A Apple foi processada nos Estados Unidos nesta quinta-feira (3) pela empresa química alemã BASF, em uma disputa que envolve uma das tecnologias mais conhecidas dos atuais iPhones e iPads: o sistema de reconhecimento facial. A ação foi apresentada pela trinamiX, subsidiária da BASF especializada em tecnologias de sensoriamento e identificação, que acusa a fabricante norte-americana de utilizar, sem autorização, recursos protegidos por sete patentes.

Segundo a denúncia apresentada à Justiça americana, a tecnologia desenvolvida pela trinamiX teria sido criada para aumentar a segurança dos sistemas de autenticação facial e evitar que mecanismos convencionais fossem enganados por fotografias, máscaras produzidas em impressoras 3D ou réplicas feitas de silicone.

A empresa afirma que passou aproximadamente uma década desenvolvendo soluções para superar essas limitações e que seus conhecimentos acabaram sendo incorporados a produtos da Apple. Entre os dispositivos citados no processo estão diferentes gerações do iPhone e o iPad Pro.

O caso agora será analisado pelo Tribunal Distrital dos Estados Unidos em Midland, no Texas. A trinamiX pede uma indenização por danos, embora não tenha especificado publicamente o valor, além de uma ordem judicial que impeça novas violações das patentes.

A Apple não havia respondido imediatamente aos pedidos de comentários sobre o processo.

Disputa envolve tecnologia de reconhecimento facial

O centro da disputa está relacionado ao funcionamento do Face ID, sistema de autenticação facial apresentado pela Apple em 2017 com o lançamento do iPhone X.

Na época, a empresa apresentou o recurso como uma evolução importante na segurança dos smartphones. Em vez de depender exclusivamente de uma fotografia do rosto, o sistema utiliza sensores e recursos tridimensionais para analisar características faciais e confirmar a identidade do usuário.

A trinamiX, porém, afirma que a Apple não utilizou sua tecnologia patenteada quando lançou o Face ID no primeiro iPhone X.

De acordo com a denúncia, a situação teria mudado posteriormente. A empresa alemã sustenta que versões atualizadas dos sistemas de autenticação facial passaram a incorporar tecnologia relacionada à chamada detecção de material e pele, área na qual a trinamiX possui patentes.

A acusação afirma que a Apple “sabia, ou deveria saber”, da possibilidade de que seus produtos atualizados infringissem as patentes registradas pela subsidiária da BASF.

A empresa alemã considera que a suposta utilização indevida provocou danos significativos e prejuízos que poderiam continuar caso a prática não seja interrompida.

O que a trinamiX desenvolveu

A história da trinamiX começou antes mesmo de a empresa existir formalmente.

Segundo informações apresentadas pela BASF no processo, a origem da companhia remonta a 2010, quando cientistas envolvidos em pesquisas sobre células solares orgânicas fizeram descobertas inesperadas que acabaram levando ao desenvolvimento de protótipos de câmeras tridimensionais.

A pesquisa abriu caminho para uma nova área de atuação, voltada ao sensoriamento em três dimensões e à análise de características físicas.

Em 2014, a BASF criou a trinamiX como uma subsidiária independente, com o objetivo de desenvolver tecnologias avançadas relacionadas à identificação, sensoriamento 3D e análise de materiais.

Desde então, a empresa ampliou sua carteira de propriedade intelectual.

De acordo com a denúncia apresentada à Justiça americana, a trinamiX possui mais de 800 patentes concedidas ou pendentes em diferentes países.

Esse patrimônio tecnológico é justamente um dos elementos centrais da ação contra a Apple. A empresa alemã afirma que sete dessas patentes foram violadas pela fabricante do iPhone.

Segurança facial é uma tecnologia cada vez mais importante

O reconhecimento facial deixou de ser apenas uma novidade tecnológica e passou a fazer parte da rotina de milhões de usuários.

Nos smartphones modernos, sistemas de autenticação biométrica são utilizados para desbloquear aparelhos, autorizar pagamentos, acessar aplicativos e confirmar diferentes operações.

Por isso, a segurança desses mecanismos se tornou uma questão fundamental para fabricantes e consumidores.

Um sistema baseado apenas em imagens poderia apresentar vulnerabilidades relativamente simples. Uma fotografia, por exemplo, poderia ser utilizada para tentar enganar determinados mecanismos de reconhecimento.

É nesse ponto que tecnologias de análise tridimensional e identificação de características da pele ganham importância.

A proposta é fazer com que o aparelho consiga diferenciar uma pessoa real de uma imagem ou objeto utilizado para tentar reproduzir o rosto de alguém.

Foi justamente nesse campo que a trinamiX afirma ter concentrado seus esforços durante anos.

