Um simples teste de fezes realizado em casa pode fazer uma diferença significativa na prevenção e no diagnóstico precoce do câncer colorretal. Um estudo de longo prazo conduzido por pesquisadores do Instituto Karolinska e da Universidade de Umeå, na Suécia, aponta que pessoas que participam efetivamente de programas de rastreamento podem apresentar até 43% menos risco de morrer pela doença.
Publicado na quinta-feira (20) na revista científica JAMA Network Open, o levantamento acompanhou mais de 376 mil pessoas durante um período de até 14 anos. Os resultados reforçam uma mensagem importante para a saúde pública: quanto maior a participação da população nos programas de rastreamento, maiores podem ser as chances de identificar alterações no intestino antes que elas evoluam para quadros mais graves.
O exame utilizado na Suécia é feito de maneira simples e sem necessidade de deslocamento inicial até um hospital ou clínica. O participante recebe um kit em casa, coleta uma pequena amostra das fezes e envia o material para análise laboratorial.
A avaliação procura identificar pequenas quantidades de sangue que não podem ser percebidas visualmente. Quando o resultado apresenta alteração, o paciente é encaminhado para uma investigação complementar, geralmente com colonoscopia.
Um exame simples que pode ajudar a salvar vidas
A lógica por trás do rastreamento é relativamente simples: descobrir o câncer ou alterações que podem levar ao desenvolvimento da doença antes que apareçam sintomas.
O câncer colorretal pode se desenvolver silenciosamente durante um período considerável. Em muitos casos, quando sinais como sangue nas fezes, alterações persistentes no funcionamento do intestino, perda de peso inexplicada ou dores abdominais aparecem, a doença já pode estar em uma fase mais avançada.
O teste de sangue oculto nas fezes procura justamente um dos sinais que podem acompanhar lesões no intestino.
Isso não significa, entretanto, que um resultado positivo seja sinônimo de câncer. Sangramentos podem ter outras causas. Por esse motivo, a alteração geralmente leva à realização de exames complementares, como a colonoscopia, que permite ao médico observar diretamente o interior do intestino e, quando necessário, retirar pólipos ou coletar material para biópsia.
A estratégia adotada na Suécia é voltada para pessoas de 60 a 74 anos, que são convidadas a realizar o teste a cada dois anos.
Participar faz diferença
Um dos aspectos mais importantes do estudo foi justamente a comparação entre receber o convite para participar do programa e efetivamente realizar o exame.
Os pesquisadores analisaram pessoas convidadas para o rastreamento entre 2008 e 2012 e compararam os resultados com os de indivíduos que não participaram naquele período.
Depois de ajustes estatísticos, os cientistas identificaram que apenas receber o convite para o rastreamento estava associado a uma redução de 26% no risco de morte por câncer colorretal.
Entre aqueles que efetivamente realizaram o teste, porém, a redução estimada chegou a 43%.
A diferença chama atenção para um problema comum em programas de prevenção: disponibilizar o exame não é suficiente. É necessário que as pessoas se sintam seguras, compreendam a importância da avaliação e efetivamente participem.
Segundo os pesquisadores, aproximadamente um terço das pessoas convidadas não chega a enviar a amostra para análise, apesar de o procedimento ser gratuito e poder ser realizado em casa.
A importância de descobrir cedo
O câncer colorretal está entre os tipos de câncer mais frequentes no mundo. Ao mesmo tempo, é uma doença que apresenta possibilidades importantes de prevenção e tratamento quando identificada precocemente.
Uma das vantagens do rastreamento é que ele não procura apenas tumores já desenvolvidos. Dependendo do método utilizado, também pode ajudar a identificar alterações que, se não forem tratadas, poderiam evoluir para câncer.
É nesse ponto que a prevenção ganha uma dimensão ainda maior.
