Estudo revela que o uso de tablets, celulares e outros dispositivos eletrônicos se tornou parte da rotina de muitas famílias. Em alguns momentos, a tela aparece como ferramenta de entretenimento; em outros, pode funcionar como uma espécie de “pausa” para os pais conseguirem preparar uma refeição, organizar a casa ou simplesmente respirar depois de um dia cansativo.

Uma nova pesquisa, porém, sugere que a decisão de entregar uma tela à criança pode estar relacionada não apenas ao comportamento dos filhos, mas também ao nível de estresse enfrentado pelos próprios pais.

O estudo analisou a relação entre o estresse parental e as estratégias utilizadas pelos responsáveis para administrar o uso de dispositivos eletrônicos por crianças. Os resultados indicam que adultos submetidos a determinados tipos de estresse podem ter maior probabilidade de flexibilizar limites ou recorrer às telas para lidar com situações difíceis do cotidiano.

A descoberta ajuda a ampliar uma discussão que, durante muito tempo, ficou concentrada quase exclusivamente no comportamento das crianças. Afinal, administrar o tempo de tela não é uma tarefa simples para os responsáveis, principalmente quando a família está cansada e precisa lidar simultaneamente com trabalho, tarefas domésticas, compromissos e conflitos entre os filhos.

Quando a tela vira uma solução para um momento difícil

Imagine o fim de um dia de trabalho. São 18h, o jantar ainda precisa ser preparado, a cozinha está desorganizada e as crianças começam a discutir.

O cansaço acumulado se mistura à pressão das tarefas que ainda precisam ser concluídas. Nesse cenário, entregar um tablet para cada criança pode parecer a maneira mais rápida de recuperar alguns minutos de silêncio.

A decisão não necessariamente acontece porque os pais desconhecem as recomendações sobre o uso de telas. Muitas vezes, ela surge porque naquele momento o adulto está tentando administrar uma situação que considera difícil.

É justamente essa diferença que chamou a atenção dos pesquisadores.

O estudo analisou como diferentes formas de estresse parental estão relacionadas às escolhas dos responsáveis quando o assunto é o uso de celulares, tablets e outros dispositivos.

Os resultados sugerem que não existe apenas uma explicação para o uso de telas pelas crianças. O contexto emocional e as dificuldades enfrentadas pelos adultos também podem exercer influência.

Estresse parental faz parte da rotina

Criar uma criança envolve uma série de responsabilidades que vão muito além de acompanhar tarefas escolares ou organizar horários.

Pais e responsáveis precisam lidar diariamente com situações como acordar as crianças, preparar refeições, levá-las à escola, administrar conflitos, acompanhar atividades, trabalhar e cuidar da própria vida pessoal.

Essas demandas podem gerar o chamado estresse parental, conceito utilizado por pesquisadores para descrever a tensão associada às responsabilidades e desafios da criação dos filhos.

Em 2024, o cirurgião-geral dos Estados Unidos classificou o estresse parental como uma questão de saúde pública. A avaliação chamou atenção para a necessidade de compreender melhor as dificuldades enfrentadas pelas famílias e desenvolver formas de apoiá-las.

Dentro desse cenário, o uso de tecnologia aparece como mais um desafio.

Uma pesquisa nacional realizada em 2020 mostrou que quase 70% dos pais entrevistados consideravam administrar o uso de tecnologia e das redes sociais pelos filhos uma das principais fontes de estresse relacionadas à criação das crianças.

Ou seja, a mesma ferramenta utilizada para entreter ou facilitar a rotina pode se transformar em motivo de conflito dentro de casa.

Crianças estão cada vez mais conectadas

As telas estão presentes desde muito cedo na vida de muitas crianças.

Nos Estados Unidos, praticamente todas as crianças têm algum contato diário com dispositivos eletrônicos. Segundo os dados apresentados na pesquisa, 42% das crianças entre 2 e 4 anos possuem o próprio tablet.

O cenário ajuda a explicar por que os responsáveis precisam tomar decisões constantemente sobre o uso desses aparelhos.

A American Academy of Pediatrics possui recomendações específicas para diferentes faixas etárias. Para crianças pequenas, a entidade orienta que o uso seja limitado e acompanhado pelos responsáveis.

Entre 18 meses e 2 anos, a recomendação é evitar que a criança utilize mídias sozinha. Para crianças de 2 a 5 anos, a orientação é limitar o uso a menos de uma hora por dia.

Na prática, muitas famílias têm dificuldade para seguir essas recomendações de maneira rígida.

A rotina real costuma ser mais complexa do que uma regra escrita. Existem dias tranquilos e outros em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo.

O que a pesquisa analisou

A pesquisa realizada em 2025 ouviu, por meio de uma plataforma on-line nacional, 822 pais de crianças entre 4 e 8 anos.

Os participantes responderam perguntas sobre diferentes aspectos da vida familiar, incluindo o nível de estresse parental, o comportamento dos filhos e as estratégias utilizadas para administrar o uso de telas.

Os pesquisadores analisaram três formas distintas de estresse.

A primeira estava relacionada a dificuldades e experiências pessoais vividas pelos próprios pais. A segunda envolvia o relacionamento entre pais e filhos. A terceira estava associada ao comportamento ou temperamento da criança, especialmente quando considerado difícil de administrar.

A análise permitiu observar que diferentes tipos de estresse estavam relacionados a diferentes estratégias de uso de telas.

