exposição a temperaturas muito elevadas pode sobrecarregar o organismo, especialmente quando a pessoa não consegue se refrescar adequadamente, beber água suficiente ou descansar em um ambiente ventilado.

Durante a gravidez, o corpo passa por mudanças que envolvem a circulação sanguínea, o metabolismo e a regulação da temperatura corporal. Por isso, os episódios de calor intenso merecem atenção especial, principalmente quando são prolongados e acompanhados de condições inadequadas de moradia ou trabalho.

Entre os riscos mencionados no alerta internacional estão:

Parto prematuro: ocorre quando o bebê nasce antes de completar 37 semanas de gestação. O nascimento antecipado pode exigir cuidados especializados e aumentar a possibilidade de complicações, dependendo da idade gestacional e das condições de saúde da criança.

Baixo peso ao nascer: caracteriza-se quando o recém-nascido apresenta peso inferior a 2.500 gramas. Essa condição pode estar relacionada a diferentes fatores, e a exposição ao calor é investigada como um dos elementos ambientais que podem influenciar os resultados da gestação.

Natimortalidade: é a morte do bebê antes do nascimento, uma ocorrência que pode estar associada a diferentes condições clínicas e obstétricas. O calor extremo é apontado como um possível fator de risco, mas não determina, por si só, que esse desfecho acontecerá.

Complicações maternas: as temperaturas elevadas podem favorecer a desidratação, o esgotamento pelo calor e outros problemas que exigem avaliação médica. A intensidade dos efeitos depende de fatores como o estado de saúde da gestante, a duração da exposição e a possibilidade de se proteger do calor.

É importante destacar que esses riscos não significam que toda gestante exposta a altas temperaturas desenvolverá problemas. A preocupação das autoridades é reduzir a exposição e ampliar as condições de prevenção, sobretudo durante ondas de calor.

Falta de estrutura aumenta a vulnerabilidade

Os efeitos do calor extremo não atingem todas as pessoas da mesma maneira. As condições de moradia, o tipo de trabalho, a renda familiar e o acesso aos serviços de saúde podem influenciar diretamente a capacidade de uma gestante se proteger.

Simon Stiell chamou a atenção para a situação de pessoas que trabalham ao ar livre, vivem em moradias precárias ou precisam percorrer longas distâncias para chegar a uma unidade de atendimento. Também preocupam os locais onde faltam água potável, energia elétrica ou estruturas que permitam manter os ambientes internos em temperaturas mais confortáveis.

Nessas circunstâncias, recomendações individuais, como permanecer em locais frescos, podem não ser suficientes. Uma mulher que trabalha sob o sol durante várias horas ou vive em uma casa sem ventilação adequada pode não ter condições práticas de seguir as orientações de prevenção.

A ausência de transporte acessível e a distância até os serviços de saúde também podem dificultar a procura por atendimento quando surgem sinais de desidratação ou outros problemas relacionados ao calor.

Por isso, a ONU defende que o enfrentamento dos riscos climáticos considere as desigualdades sociais. A proteção da saúde materna depende tanto de informação quanto de infraestrutura, assistência médica acessível e políticas públicas capazes de alcançar as populações mais expostas.

ONU apresenta três prioridades para proteger gestantes e recém-nascidos

Diante das preocupações apresentadas, a ONU defende que os governos incorporem a saúde materna e neonatal de maneira mais direta aos seus planos de adaptação às mudanças climáticas.

A proposta envolve três frentes principais.

A primeira é incluir a gravidez, o parto e os cuidados com os recém-nascidos nas estratégias nacionais e locais de enfrentamento do calor extremo. Isso significa considerar as necessidades desse público no planejamento de ações preventivas e na organização dos serviços de saúde.

A segunda prioridade é transformar o conhecimento científico em medidas práticas. Entre as iniciativas estão a elaboração de orientações para profissionais e pacientes, a capacitação das equipes de atendimento, a ampliação dos alertas de calor e a preparação de unidades de saúde para oferecer ambientes mais seguros durante períodos de temperaturas elevadas.

A terceira frente consiste em melhorar a coleta de dados sobre os efeitos do calor na gravidez e identificar quais medidas de proteção apresentam melhores resultados. Com informações mais completas, os governos poderão reconhecer as regiões de maior risco e direcionar recursos de forma mais eficiente.

Segundo a proposta apresentada por Stiell, a inclusão da saúde materna nas políticas climáticas também é importante para garantir financiamento às ações preventivas e acompanhar se os investimentos estão produzindo resultados.

Como as gestantes podem se proteger em períodos de calor intenso?

Enquanto as políticas públicas são ampliadas, algumas medidas podem ajudar a reduzir os efeitos das altas temperaturas durante a gravidez.

Sempre que possível, recomenda-se beber água regularmente, evitar atividades físicas intensas nos horários mais quentes e procurar ambientes sombreados, ventilados ou climatizados. Roupas leves e a redução da exposição direta ao sol também podem contribuir para diminuir o desconforto térmico.

Gestantes que trabalham ao ar livre devem, quando possível, ter acesso a pausas, água e locais de descanso protegidos do sol. A adoção dessas medidas depende também da responsabilidade dos empregadores e da existência de condições adequadas de trabalho.

É importante procurar atendimento médico diante de sintomas como tontura intensa, desmaio, confusão mental, fraqueza acentuada ou sinais de superaquecimento. Em situações graves, especialmente quando há alteração da consciência, a assistência deve ser buscada imediatamente.

As orientações devem ser adaptadas às condições de saúde de cada mulher, com acompanhamento da equipe responsável pelo pré-natal. Nenhuma medida preventiva substitui a avaliação médica quando surgem sintomas preocupantes.

Crise climática também é uma questão de saúde pública

O alerta apresentado pela ONU reforça que o avanço das temperaturas exige respostas que ultrapassem as políticas ambientais tradicionais. Proteger gestantes e recém-nascidos significa reconhecer que os efeitos da crise climática alcançam diretamente a saúde, o bem-estar das famílias e a qualidade da assistência oferecida pelos sistemas públicos.

Os dados apresentados por profissionais de cinco países mostram preocupação com o aumento das complicações associadas ao calor e apontam a necessidade de ampliar a preparação dos serviços de saúde. Ao mesmo tempo, novas pesquisas e sistemas de monitoramento são necessários para compreender melhor a dimensão dos riscos e avaliar as estratégias mais eficazes.

Com a COP31 prevista para novembro, a expectativa é que a saúde materna e neonatal ganhe espaço nas discussões sobre adaptação climática, financiamento e proteção das populações vulneráveis.

A mensagem central da ONU é que gestantes e bebês precisam ser considerados nas políticas de enfrentamento do calor extremo. Em um cenário de temperaturas cada vez mais preocupantes, planejamento, informação, infraestrutura e acesso à saúde são fundamentais para reduzir riscos e tornar a gravidez mais segura.