O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a aumentar a pressão sobre empresas estrangeiras para que transfiram parte de sua produção para o território americano. Nesta segunda-feira (7), o republicano ameaçou impedir a Bombardier, fabricante canadense de jatos executivos, de vender suas aeronaves no mercado dos Estados Unidos caso a companhia não passe a produzir aviões em solo americano.
A declaração foi publicada por Trump na rede social Truth Social e representa mais um capítulo da disputa comercial entre Washington e Ottawa. O episódio também reforça uma das principais estratégias adotadas pelo governo Trump: utilizar tarifas, restrições comerciais e ameaças de barreiras de mercado como instrumentos para estimular a produção industrial dentro dos Estados Unidos.
Em sua publicação, o presidente americano afirmou que não haveria mais vendas da Bombardier nos Estados Unidos e criticou a qualidade dos produtos da companhia. Trump também deixou claro que, em sua avaliação, a fabricante canadense só deveria continuar tendo acesso ao gigantesco mercado americano caso passe a fabricar seus aviões no país.
Até o momento, entretanto, a Casa Branca não apresentou detalhes sobre como a ameaça poderia ser colocada em prática. Também não foram divulgadas medidas concretas, prazos ou possíveis mecanismos regulatórios que poderiam impedir a comercialização dos aviões da empresa nos Estados Unidos.
A Bombardier, por sua vez, ainda não havia apresentado uma resposta pública à declaração de Trump.
Uma nova frente na guerra comercial
A ameaça ocorre em um momento de fortes tensões comerciais entre Estados Unidos e Canadá. Desde o início de seu novo governo, Trump tem defendido uma política econômica baseada na ampliação da produção doméstica e na utilização de tarifas para pressionar empresas estrangeiras a fabricar dentro do território americano.
A lógica defendida pelo presidente é relativamente direta: companhias que desejam vender produtos aos consumidores americanos devem, na visão de Trump, contribuir também para a geração de empregos e investimentos nos Estados Unidos.
No setor aeronáutico, porém, essa estratégia pode ser particularmente complexa. A fabricação de aviões envolve uma extensa cadeia internacional de fornecedores, componentes, engenharia, manutenção e certificações. Uma mudança significativa na localização da produção exige investimentos elevados e pode levar anos para ser implementada.
No caso da Bombardier, a pressão ganha importância devido ao tamanho do mercado americano para a companhia.
Cerca de metade dos aproximadamente 5.100 aviões da Bombardier em operação com clientes está nos Estados Unidos. Isso significa que qualquer restrição significativa ao acesso da empresa ao mercado americano poderia provocar consequências relevantes para seus negócios.
Bombardier já possui presença nos Estados Unidos
Embora seja uma empresa canadense, a Bombardier não está ausente do território americano.
A fabricante mantém operações nos Estados Unidos, incluindo uma unidade localizada no Kansas. A fábrica é utilizada principalmente para a preparação de aeronaves destinadas a missões especiais de defesa.
A estrutura americana, entretanto, não concentra a fabricação dos principais jatos executivos da companhia, justamente os modelos que colocam a Bombardier em concorrência direta com outras grandes fabricantes internacionais do segmento.
Por isso, a exigência de Trump representa uma pressão para que a empresa amplie sua presença industrial nos Estados Unidos, e não simplesmente para que mantenha as operações que já possui no país.
A discussão envolve, portanto, uma possível mudança na estratégia de produção da companhia, que atualmente mantém uma cadeia industrial integrada entre Canadá e Estados Unidos.
Trump já havia ameaçado a fabricante
A relação entre Donald Trump e a Bombardier já vinha sendo marcada por episódios de tensão.
Em janeiro, o presidente americano havia ameaçado impor uma tarifa de 50% sobre aeronaves produzidas no Canadá. Na mesma ocasião, também falou sobre a possibilidade de retirar a certificação de determinados jatos da linha Global Express da Bombardier.
