A cantora, compositora e instrumentista Pitty lançou nesta sexta-feira (16) seu novo álbum de estúdio, intitulado “Pitty”. O trabalho marca o sexto disco solo da artista e apresenta uma combinação de punk rock, elementos do metal, referências à música eletrônica e momentos mais intimistas. Com 13 faixas inteiramente assinadas pela própria cantora, o projeto aposta na força das guitarras e em letras que refletem experiências pessoais, mudanças de vida e questões emocionais.
Disponível em edição digital e também nos formatos físicos LP e CD, pela gravadora Deck, o álbum foi produzido por Rafael Ramos em parceria com Pitty. O trabalho também conta com participações e contribuições de outros profissionais, entre eles Nave e Felipe Vassão, que colaboraram em faixas específicas.
Conhecida pela personalidade marcante e pela presença consolidada no rock brasileiro, Pitty apresenta um disco que retoma características importantes de sua trajetória musical. Ao mesmo tempo, a artista abre espaço para experimentações e aborda temas que ganharam novos significados ao longo de sua vida.
O resultado é um álbum que alterna momentos de agressividade sonora com composições mais reflexivas. Se, por um lado, as guitarras recuperam a energia punk que marcou parte da carreira da cantora, por outro, as letras revelam uma artista interessada em transformar experiências difíceis em expressão artística.
Retorno às raízes do rock
O lançamento foi antecipado pelo single “Sobremesa”, divulgado anteriormente como uma primeira amostra da direção musical escolhida para o projeto. A faixa apresenta um rock intenso, com características associadas ao punk, e sinaliza o retorno de Pitty a uma sonoridade mais direta e agressiva.
Essa escolha também estabelece um contraste com “Matriz”, álbum lançado em 2019 e considerado um momento de expansão estética na discografia da cantora. Naquele trabalho, Pitty incorporou referências da Bahia, sua terra natal, à linguagem do rock, explorando outras possibilidades musicais.
Em “Pitty”, a artista volta a concentrar boa parte da atenção nas guitarras, nos riffs marcantes e na energia característica do gênero. A mudança pode provocar comparações entre os dois discos, especialmente para quem acompanhou a evolução sonora da cantora ao longo dos últimos anos.
Em vez de seguir exclusivamente pela experimentação apresentada em “Matriz”, o novo projeto recupera elementos familiares ao público que conheceu Pitty por meio de seu rock mais contundente.
A faixa “Não à deriva” representa bem essa proposta. Com uma sonoridade que se aproxima do stoner rock, a música aposta em riffs pesados e em uma interpretação firme, reforçando o caráter incisivo do repertório.
Já “Desobediente” aproxima o álbum do universo do metal. A faixa explora uma atmosfera mais pesada e termina com elementos que remetem à música oriental, resultado de uma produção que também contou com a participação de Nave.
Essas escolhas demonstram que, embora o disco tenha uma identidade predominantemente roqueira, a cantora não abandona completamente a busca por novas texturas e combinações musicais.
Letras revelam uma fase mais pessoal
Um dos aspectos centrais do álbum está na abordagem das letras. Todas as 13 músicas foram escritas por Pitty sem parceiros de composição, característica que confere ao repertório um caráter especialmente pessoal.
A cantora transforma sentimentos, conflitos e acontecimentos de sua vida em narrativas musicais. Em vez de apostar apenas em mensagens genéricas de rebeldia, o disco apresenta reflexões sobre relações afetivas, autonomia, amadurecimento e reconstrução emocional.
A experiência acumulada ao longo de sua trajetória também aparece como parte importante dessa perspectiva. Aos 49 anos, completados em 7 de outubro, Pitty apresenta uma escrita que combina inconformismo e maturidade, preservando a atitude contestadora que marcou sua identidade artística.
Entre as composições mais pessoais está “Álbum de casamento”, faixa de blues-rock que aborda as dores de uma separação. A letra transforma o fim de um relacionamento em uma reflexão sobre confiança, autoestima e recuperação da própria identidade.
Em seus versos, a artista fala sobre a necessidade de registrar aquilo que dói para conseguir compreender e elaborar os sentimentos. A composição também aborda a retomada da autonomia e a valorização de aspectos fundamentais de sua vida, como o corpo, a arte e a maternidade.
A abordagem é direta e confessional. A música não se limita à tristeza provocada pelo término de uma relação, mas também aponta para um processo de reconstrução, no qual a personagem da canção reivindica o direito de decidir sobre a própria vida.
Entre o pop eletrônico e a identidade roqueira
Apesar da predominância do rock, o álbum apresenta momentos em que a cantora se aproxima de outras linguagens musicais.