Pais estressados podem estabelecer menos limites

Um dos principais resultados foi observado entre os pais que apresentavam níveis elevados de estresse relacionado a dificuldades e experiências pessoais.

Esses responsáveis tendiam a estabelecer menos limites para o uso de telas pelos filhos, independentemente do comportamento apresentado pelas crianças.

Isso significa que, em determinadas situações, a flexibilização das regras pode estar mais relacionada ao estado emocional do adulto do que à maneira como a criança está agindo.

É uma constatação importante porque ajuda a afastar uma visão simplista de que o excesso de telas seria apenas consequência de crianças “difíceis” ou de pais que não estabelecem regras.

A realidade pode ser muito mais complexa.

Um adulto sobrecarregado pode ter menos energia para negociar, insistir em limites ou enfrentar uma discussão quando a criança pede mais alguns minutos de tablet.

Comportamento difícil também influencia

Os pesquisadores encontraram ainda outra relação.

Pais que sentiam mais estresse provocado pelo temperamento ou pelo comportamento desafiador dos filhos apresentavam maior probabilidade de utilizar uma tela para controlar ou evitar determinadas situações.

Nesse caso, o dispositivo eletrônico pode funcionar como uma ferramenta de gerenciamento imediato.

A criança está irritada, chorando ou brigando e o tablet consegue interromper rapidamente aquela situação.

No curto prazo, a estratégia pode trazer alívio para todos. O problema é que, quando a tela se transforma constantemente na principal ferramenta utilizada para controlar comportamentos difíceis, a família pode acabar criando um ciclo difícil de interromper.

Por isso, compreender o que está por trás da decisão dos pais pode ser tão importante quanto discutir simplesmente quantas horas uma criança passa diante de uma tela.

Não é apenas culpa do comportamento da criança

Um dos aspectos mais relevantes da pesquisa é que os resultados permaneceram mesmo depois que os pesquisadores consideraram o comportamento real das crianças.

Isso indica que a relação entre estresse parental e uso de telas não pode ser explicada apenas pelo comportamento infantil.

Em outras palavras, duas crianças podem apresentar comportamentos semelhantes, mas os pais podem reagir de maneira diferente dependendo de como estão emocionalmente naquele momento.

Um responsável descansado pode conseguir manter uma regra estabelecida. Outro, depois de um dia particularmente difícil, pode decidir flexibilizá-la.

Isso não significa que os pais estejam fazendo algo errado. Pelo contrário: compreender essa dinâmica pode ajudar a construir estratégias mais realistas para as famílias.

Como diminuir conflitos com as telas

Uma das possibilidades apontadas pelos pesquisadores é estabelecer previamente um plano familiar para o uso de mídias.

Em vez de decidir as regras no meio de uma discussão, os responsáveis podem conversar com os filhos em um momento tranquilo e estabelecer horários, locais e situações em que as telas serão utilizadas.

A família pode, por exemplo, definir períodos sem dispositivos durante as refeições ou antes de dormir.

Também pode estabelecer quais aplicativos, jogos e programas são permitidos e quais não são adequados para cada faixa etária.

Sempre que possível, incluir as crianças na construção dessas regras pode ajudar a tornar os limites mais compreensíveis e previsíveis.

O objetivo não precisa ser eliminar completamente as telas da rotina, mas encontrar uma maneira equilibrada de utilizá-las.

Cuidar dos pais também faz parte da solução

A pesquisa traz uma mensagem que muitas vezes fica esquecida nas discussões sobre tecnologia: o bem-estar dos pais também importa.

É difícil estabelecer limites consistentes quando o adulto está constantemente sobrecarregado.

Por isso, pensar em estratégias para reduzir o estresse familiar pode ser tão importante quanto controlar o tempo de tela.

Ter uma rotina mais organizada, antecipar horários de maior dificuldade e dividir responsabilidades entre os adultos da casa são algumas formas de diminuir a pressão cotidiana.

Quando possível, reservar momentos de descanso também pode ajudar.

A ideia não é buscar uma família perfeita, sem conflitos ou sem uso de tecnologia. Famílias reais enfrentam dias difíceis, crianças fazem birra e adultos ficam cansados.

Uma nova maneira de olhar para o problema

A principal contribuição da pesquisa é mostrar que o debate sobre telas precisa considerar todos os envolvidos.

Crianças não utilizam dispositivos eletrônicos isoladamente. As decisões sobre quando, onde e por quanto tempo elas podem acessar esses aparelhos são tomadas dentro de um contexto familiar.

E esse contexto é influenciado pelo trabalho, pelo cansaço, pelas responsabilidades, pelo comportamento das crianças e pelo estado emocional dos pais.

Por isso, aquela cena comum no fim do dia — jantar atrasado, crianças discutindo e um adulto exausto oferecendo um tablet para recuperar alguns minutos de tranquilidade — não deve ser analisada apenas como uma questão de disciplina.

Ela também pode ser um retrato do quanto a rotina familiar está exigindo dos responsáveis.

Estabelecer limites para as telas continua sendo importante, mas cuidar de quem estabelece esses limites também é.

Ao reconhecer que o estresse parental influencia decisões relacionadas à tecnologia, a pesquisa ajuda a construir uma conversa mais humana sobre o assunto.

No fim, o desafio não é simplesmente retirar o tablet das mãos das crianças. É criar condições para que pais e filhos consigam construir uma rotina equilibrada, na qual a tecnologia tenha seu espaço, mas não seja a única saída quando a vida dentro de casa fica difícil.