Produtos citados no processo

A ação judicial menciona diferentes produtos da Apple que, segundo a trinamiX, utilizariam a tecnologia protegida pelas patentes.

Entre eles estão o iPhone 15, iPhone 16, iPhone 17 e iPad Pro.

A inclusão de diferentes gerações de aparelhos mostra que a disputa não está restrita a um único modelo ou a uma tecnologia isolada.

Caso a Justiça americana considere procedentes as alegações da empresa alemã, a decisão poderá ter consequências para produtos que já estão no mercado e também para futuras gerações de dispositivos.

No entanto, ainda não existe decisão judicial sobre o mérito da acusação.

O processo está em sua fase inicial, e a Apple terá oportunidade de apresentar sua defesa e contestar as alegações feitas pela trinamiX.

Apple movimenta valores bilionários com seus dispositivos

A dimensão financeira da disputa ajuda a explicar a importância do processo.

Entre o quarto trimestre de 2025 e o segundo trimestre de 2026, a Apple registrou US$ 196,5 bilhões em vendas de iPhones, valor equivalente a aproximadamente R$ 1 trilhão na conversão mencionada na denúncia.

No mesmo período, as vendas de iPads chegaram a US$ 21,7 bilhões, cerca de R$ 110 bilhões.

Os números mostram o tamanho do mercado diretamente relacionado aos produtos que utilizam tecnologias de autenticação biométrica.

Mesmo que a ação não tenha informado o valor exato da indenização pretendida, uma eventual decisão desfavorável à Apple poderia representar impacto financeiro e operacional relevante, dependendo do alcance das medidas determinadas pela Justiça.

Processo pode abrir uma nova disputa tecnológica

Processos envolvendo patentes são comuns no setor de tecnologia, especialmente em áreas nas quais diferentes empresas desenvolvem soluções semelhantes ou complementares.

Nesse ambiente, a propriedade intelectual pode representar um patrimônio tão importante quanto fábricas, equipamentos ou marcas.

Uma patente reconhece juridicamente uma determinada invenção ou solução tecnológica e pode permitir ao detentor impedir que terceiros utilizem aquela tecnologia sem autorização, dependendo das circunstâncias e do alcance da proteção.

No caso da trinamiX, a empresa argumenta que seus anos de pesquisa resultaram em tecnologias protegidas que teriam sido utilizadas pela Apple.

Agora, caberá à Justiça analisar documentos, registros de patentes, funcionamento dos sistemas e argumentos apresentados pelas duas partes para determinar se houve ou não violação.

Apple ainda não se manifestou

Até o momento da divulgação das informações sobre o processo, a Apple não havia respondido aos pedidos de comentários.

A ausência de manifestação inicial não significa concordância com as acusações. A empresa ainda poderá contestar formalmente a ação e apresentar sua própria interpretação sobre as tecnologias utilizadas nos dispositivos.

Em processos dessa natureza, uma eventual conclusão depende da análise judicial das patentes e das características técnicas dos produtos envolvidos.

Também é possível que as partes cheguem a um acordo antes de uma decisão definitiva, embora não haja indicação, neste momento, de que isso tenha ocorrido.

Uma disputa que pode afetar o futuro da biometria

A ação movida pela trinamiX contra a Apple coloca em evidência uma questão que vai muito além de uma disputa empresarial.

À medida que os dispositivos eletrônicos passam a depender cada vez mais de sistemas biométricos, a tecnologia utilizada para identificar pessoas se torna estratégica.

O consumidor quer desbloquear o aparelho rapidamente, mas também espera que ninguém consiga acessar seus dados utilizando uma fotografia ou uma reprodução artificial de seu rosto.

Esse equilíbrio entre praticidade e segurança é um dos grandes desafios da tecnologia atual.

A disputa entre a BASF, por meio da trinamiX, e a Apple poderá ajudar a definir como determinadas tecnologias de reconhecimento facial serão utilizadas no futuro e, principalmente, quem possui os direitos sobre soluções desenvolvidas ao longo de anos de pesquisa.

Por enquanto, o caso está apenas começando. A Justiça dos Estados Unidos ainda terá de analisar as alegações apresentadas pela trinamiX e ouvir a defesa da Apple.

O que está em jogo, além de uma possível indenização, é uma disputa sobre propriedade intelectual em uma área cada vez mais presente na vida cotidiana. Para milhões de usuários de iPhone e iPad, o reconhecimento facial é apenas uma função utilizada diariamente. Para as empresas envolvidas, porém, por trás de cada desbloqueio existe uma longa história de pesquisa, desenvolvimento, inovação e direitos sobre tecnologias que podem valer bilhões de dólares.