O mercado de suplementos alimentares vem passando por uma transformação significativa no Brasil, impulsionada principalmente pelo comportamento das gerações mais jovens. Um levantamento divulgado em agosto de 2026 aponta que Millennials e integrantes da Geração Z são responsáveis por mais de 65% das compras de suplementos no país.
Os dados mostram também que o mercado brasileiro de suplementação cresceu 26% desde o período da pandemia, ritmo que supera em quatro vezes o crescimento registrado pela indústria farmacêutica no mesmo intervalo.
O avanço revela uma mudança na maneira como parte da população se relaciona com saúde, alimentação, atividade física, estética e qualidade de vida. Produtos que durante muito tempo ficaram associados principalmente a atletas e praticantes de musculação passaram a fazer parte da rotina de pessoas que buscam mais energia, desempenho, bem-estar ou mudanças na composição corporal.
Apesar do crescimento, especialistas alertam que o aumento do consumo precisa ser acompanhado de informação e orientação adequada para evitar o uso indiscriminado.
Jovens impulsionam vendas no comércio eletrônico
Segundo dados da plataforma Impulso, da RD Saúde, 28% do público formado por Millennials e pela Geração Z consome com frequência produtos relacionados à beleza e ao emagrecimento no comércio eletrônico de farmácias.
O comportamento chama atenção porque as compras pela internet já superam, nesse segmento, as realizadas em lojas físicas.
A facilidade de pesquisar produtos, comparar preços e receber mercadorias em casa contribuiu para ampliar o acesso aos suplementos. Além disso, as empresas passaram a oferecer uma variedade cada vez maior de produtos, disponíveis em diferentes formatos e sabores.
Há suplementos em pó, cápsulas, bebidas, barras e até gomas, formatos que tornam o consumo mais prático e ajudam a aproximar esses produtos de diferentes públicos.
A mudança também acompanha uma transformação cultural. A suplementação deixou de ser vista exclusivamente como parte da rotina de atletas profissionais e passou a ocupar espaço entre pessoas que frequentam academias, praticam esportes ocasionalmente ou simplesmente buscam uma rotina considerada mais saudável.
Busca por saúde, estética e desempenho
A presidente do Conselho Federal de Nutrição (CFN), Manuela Dolinsky, avalia que o crescimento do mercado é resultado de uma combinação de fatores.
Entre eles estão a maior valorização da atividade física, a busca por desempenho esportivo, o desejo de ganhar massa muscular, as tentativas de modificar a composição corporal, a preocupação com a recuperação após os exercícios e a procura por mais energia no dia a dia.
Segundo ela, a expansão do comércio eletrônico e a variedade de produtos disponíveis também contribuíram para esse cenário.
A comunicação utilizada pelas empresas igualmente tem papel importante, especialmente quando relaciona os suplementos a conceitos como praticidade, saúde, beleza e estilo de vida.
Esse conjunto de fatores fez com que a suplementação se aproximasse de consumidores que anteriormente não tinham contato frequente com esse tipo de produto.
Redes sociais influenciam comportamento
Outro elemento apontado pelos especialistas é a influência das redes sociais.
Os jovens são expostos diariamente a conteúdos que apresentam rotinas de exercícios, alimentação, cuidados com o corpo e hábitos considerados saudáveis. Nesse ambiente, suplementos aparecem frequentemente associados a determinados estilos de vida.
A velocidade com que informações circulam nas plataformas digitais também contribui para a popularização desses produtos.
Para Manuela Dolinsky, entretanto, é preciso ter cautela antes de interpretar os números como uma prova definitiva de que o consumo aumentou entre os jovens em determinada proporção.
Ela destaca que ainda faltam levantamentos epidemiológicos nacionais, realizados periodicamente e divididos por faixas etárias, que permitam medir com precisão esse comportamento.
Ou seja, embora os dados de mercado indiquem forte participação das gerações mais novas nas compras, ainda é necessário ampliar as pesquisas para compreender os hábitos de consumo e suas consequências para a saúde da população.
Mercado de bem-estar também cresce
A expansão do mercado brasileiro acompanha uma tendência internacional de maior investimento em saúde e bem-estar.
O relatório Global State of Health & Wellness 2025, publicado pela NielsenIQ, aponta que 55% dos consumidores estão dispostos a gastar mais de US$ 100, aproximadamente R$ 514, em produtos relacionados ao bem-estar.
A disposição para investir nesse segmento mostra que saúde e qualidade de vida passaram a ocupar um espaço cada vez maior no orçamento de parte dos consumidores.
Nesse contexto, suplementos, alimentos funcionais, produtos de beleza e outros itens voltados ao bem-estar passaram a formar um mercado amplo e diversificado.
A tendência também acompanha mudanças nos hábitos de consumo, com mais pessoas buscando informações sobre alimentação, exercícios e prevenção de doenças.