As ameaças ocorreram em meio a uma disputa envolvendo a certificação de aeronaves fabricadas pela americana Gulfstream, concorrente direta da Bombardier.
Trump chegou a condicionar possíveis medidas contra a fabricante canadense à certificação, pelo Canadá, de aeronaves produzidas pela empresa americana.
Apesar das declarações, as medidas anunciadas naquele momento não chegaram a ser implementadas da forma inicialmente ameaçada. Posteriormente, o Canadá certificou alguns modelos da Gulfstream.
O episódio, porém, demonstrou que o setor aeronáutico poderia se transformar em mais uma frente da disputa comercial entre os dois países.
O peso do mercado americano
Para uma empresa especializada em jatos executivos, os Estados Unidos são um mercado estratégico.
O país concentra uma grande quantidade de empresas, empresários e clientes privados que utilizam aeronaves executivas. Além disso, existe uma ampla infraestrutura de aeroportos, centros de manutenção e serviços especializados voltada para esse tipo de aviação.
Por esse motivo, perder ou sofrer restrições de acesso ao mercado americano poderia representar um impacto significativo para a Bombardier.
A companhia não vende apenas aeronaves nos Estados Unidos. Ela também mantém uma estrutura de serviços e atendimento aos clientes no país, o que aumenta ainda mais a importância da região para suas operações.
Qualquer mudança provocada por barreiras comerciais poderia afetar não apenas a fabricante, mas também fornecedores, empresas de manutenção, operadores e outros setores ligados à cadeia aeronáutica.
Empresa mantém investimentos e expansão
Mesmo diante da pressão política e comercial, a Bombardier continua realizando movimentos para fortalecer sua estrutura industrial.
No dia 1º de setembro, a companhia anunciou a compra de uma fábrica no Canadá pertencente à Mitsubishi Heavy Industries. A unidade produz asas destinadas aos jatos Global 5500 e Global 6500.
A aquisição mostra que a empresa continua investindo em sua cadeia produtiva canadense, ao mesmo tempo em que enfrenta a pressão para ampliar a produção nos Estados Unidos.
Os resultados financeiros também indicam uma empresa em processo de expansão. Em julho, a Bombardier informou que sua receita trimestral havia alcançado US$ 2,15 bilhões, crescimento de 6% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Segundo a companhia, o desempenho foi impulsionado principalmente pela demanda por serviços de manutenção e pós-venda, segmento cada vez mais importante para fabricantes de aeronaves.
O que pode acontecer agora?
A declaração de Trump ainda não representa, por si só, uma proibição efetiva das vendas da Bombardier nos Estados Unidos.
Para que uma medida dessa dimensão seja colocada em prática, seria necessário definir quais instrumentos legais, regulatórios ou comerciais poderiam ser utilizados pelo governo americano.
Também será necessário observar a reação da Bombardier e do governo canadense.
Uma eventual restrição poderia provocar novas discussões dentro da relação comercial entre Estados Unidos e Canadá, dois países profundamente integrados economicamente.
Para a Bombardier, o desafio será equilibrar os investimentos realizados no Canadá com a necessidade de preservar seu acesso ao mercado americano. A companhia poderá ser pressionada a ampliar sua produção nos Estados Unidos, mas uma mudança desse tamanho envolve custos, planejamento industrial e decisões estratégicas de longo prazo.
Enquanto isso, a declaração de Trump reforça uma característica marcante de sua política econômica: a tentativa de transformar o enorme mercado consumidor americano em uma ferramenta de negociação.
Para empresas estrangeiras, a mensagem é clara. O acesso aos consumidores dos Estados Unidos pode vir acompanhado de uma nova exigência: produzir dentro do país.
No caso da Bombardier, ainda não está definido até onde essa pressão irá avançar. O que já está evidente é que o setor aeronáutico entrou novamente no radar da política comercial de Washington, e os próximos passos poderão ter consequências para uma das principais fabricantes de jatos executivos do mundo.














