As propostas de redação do Encceja 2026, aplicado neste domingo (23), provocaram surpresa e reações intensas entre candidatos que buscavam a certificação do ensino fundamental e do ensino médio. Nas redes sociais, participantes classificaram os temas como difíceis, inesperados e, em alguns casos, frustrantes. Comentários como “pesadelo”, “demoníaco” e “vontade de chorar” passaram a aparecer entre as manifestações de quem deixou a prova tentando avaliar o próprio desempenho.
O Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) é realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e representa uma oportunidade para jovens e adultos que não concluíram os estudos na idade considerada regular obterem a certificação.
Neste ano, os candidatos do ensino fundamental tiveram de desenvolver uma dissertação a partir do tema “Importância do endereço como direito dos cidadãos”. Para os participantes do ensino médio, a proposta foi “Caminhos para garantir os direitos do consumidor”.
A escolha dos assuntos chamou atenção principalmente porque ambos exigiam que os participantes identificassem questões relacionadas a direitos básicos e desenvolvessem uma argumentação sobre os desafios existentes e possíveis formas de enfrentamento.
Reação dos candidatos tomou conta das redes sociais
Logo após a aplicação da prova, as redes sociais foram tomadas por comentários de candidatos que demonstraram insatisfação ou surpresa com os temas.
“Toda vez que eu penso na redação do Encceja fico com vontade de chorar, meu Deus”, escreveu uma jovem em uma publicação.
Outros participantes também fizeram críticas à proposta. “Que tema porcaria foi esse?”, publicou um candidato. Houve ainda quem afirmasse não ter conseguido desenvolver o texto como gostaria.
“Não consegui escrever mais de 15 linhas”, relatou outro participante.
As manifestações mostram que, para parte dos candidatos, o principal problema não necessariamente foi a impossibilidade de compreender os assuntos, mas a dificuldade de encontrar rapidamente um caminho argumentativo diante de temas considerados pouco previsíveis.
Apesar da repercussão negativa entre alguns participantes, professores ouvidos na análise da prova avaliam que as propostas permanecem dentro das características previstas para o exame.
Temas seguem proposta do Encceja, segundo especialistas
De acordo com a Cartilha do Participante divulgada pelo Inep, as propostas de redação do Encceja devem abordar questões relevantes para a sociedade e estimular uma reflexão crítica sobre problemas que fazem parte da realidade brasileira.
A estrutura também costuma exigir que o participante não apenas apresente informações sobre determinado assunto, mas desenvolva uma argumentação e discuta caminhos possíveis para enfrentar o problema apresentado.
Nesse sentido, especialistas avaliam que os dois temas escolhidos em 2026 atendem aos critérios estabelecidos.
As propostas colocam em evidência problemas sociais relacionados ao acesso a direitos básicos, além de permitirem que os candidatos recorram a conhecimentos adquiridos ao longo da vida e dos estudos.
No caso do ensino médio, a discussão sobre os direitos do consumidor também permite abordar transformações recentes na sociedade, especialmente com o crescimento das compras pela internet.
Ensino médio trouxe discussão sobre direitos do consumidor
Para os candidatos do ensino médio, o tema foi “Caminhos para garantir os direitos do consumidor”.
A proposta exigia que o participante discutisse não apenas quais são os direitos assegurados aos consumidores, mas também quais medidas poderiam ser adotadas para garantir que esses direitos sejam respeitados.
A professora Marina Rocha, do Curso Skued e do Curso Raio-X, avaliou que a proposta mantém a estrutura tradicional do exame.
Segundo ela, o assunto está relacionado a um problema atual da sociedade, especialmente diante do crescimento do comércio eletrônico.
Atualmente, consumidores realizam compras diariamente pela internet e podem enfrentar situações como produtos diferentes daqueles anunciados, mercadorias danificadas, atrasos na entrega e até golpes.
Esse contexto tornou o tema ainda mais próximo da realidade de muitos brasileiros.
A discussão também permite abordar a responsabilidade das empresas, os mecanismos de proteção disponíveis aos consumidores e a importância da fiscalização.
Tema poderia ser relacionado ao cotidiano
Uma das características do assunto escolhido para o ensino médio é justamente a possibilidade de estabelecer relações com situações vivenciadas diariamente.
A expansão das plataformas digitais transformou a maneira como as pessoas compram produtos e contratam serviços.
Ao mesmo tempo em que a internet ampliou as opções para o consumidor, também criou novos desafios.
Fraudes, dificuldades para realizar cancelamentos, problemas com entregas e informações enganosas são exemplos de situações que podem ser utilizadas como repertório em uma discussão sobre o tema.
A proposta também permite que o candidato apresente soluções envolvendo empresas, órgãos públicos, consumidores e entidades responsáveis pela fiscalização.
Abordagem legislativa chamou atenção
Para Fernanda Becker, analista pedagógica da plataforma Redação Nota 1000, um dos elementos que pode ter causado estranhamento foi a abordagem mais próxima do campo legislativo.
Ainda assim, segundo a avaliação apresentada, o tema não fugiu das características esperadas para a prova.
