Após oito anos sem apresentar um álbum de estúdio com repertório totalmente inédito, o cantor, compositor e saxofonista Maurício Pereira está de volta com “O dia da girafa”, trabalho que chegou às plataformas digitais na última quarta-feira (29). O disco reforça a marca de um dos artistas mais criativos e independentes da música brasileira, conhecido por seguir um caminho autoral distante das tendências comerciais.

Integrante da histórica dupla Os Mulheres Negras, ao lado de André Abujamra, Maurício construiu uma trajetória marcada pela experimentação musical e pela poesia. Logo na abertura do novo álbum, na canção “Uma vida standard”, composta em parceria com Edson Natale, o artista se apresenta com um verso que resume sua visão de mundo: “Sou o porta-estandarte do homem comum”.

Apesar da simplicidade sugerida na letra, o novo trabalho mostra justamente o contrário: um compositor que transforma o cotidiano em arte, explorando sentimentos, memórias e paisagens interiores com delicadeza e originalidade.

Um álbum nascido da introspecção

Produzido pelo baterista Biel Basile, “O dia da girafa” reúne composições criadas durante o período de isolamento provocado pela pandemia de Covid-19. Segundo o material de divulgação do álbum, as letras surgiram de um intenso processo criativo, voltado menos para retratar a cidade de São Paulo e mais para traduzir emoções, reflexões e experiências pessoais vividas naquele período.

Entre os destaques do repertório está “As nuvens, nuvens, nuvens”, única faixa assinada exclusivamente por Maurício Pereira. A música chama atenção pela atmosfera delicada, melodia suave e letra repleta de imagens poéticas, características marcantes da obra do compositor.

Parcerias que enriquecem o projeto

O álbum reúne importantes nomes da música brasileira. Entre os parceiros estão Edson Natale, Romulo Fróes, Lu Horta, Tonho Penhasco e o próprio produtor Biel Basile.

A obra também ganha um forte tom familiar. Tim Bernardes, filho de Maurício e um dos principais nomes da nova geração da música brasileira, assina com o pai a canção “Eu trago o coração vazando”, que apresenta influências do universo indie.

Chico Bernardes, outro filho do artista, participa como coprodutor do disco e divide a composição de músicas como “A professora de melancolia” e “Um facho de luz de cobre”, duas faixas apontadas entre os momentos mais sensíveis do álbum.

Entre São Paulo e a imaginação

Embora mantenha referências à capital paulista, tema recorrente na carreira de Maurício Pereira, o novo trabalho amplia seus horizontes criativos. O álbum passeia por diferentes cenários e emoções, chegando até a orla carioca na festiva “O Leme é um lugar genial”, gravada com A Espetacular Charanga do França.

A diversidade de estilos, a riqueza das letras e a liberdade artística reafirmam Maurício Pereira como um dos compositores mais singulares da música brasileira contemporânea.

Música sem concessões

Mais do que um novo lançamento, “O dia da girafa” representa a continuidade de uma trajetória construída com autenticidade. Em tempos de produções voltadas para algoritmos e consumo rápido, Maurício Pereira aposta na poesia, na criatividade e na liberdade artística, entregando um disco que convida o ouvinte à contemplação e à reflexão.

Com esse trabalho, o músico reafirma seu lugar como uma das vozes mais originais da cena brasileira, mostrando que ainda há espaço para a música feita com personalidade, sensibilidade e profundidade.