O primeiro debate entre candidatos à Presidência da República em 2026 foi marcado neste domingo (23) pela ausência de três nomes de destaque na corrida eleitoral: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, o senador Flávio Bolsonaro (PL), principal nome da oposição nas pesquisas, e o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo).
Realizado pela Band, o encontro reuniu candidatos que disputam espaço em uma eleição marcada, até o momento, por forte concentração das intenções de voto nos principais nomes e por um eleitorado que demonstra elevado grau de definição sobre sua escolha.
A ausência dos candidatos mais bem posicionados nos levantamentos abriu espaço para que outros concorrentes tentassem se apresentar como alternativas ao eleitor e buscassem romper a polarização que, desde 2022, domina a disputa presidencial.
Eleitorado demonstra pouca disposição para mudar de voto
Pesquisas realizadas durante o mês de agosto indicam que uma parcela significativa do eleitorado já possui uma escolha definida para outubro. Dependendo do instituto e do período de coleta, entre aproximadamente um quinto e um terço dos entrevistados afirma que ainda pode mudar de candidato.
Nos levantamentos Meio/Ideia, Genial/Quaest e BTG/Nexus, realizados entre o fim de julho e a primeira metade de agosto, os percentuais de eleitores que declararam estar decididos chegaram a 66%, 69% e 78%, respectivamente.
Na outra ponta, entre 20% e 34% dos entrevistados admitiram a possibilidade de alterar a escolha até a eleição.
Esse cenário ajuda a explicar a estratégia adotada por candidatos que aparecem com maior força nas pesquisas. Para Lula e Flávio Bolsonaro, a ausência em um debate pode representar um risco menor diante da existência de bases eleitorais mais consolidadas.
Segundo o levantamento BTG/Nexus citado na análise, 86% dos eleitores de Lula e 82% dos eleitores de Flávio Bolsonaro demonstram estar convictos da escolha.
Debate como estratégia eleitoral
Embora os debates sejam considerados momentos importantes da campanha, a participação não é necessariamente vista pelos candidatos como obrigatória em todos os encontros.
Os concorrentes precisam avaliar os possíveis ganhos e riscos de cada aparição pública. Um debate pode oferecer a oportunidade de apresentar propostas, confrontar adversários e conquistar eleitores indecisos. Por outro lado, também pode expor o candidato a ataques, perguntas difíceis e situações capazes de gerar repercussão negativa.
Uma pesquisa Meio/Ideia realizada em agosto mostrou que 63% dos entrevistados consideram que todos os candidatos convidados deveriam comparecer aos debates.
O resultado demonstra que existe uma expectativa relevante do público pela participação dos concorrentes, mesmo entre eleitores que já possuem uma preferência definida.
Ainda assim, historicamente, candidatos favoritos em determinadas eleições já adotaram estratégias de ausência em debates considerados menos importantes para suas campanhas.
Ausências fazem parte da história eleitoral brasileira
A estratégia de faltar a debates não é novidade na política brasileira.
Na primeira eleição presidencial direta após o período da ditadura militar, em 1989, Fernando Collor de Mello, que terminou eleito, participou dos debates do segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva, depois de não comparecer a confrontos do primeiro turno.
Em 1998, o favoritismo de Fernando Henrique Cardoso foi tão grande que a ausência anunciada pelo então presidente acabou contribuindo para que emissoras desistissem de realizar determinados debates.
Anos depois, em 2006, Lula também optou por não participar de alguns debates do primeiro turno. Naquele período, o governo enfrentava o desgaste provocado pelo escândalo conhecido como “dossiê dos aloprados”.
Apesar da liderança nas pesquisas, Lula terminou o primeiro turno com 48,61% dos votos válidos e precisou disputar o segundo turno contra Geraldo Alckmin, que posteriormente se tornaria seu vice-presidente.
Outro exemplo ocorreu em 2018, quando Jair Bolsonaro deixou de participar dos debates após ser vítima de um atentado durante a campanha eleitoral em Juiz de Fora, Minas Gerais.
Naquele momento, a ausência esteve diretamente relacionada ao processo de recuperação do candidato após a facada. O episódio também provocou uma onda de solidariedade entre adversários e contribuiu para aumentar a exposição de Bolsonaro durante a campanha.