O candidato poderia utilizar conhecimentos relacionados ao Código de Defesa do Consumidor, por exemplo, além de discutir a importância da educação para o consumo e da atuação dos órgãos de fiscalização.
A proposta, portanto, permitia diferentes caminhos argumentativos.
O desafio estava em organizar essas informações de maneira coerente e responder diretamente ao comando apresentado.
Ensino fundamental teve tema considerado ambíguo
Entre os candidatos do ensino fundamental, o tema foi “Importância do endereço como direito dos cidadãos”.
A proposta também gerou questionamentos entre especialistas.
Um dos pontos destacados foi a utilização da palavra “endereço”, que pode assumir diferentes interpretações dependendo do contexto.
O termo pode ser compreendido de maneira literal, relacionado a informações como nome da rua, número e CEP. Também pode ser interpretado como uma referência à moradia e ao direito de ter um local digno para viver.
Essa possível ambiguidade fez com que alguns professores considerassem necessária uma análise mais cuidadosa dos textos de apoio apresentados na prova.
Textos de apoio podem ser fundamentais
A avaliação definitiva dos temas, especialmente no caso do ensino fundamental, depende também da análise da coletânea disponibilizada aos candidatos.
Em provas de redação, os textos motivadores funcionam como uma espécie de orientação para o participante.
Eles ajudam a delimitar o sentido da proposta e mostram quais aspectos do assunto podem ser explorados.
Por isso, professores consultados ressaltam que não é possível avaliar completamente a dificuldade da redação apenas observando a frase temática.
O Inep tem prazo de até dez dias para divulgar os textos de apoio utilizados na prova.
A partir dessa publicação, será possível compreender melhor qual interpretação era esperada dos candidatos.
Direito à moradia pode aparecer na discussão
Caso o termo “endereço” tenha sido utilizado como referência à moradia, o candidato poderia desenvolver uma discussão relacionada ao direito de viver em condições adequadas.
A Constituição Federal estabelece direitos fundamentais relacionados à cidadania e à dignidade humana, o que permitiria a construção de um repertório sociocultural pertinente.
Problemas como falta de infraestrutura, ausência de saneamento básico, ocupações irregulares e dificuldade de acesso à habitação poderiam ser discutidos, desde que estivessem relacionados ao recorte apresentado pela proposta.
Mais uma vez, os textos de apoio serão importantes para determinar o direcionamento esperado.
Reações negativas não significam necessariamente tema inadequado
A repercussão nas redes sociais demonstra que muitos candidatos consideraram as propostas difíceis.
Entretanto, a dificuldade encontrada pelos participantes não significa necessariamente que os temas estejam fora dos padrões estabelecidos pelo Encceja.
É comum que provas de redação provoquem diferentes reações porque exigem que o candidato organize rapidamente ideias, conhecimentos e experiências em um texto estruturado.
Além disso, o participante precisa compreender exatamente o comando da proposta antes de começar a escrever.
No caso do Encceja, essa habilidade é ainda mais importante porque o público do exame possui trajetórias escolares e experiências de vida bastante diversas.
Redação continua sendo etapa decisiva
A redação ocupa papel importante no processo de avaliação do Encceja.
Mais do que demonstrar domínio da língua portuguesa, o participante precisa mostrar capacidade de compreender um problema, organizar argumentos e apresentar uma resposta coerente à proposta.
No ensino médio, a discussão de caminhos para garantir direitos também exige que o candidato seja capaz de formular soluções viáveis.
Por isso, especialistas recomendam que os participantes não se concentrem apenas em memorizar modelos de redação.
A capacidade de interpretar o tema e adaptar os conhecimentos ao assunto proposto pode fazer diferença no resultado.
Expectativa agora é pelo resultado
Depois da prova, muitos candidatos passam a revisar mentalmente aquilo que escreveram.
É nesse momento que surgem dúvidas sobre o desenvolvimento dos argumentos, a estrutura do texto e a adequação ao tema.
As reações registradas nas redes sociais refletem justamente essa ansiedade.
Para alguns participantes, a sensação foi de frustração. Para outros, apesar da surpresa inicial, os temas permitiram desenvolver uma argumentação consistente.
A avaliação definitiva, entretanto, dependerá da correção das redações e dos critérios utilizados pelo Inep.
Os temas do Encceja 2026 provocaram surpresa, mas a análise de professores indica que as propostas permanecem ligadas a questões sociais e cidadãs previstas na estrutura do exame. Enquanto os candidatos aguardam os resultados, a expectativa também se volta para a divulgação dos textos de apoio, que poderá esclarecer especialmente a abordagem esperada para a proposta do ensino fundamental.
Independentemente das críticas ou elogios, a prova deste ano colocou em discussão dois assuntos presentes no cotidiano: o acesso a direitos básicos e a proteção do consumidor. Para milhares de brasileiros que buscam uma nova oportunidade por meio da certificação, agora resta aguardar a correção e torcer para que o esforço realizado durante a prova resulte na tão esperada conclusão dos estudos.















