Uma imagem registrada por um astrônomo amador do interior de São Paulo ganhou um significado ainda mais especial após uma descoberta científica que chamou atenção da comunidade internacional. O farmacêutico e astrônomo amador Jefferson Mazzoni, de Nova Aliança, na região de São José do Rio Preto (SP), fotografou uma área da Via Láctea onde pesquisadores identificaram, pela primeira vez, a presença de um tipo de açúcar no espaço interestelar.

A descoberta foi detalhada em um artigo publicado na segunda-feira (13) na revista científica Nature Astronomy. O estudo revelou a existência da eritrulose, uma molécula considerada importante por pertencer à família dos açúcares relacionados a processos fundamentais para a vida.

Após saber da descoberta, Jefferson decidiu voltar seus telescópios para a região observada pelos cientistas e registrar novamente o centro da galáxia.

“Eu já tinha fotografado várias vezes o centro da Via Láctea”, contou o astrônomo amador.

Região no centro da galáxia foi analisada por pesquisadores

A equipe de pesquisadores, liderada pela cientista espanhola Izaskun Jiménez-Serra, realizou uma análise detalhada de uma nuvem cósmica localizada no centro da Via Láctea, a aproximadamente 27 mil anos-luz da Terra.

O estudo identificou a presença da eritrulose nessa região, marcando a primeira vez que um açúcar desse tipo foi encontrado no espaço interestelar.

A observação foi possível graças a técnicas avançadas de análise da composição química das nuvens de gás e poeira espalhadas pela galáxia.

Molécula pode ajudar a entender origem da vida

A eritrulose é um açúcar composto por quatro átomos de carbono e faz parte de um grupo de moléculas associadas a processos biológicos essenciais.

A descoberta reforça uma hipótese estudada pela ciência: a possibilidade de que moléculas importantes para o surgimento da vida tenham se formado no espaço e chegado à Terra há bilhões de anos por meio de corpos celestes, como cometas e asteroides.

Segundo os pesquisadores, o meio interestelar funciona como uma verdadeira “fábrica química”, capaz de produzir diferentes moléculas. Atualmente, mais de 340 compostos já foram identificados nessas regiões do universo.

Descoberta surpreendeu cientistas

Um dos desafios para encontrar açúcares no espaço era justamente a fragilidade dessas moléculas e a dificuldade de obter dados laboratoriais em fase gasosa.

A identificação da eritrulose chamou ainda mais atenção porque a substância foi encontrada em quantidade significativa, contrariando um padrão observado no universo, onde moléculas maiores costumam aparecer em menores concentrações.

Os cientistas acreditam que a molécula possa ter se formado a partir de processos químicos envolvendo partículas de poeira interestelar.

Registro de astrônomo brasileiro ganha novo significado

Para Jefferson Mazzoni, que já tinha o hábito de observar e fotografar o centro da Via Láctea, a descoberta trouxe uma nova dimensão ao seu trabalho como astrônomo amador.

O registro feito no interior paulista mostra como a curiosidade científica e a tecnologia disponível para observadores independentes podem se conectar com grandes descobertas da astronomia moderna.

A fotografia de Jefferson se tornou uma forma de aproximar o público de um dos maiores mistérios da ciência: entender como os elementos fundamentais para a vida podem ter surgido e viajado pelo universo antes de chegarem ao nosso planeta.