Uma população mais preocupada com a própria saúde
O endocrinologista Vinicius Ribeiro, do Hospital Pró-Cardíaco, da Rede Américas, considera que o crescimento da suplementação está relacionado à preocupação cada vez maior de jovens e adultos com o próprio corpo.
Segundo ele, tanto questões relacionadas à saúde quanto à estética estão motivando as pessoas a procurar estilos de vida considerados mais saudáveis.
Mudanças na alimentação e na prática de atividade física, associadas à suplementação e, quando necessária, a tratamentos médicos, fazem parte dessa nova relação da população com a saúde.
O especialista destaca ainda uma preocupação crescente com a prevenção de doenças cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC), além da doença renal crônica.
Essa mudança pode ser vista como um sinal positivo quando representa maior participação das pessoas nos cuidados preventivos e na construção de hábitos mais saudáveis.
Mas os especialistas ressaltam que a busca por saúde não deve ser reduzida ao consumo de determinados produtos.
Suplemento não substitui alimentação
Para Manuela Dolinsky, o crescimento da suplementação precisa ser analisado com equilíbrio.
De um lado, existe uma maior valorização da alimentação saudável, da prática de exercícios, da prevenção e da qualidade de vida. De outro, existe o risco de transformar a saúde em um produto e estimular a busca por soluções rápidas para problemas que são mais complexos.
Quando realmente necessário, o suplemento pode fazer parte de uma estratégia de cuidado nutricional, desde que seja utilizado de forma adequada e integrado a uma alimentação equilibrada.
No entanto, cápsulas, pós, bebidas e outros produtos não substituem uma refeição adequada.
Também não substituem sono de qualidade, recuperação física, atividade física regular, cuidados com a saúde mental e condições sociais que influenciam diretamente a qualidade de vida.
Essa avaliação é especialmente importante entre os jovens, que podem estar mais expostos a conteúdos nas redes sociais que prometem resultados rápidos.
Creatina e whey estão entre os mais procurados
Entre os produtos mais procurados por pessoas que praticam atividades físicas estão a creatina, os suplementos proteicos, como o whey protein, a cafeína e fórmulas de pré-treino.
Esses produtos costumam ser associados principalmente a pessoas que buscam melhorar o desempenho durante exercícios ou aumentar a massa muscular.
No consumo mais amplo, também aparecem vitaminas, minerais, ácidos graxos, probióticos e outros produtos relacionados à saúde e ao bem-estar.
A escolha, entretanto, deve levar em consideração as necessidades individuais.
Nem todo consumidor precisa utilizar suplementos, e a indicação de determinado produto pode variar de acordo com alimentação, rotina de exercícios, idade, condições de saúde e objetivos.
Cuidado com promessas exageradas
Outro alerta importante envolve a publicidade de suplementos.
Como esses produtos ganharam enorme espaço nas redes sociais, consumidores podem encontrar anúncios e recomendações feitos por pessoas sem formação adequada para avaliar as necessidades nutricionais de cada indivíduo.
Os especialistas reforçam que suplementos alimentares não devem ser tratados como medicamentos.
Eles não devem ser utilizados com a finalidade de prevenir, tratar ou curar doenças.
Também é importante observar a procedência do produto, verificar se ele está regularizado e conferir atentamente as informações presentes no rótulo.
Comprar produtos de origem desconhecida ou utilizar doses diferentes das recomendadas pode aumentar os riscos e transformar uma busca por saúde em um problema.
Uma tendência que exige equilíbrio
O crescimento de 26% do mercado brasileiro de suplementos desde a pandemia e a participação de mais de 65% de Millennials e integrantes da Geração Z nas compras mostram que a suplementação deixou de ocupar um espaço restrito ao universo esportivo.
Hoje, ela está relacionada a uma transformação mais ampla na maneira como parte da população encara saúde, estética, desempenho e bem-estar.
O interesse maior por atividade física e prevenção pode ser positivo, principalmente quando acompanhado de informação confiável e mudanças sustentáveis de hábitos.
O desafio está em evitar que a busca por resultados rápidos transforme suplementos em substitutos de uma alimentação equilibrada ou de cuidados básicos de saúde.
Para os especialistas, o caminho mais seguro é entender que cada pessoa possui necessidades diferentes.
Antes de incluir qualquer suplemento na rotina, é importante buscar orientação de um profissional habilitado, avaliar a necessidade real do produto e escolher opções de procedência conhecida.
No fim, a tendência de crescimento da suplementação revela uma geração mais interessada em cuidar do corpo e da saúde, mas também reforça uma mensagem essencial: nenhuma cápsula, pó ou bebida substitui uma rotina equilibrada, acompanhamento adequado e cuidados contínuos com a saúde.