Espaço para os candidatos que compareceram
Com Lula e Flávio Bolsonaro fora do debate da Band, os candidatos que participaram encontraram uma oportunidade para ampliar sua presença no cenário eleitoral.
Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) puderam ocupar um espaço que normalmente seria dividido com os dois principais nomes da disputa.
Para candidatos que ainda buscam ampliar seus percentuais nas pesquisas, participar de um debate pode ser uma das poucas oportunidades de alcançar simultaneamente milhões de eleitores.
O desafio, entretanto, é transformar exposição em crescimento eleitoral.
Em uma disputa na qual grande parte do eleitorado já demonstra estar decidido, conquistar novos votos exige não apenas visibilidade, mas também capacidade de convencer pessoas que eventualmente estejam dispostas a reconsiderar sua escolha.
Zema adota estratégia de maior risco
A ausência de Romeu Zema também chama atenção por um motivo diferente.
Ao contrário de Lula e Flávio Bolsonaro, o candidato do Novo apresenta, segundo os dados citados na análise, maior volatilidade entre seus potenciais eleitores.
Isso significa que sua base teria maior possibilidade de migração para outros candidatos.
Nesse cenário, um debate poderia representar uma oportunidade importante para Zema apresentar sua imagem nacionalmente e tentar consolidar uma candidatura que ainda busca espaço entre os principais nomes da oposição.
Por outro lado, a ausência pode ser interpretada como uma estratégia para evitar riscos em um ambiente no qual ataques e confrontos podem produzir resultados imprevisíveis.
Polarização continua presente
A composição do debate também evidenciou a força da polarização entre PT e PL.
Mesmo com a presença de outros nomes interessados em romper a disputa tradicional entre lulistas e bolsonaristas, Lula e Flávio Bolsonaro continuam ocupando posições de destaque nos levantamentos apresentados.
A ausência dos dois no debate acabou deixando ainda mais evidente a distância entre os grupos políticos que dominam a disputa.
Para os demais candidatos, o cenário representa simultaneamente um problema e uma oportunidade.
A dificuldade está em enfrentar um eleitorado altamente fidelizado. A oportunidade surge justamente da possibilidade de apresentar novas propostas para quem deseja uma alternativa aos dois principais polos.
Efeitos podem aparecer nos próximos meses
Ainda é cedo para determinar se as ausências provocarão algum impacto eleitoral significativo.
Debates podem gerar momentos de grande repercussão, mas seus efeitos sobre a intenção de voto variam de acordo com o contexto da eleição, o desempenho de cada candidato e a capacidade de transformar a exposição em mobilização.
No caso de Lula e Flávio Bolsonaro, a estratégia parece estar baseada na preservação de posições já conquistadas e na redução da exposição a riscos desnecessários.
Para os candidatos que participaram, o objetivo é exatamente o contrário: aproveitar cada oportunidade para ganhar visibilidade e ampliar sua presença na disputa.
O cenário também pode produzir efeitos indiretos nos estados. Em eleições estaduais, aliados de candidatos que faltam aos debates podem enfrentar dificuldades para cobrar adversários que adotem a mesma estratégia.
Uma eleição ainda em construção
O primeiro debate presidencial de 2026 deixa uma mensagem importante: apesar de a campanha ainda estar em desenvolvimento, boa parte do eleitorado já demonstra preferência definida.
Ao mesmo tempo, existe uma parcela significativa de brasileiros que permanece aberta à mudança, o que mantém a disputa em movimento.
Para Lula e Flávio Bolsonaro, faltar ao primeiro debate pode ser uma escolha calculada para proteger posições consolidadas. Para Caiado, Renan Santos e Augusto Cury, a presença representou uma oportunidade de ocupar um espaço que normalmente seria dominado pelos favoritos.
Já Romeu Zema fica no meio desse cenário: sua ausência pode ter evitado riscos, mas também pode ter custado uma oportunidade de falar diretamente com eleitores que ainda procuram uma alternativa.
Com a campanha apenas começando a ganhar intensidade, os próximos debates deverão mostrar se a estratégia de ausência será mantida pelos principais candidatos ou se a pressão do eleitorado fará com que eles retornem aos púlpitos.
Em uma eleição marcada pela polarização e por um eleitorado cada vez mais atento aos movimentos dos candidatos, cada ausência também se transforma em uma escolha política — e, inevitavelmente, em um argumento para os adversários.