Para muitas pessoas, a ideia de realizar um exame relacionado às fezes pode causar desconforto ou constrangimento. No entanto, especialistas defendem que o caráter simples e pouco invasivo do teste pode justamente facilitar a adesão da população aos programas de rastreamento.
A coleta é feita pelo próprio participante, em casa, seguindo as orientações fornecidas pelo programa de saúde.
Depois, a amostra é encaminhada ao laboratório para análise.
O que acontece quando o resultado dá positivo?
Um resultado positivo não deve ser interpretado automaticamente como diagnóstico de câncer.
A presença de sangue oculto pode estar relacionada a diferentes condições. Por isso, o próximo passo é investigar a origem do sangramento.
A colonoscopia costuma ser o principal exame complementar. O procedimento permite que o médico examine o revestimento do intestino e procure pólipos, inflamações, lesões ou tumores.
Quando um pólipo é encontrado, ele pode, em determinadas situações, ser retirado durante o próprio procedimento. O material removido pode ser encaminhado para análise laboratorial.
Essa investigação é fundamental porque algumas lesões podem representar uma etapa anterior ao desenvolvimento de um câncer. Identificá-las e tratá-las pode reduzir riscos futuros.
Estudo acompanhou população por mais de uma década
Outro ponto que fortalece a pesquisa sueca é o tempo de acompanhamento.
Os participantes foram observados por até 14 anos, permitindo aos pesquisadores analisar não apenas os diagnósticos realizados logo após o rastreamento, mas também os efeitos sobre a mortalidade ao longo do tempo.
Durante o período analisado, foram registradas 1.668 mortes por câncer colorretal.
O tamanho da população estudada também oferece aos pesquisadores uma quantidade expressiva de dados para avaliar a relação entre a participação no rastreamento e os resultados observados.
Apesar disso, os autores fazem uma ressalva importante: os resultados dependem de modelos estatísticos utilizados para ajustar diferenças entre os grupos. Portanto, existe algum grau de incerteza nas estimativas.
Ou seja, o número de 43% deve ser compreendido como uma associação observada no estudo, e não como uma garantia individual de que uma pessoa que faça o exame terá exatamente essa redução de risco.
Rastreamento não substitui avaliação médica
Outro cuidado importante é não esperar o período do rastreamento caso apareçam sintomas.
Pessoas que apresentam sangue visível nas fezes, mudanças persistentes no hábito intestinal, dor abdominal recorrente, anemia sem causa conhecida, perda de peso inexplicada ou outros sinais preocupantes devem procurar avaliação médica.
O rastreamento é destinado principalmente a pessoas sem sintomas dentro das faixas etárias e critérios definidos por cada sistema de saúde.
Também é importante lembrar que os protocolos variam de acordo com o país, a idade, o histórico familiar e os fatores individuais de risco.
Quem possui familiares próximos diagnosticados com câncer colorretal ou determinadas doenças intestinais pode precisar iniciar acompanhamento mais cedo ou realizar exames diferentes.
Uma mensagem que vai além do laboratório
O estudo sueco deixa uma lição que ultrapassa o resultado de um exame específico: a prevenção só funciona plenamente quando as pessoas conseguem participar dela.
Um kit entregue em casa pode parecer uma medida pequena diante da dimensão de uma doença como o câncer. Mas, quando milhares de pessoas realizam o procedimento e aqueles que apresentam alterações são encaminhados para investigação, a estratégia pode ajudar a encontrar doenças em fases mais tratáveis.
Para o paciente, muitas vezes, o gesto começa com algo simples: reservar alguns minutos, seguir as instruções e enviar a amostra.
Para os sistemas de saúde, significa investir em uma ferramenta capaz de ampliar o diagnóstico precoce e reduzir mortes evitáveis.
E, para famílias que já enfrentaram o impacto de um diagnóstico tardio, a prevenção pode representar algo ainda maior: mais tempo, mais possibilidades de tratamento e, em muitos casos, a chance de preservar vidas.