“Pileque de poeta” é uma das faixas que mais se distanciam da atmosfera predominante do disco. Com participação de Felipe Vassão na coprodução, na programação e nos teclados, a música flerta com o pop contemporâneo e com elementos voltados à pista de dança.
A escolha amplia a variedade do repertório, embora crie um contraste com a sonoridade mais crua das demais composições.
Outra faixa desenvolvida com a colaboração de Vassão é “Sobriedade seletiva”. Nesse caso, a combinação de referências do punk, da disco music e da house se integra de maneira mais próxima à proposta geral do álbum, aproximando a energia das guitarras de elementos eletrônicos.
“Amiga,” também apresenta características particulares. A música mantém uma base roqueira, mas flerta brevemente com o universo do tecnobrega, criando uma diferença de atmosfera em relação às faixas mais pesadas.
Essas experiências mostram que Pitty não se restringe a uma fórmula única. Mesmo em um disco que privilegia suas raízes no punk rock, a cantora abre espaço para contrastes e mudanças de direção.
“Caminhada” destaca a sororidade feminina
Entre os momentos mais delicados do álbum está “Caminhada”, uma balada que aborda a sororidade feminina, conceito relacionado à solidariedade, ao apoio mútuo e ao reconhecimento das experiências compartilhadas entre mulheres.
A música deixa de lado parte da agressividade das guitarras para construir uma atmosfera mais sensível. A letra fala sobre a importância de reconhecer a dor da outra pessoa e compreender que situações de violência, silenciamento e opressão não devem ser enfrentadas de maneira isolada.
A mensagem reforça a ideia de que o cuidado coletivo também pode representar uma forma de resistência. Ao transformar essa perspectiva em canção, Pitty amplia o alcance de seu repertório para além das relações individuais, abordando vínculos sociais e experiências compartilhadas.
A composição também evidencia uma característica do álbum: algumas das músicas mais expressivas surgem justamente quando a intensidade instrumental diminui e a interpretação vocal ganha maior espaço.
Maternidade e reconciliação em “Cuidada”
Outro destaque é “Cuidada”, rock-balada em que Pitty se dirige à própria mãe a partir da experiência de também ter se tornado mãe de Madalena.
A passagem do tempo modifica a maneira como a cantora compreende determinadas atitudes e situações vividas durante a infância e a juventude. Na letra, ela reconhece que, quando era mais nova, nem sempre conseguia entender as dificuldades, os limites e as motivações de sua mãe.
A maternidade aparece, assim, como uma experiência capaz de ampliar a compreensão sobre a relação entre gerações. Ao olhar para o passado com a perspectiva de quem agora também cuida de uma filha, Pitty encontra espaço para reconhecer sentimentos e compreender situações que antes pareciam difíceis de interpretar.
A canção evita tratar a relação materna como uma experiência simples ou idealizada. Em vez disso, aposta na reflexão sobre as imperfeições, os aprendizados e as mudanças que acompanham a vida familiar.
Guitarras intensas e mensagem de recomeço
A energia do rock volta a ocupar o primeiro plano em músicas como “Armadura” e “Madame”. Nessas faixas, as guitarras de Martin Mendonça ganham destaque e se articulam com o baixo de Paulo Kishimoto, a bateria de Nico e os teclados de Rodrigo Tavares.
A combinação sustenta a atmosfera intensa que percorre boa parte do álbum, reforçando a identidade musical que Pitty construiu ao longo de sua carreira.
O disco termina com “Nó”, uma composição sobre recomeço e a necessidade de continuar avançando mesmo diante das dificuldades. A mensagem funciona como um fechamento coerente para um repertório que aborda perdas, transformações e recuperação da autonomia.
A ideia de que não tentar é pior do que cair resume uma das perspectivas presentes no trabalho: seguir em movimento, mesmo sem garantias de que o caminho será simples.
Um novo capítulo na trajetória de Pitty
O álbum “Pitty” apresenta uma artista que retorna a sonoridades familiares sem abandonar completamente as experimentações. O peso das guitarras, a influência do punk rock e as aproximações com o metal formam a base do projeto, enquanto o pop eletrônico e as baladas ampliam a diversidade do repertório.
A escolha de uma identidade predominantemente roqueira pode dividir opiniões entre ouvintes que esperavam uma continuação direta da expansão sonora apresentada em “Matriz”. Ainda assim, o disco oferece um elemento importante para compreender essa fase da cantora: a decisão de transformar vivências pessoais em matéria-prima para a criação artística.
Com 13 músicas autorais, Pitty entrega um trabalho que combina intensidade, vulnerabilidade e reflexão. Entre os conflitos afetivos, a maternidade, a solidariedade feminina e o desejo de recomeçar, a artista reafirma sua ligação com o rock e mostra que sua trajetória continua em movimento.
















