A música caipira brasileira ganha uma homenagem especial com o lançamento do álbum “Cantigas e causos – Élcio Dias & Amorim celebram os 90 anos de Rolando Boldrin”. O projeto reúne canções marcantes, participações de artistas ligados à música rural e textos declamados que resgatam a essência de um dos grandes nomes da cultura popular do país. O disco chega às plataformas digitais na sexta-feira, 23 de outubro, pela gravadora Kuarup, um dia depois da data em que Rolando Boldrin completaria 90 anos.

Ator, cantor, compositor, contador de causos e apresentador, Boldrin nasceu em 22 de outubro de 1936, em São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo. Ele morreu em 9 de novembro de 2022, aos 86 anos, deixando uma trajetória marcada pela valorização das tradições brasileiras e pela defesa da música caipira como expressão da identidade cultural do país.

A homenagem é conduzida pela dupla Élcio Dias & Amorim, formada em 2019, em Embu das Artes, na Região Metropolitana de São Paulo. O trabalho reúne 14 faixas e propõe uma viagem musical pelo repertório associado a Boldrin, com interpretações de clássicos que atravessaram gerações e continuam presentes na memória afetiva de quem aprecia a viola, as modas de raiz e as histórias do interior.

Mais do que celebrar uma data simbólica, o álbum procura manter viva a obra de um artista que transformou a cultura caipira em protagonista de discos, programas de televisão e encontros musicais.

Rolando Boldrin, um defensor da cultura brasileira

A história de Rolando Boldrin está profundamente ligada à música e às narrativas populares do Brasil. Nascido no interior paulista, ele construiu uma carreira artística que ultrapassou os limites da interpretação musical. Sua atuação como ator, compositor e apresentador ajudou a divulgar artistas, canções e manifestações culturais que nem sempre encontravam espaço nos grandes meios de comunicação.

Boldrin ficou especialmente conhecido por apresentar programas televisivos dedicados à música brasileira de raiz. Nessas atrações, recebia músicos, cantadores e representantes de diferentes tradições culturais, criando um espaço para que o público conhecesse histórias e sonoridades ligadas à vida no campo.

Seu trabalho ajudou a aproximar diferentes gerações do universo caipira, valorizando a viola, os causos, a linguagem popular e as composições que retratam sentimentos, costumes e experiências da população brasileira.

Essa contribuição permanece como uma das marcas de sua trajetória. Ao apresentar artistas e interpretar músicas tradicionais, Boldrin ajudou a demonstrar que a cultura do interior tem riqueza artística própria e merece reconhecimento dentro da música nacional.

É justamente esse legado que Élcio Dias & Amorim procuram revisitar em “Cantigas e causos”, reunindo canções conhecidas e composições que permitem ao público reencontrar diferentes momentos da obra do homenageado.

Dupla aposta em clássicos e participações especiais

O álbum conta com 14 faixas e reúne participações de nomes ligados à música brasileira. Entre os destaques está “Viola quebrada”, composição de Mário de Andrade, de 1936, interpretada pela dupla com Renato Teixeira.

A canção faz parte de um repertório que valoriza a tradição musical e a relação entre a cultura popular e a identidade brasileira. A participação de Renato Teixeira reforça a conexão do projeto com artistas que dedicaram parte de suas carreiras à música de raiz.

Outra faixa é “Eu, a viola e Deus”, de 1979, apresentada com o violeiro Chico Lobo. A música dialoga diretamente com o universo da viola caipira, instrumento que ocupa lugar central na trajetória de muitos artistas ligados ao gênero.

O repertório também inclui “Vide, vida marvada”, de 1981, interpretada com Jackson Antunes, e “Vaca Estrela e Boi Fubá”, composição de Patativa do Assaré, de 1958, que conta com a participação de Wandi Doratiotto.

As escolhas ajudam a compor um panorama de diferentes expressões da música brasileira, reunindo poesia, religiosidade, cotidiano rural e narrativas que refletem as experiências de quem vive no interior.

A proposta não se limita à reprodução de sucessos. Ao reunir convidados e novas interpretações, o projeto também aproxima artistas de diferentes gerações em torno de um repertório que permanece relevante para a cultura nacional.

“Tema para Juliana” resgata uma joia da trajetória de Boldrin

Entre as músicas selecionadas, um dos destaques é “Tema para Juliana”, composição de Rolando Boldrin criada para a trilha sonora da novela “Os inocentes”, exibida pela TV Tupi em 1974.

Na produção televisiva, Boldrin interpretou Otávio, um dos personagens centrais da trama. Anos depois, em 1994, o artista gravou a composição no álbum “Som da terra”, contribuindo para preservar a música também em sua discografia.

A inclusão da obra em “Cantigas e causos” ajuda a revelar uma dimensão menos lembrada de sua trajetória: a capacidade de transitar entre diferentes formatos artísticos, conectando música, televisão e interpretação.

Ao recuperar uma composição associada à dramaturgia, o álbum amplia o olhar sobre a produção de Boldrin e mostra que seu legado não se restringe às canções mais conhecidas do repertório caipira.

A faixa também reforça o caráter de resgate cultural do projeto, que procura reunir músicas de diferentes períodos e apresentar ao público aspectos variados da carreira do homenageado.

Cantigas e causos: a palavra também tem lugar na música

O título do álbum traduz a proposta de preservar duas marcas importantes do universo de Rolando Boldrin: as canções e as histórias contadas de maneira simples, próxima e carregada de significado.

Além das interpretações musicais, o repertório apresenta textos declamados. Entre eles estão “Crônica do tempo”, escrita por Boldrin, e “A morte não é nada”, texto tradicionalmente atribuído a Santo Agostinho.

A presença desses momentos falados recupera uma característica que acompanhou a atuação de Boldrin como apresentador: a capacidade de transformar histórias, lembranças e reflexões em experiências de aproximação com o público.

Na cultura caipira, os causos ocupam um lugar especial. Transmitidas de geração em geração, essas narrativas misturam humor, emoção, memória e observações sobre a vida cotidiana. Muitas vezes, uma história contada em uma roda de conversa preserva costumes e experiências que não aparecem nos registros oficiais.

Ao incorporar a palavra falada ao álbum, Élcio Dias & Amorim reconhecem que a herança cultural de Boldrin vai além das melodias. Sua obra também está relacionada à maneira como apresentava personagens, valorizava expressões populares e convidava o público a ouvir histórias.

Outras canções que atravessam gerações

O repertório inclui ainda “Amor de violeiro”, de 1974, e “Novo amanhecer”, composição de Manezinho Araújo criada por volta de 1956 e popularizada por Boldrin em uma gravação incluída no álbum “Violeiro”, de 1982.

A presença de “Novo amanhecer” também chama a atenção por recuperar uma composição que atravessou décadas e encontrou em Boldrin um importante intérprete. A nova homenagem permite que a música alcance ouvintes que talvez ainda não conheçam sua história.

As escolhas musicais mostram como o repertório caipira se constrói a partir de diferentes influências e experiências. As canções falam de sentimentos, relações humanas, paisagens, crenças e transformações sociais, preservando uma conexão com a vida cotidiana.

Ao reunir essas obras, o projeto contribui para que elas continuem circulando em novos contextos, sem perder a ligação com suas origens.

Élcio Dias & Amorim ampliam trajetória com a homenagem

Formada em 2019, em Embu das Artes, a dupla reúne o cantor e violonista paulista Élcio Dias e o violeiro e cantor Gildécio José de Amorim, conhecido como Amorim. Nascido em Aracatu, na Bahia, Amorim vive em Embu das Artes desde os 15 anos.

A cidade paulista tem uma relação importante com manifestações culturais populares e com a preservação de tradições artísticas, ambiente que também faz parte da trajetória da dupla.

“Cantigas e causos” é o quarto álbum da carreira fonográfica de Élcio Dias & Amorim. O primeiro trabalho da dupla, lançado em 2021, foi uma homenagem a Pena Branca & Xavantinho, outra referência importante da música caipira brasileira.

A escolha de homenagear Rolando Boldrin dá continuidade a essa proposta de valorizar artistas que ajudaram a construir e divulgar a música de raiz. Ao revisitar esse repertório, os músicos reafirmam a importância de manter vivas as obras que formam parte da memória cultural do país.

Uma homenagem que mantém viva a música de raiz

O lançamento de “Cantigas e causos – Élcio Dias & Amorim celebram os 90 anos de Rolando Boldrin” chega em uma data simbólica e convida o público a revisitar a trajetória de um artista que dedicou grande parte da vida à valorização da cultura brasileira.

Com 14 faixas, participações especiais, músicas conhecidas e textos declamados, o álbum busca apresentar diferentes dimensões de seu legado, aproximando ouvintes antigos e novos de um repertório que continua atravessando gerações.

A homenagem também reforça a importância de preservar a música caipira não apenas como lembrança do passado, mas como uma tradição viva, capaz de dialogar com o presente e continuar inspirando artistas.

O disco estará disponível nas plataformas digitais em 23 de outubro, pela gravadora Kuarup. Para quem acompanha a música brasileira de raiz, a obra representa uma oportunidade de reencontrar canções marcantes e celebrar a memória de Rolando Boldrin, cuja voz ajudou a colocar o Brasil caipira em evidência e a mostrar a riqueza cultural existente para além dos grandes centros urbanos.