Aporofobia pode ser um dos temas que chamará a atenção dos estudantes na preparação para a redação do Enem. O conceito foi apresentado pelo professor Golbery Rodrigues, durante o quadro Hora das Letras, da Rádio Caturité FM, nesta terça-feira (8), como uma possível abordagem para a prova deste ano. O termo, ainda pouco conhecido por parte da população, está relacionado à aversão, rejeição ou discriminação contra pessoas pobres ou que vivem em situação de vulnerabilidade econômica.
A discussão ganha importância justamente por tratar de um problema social presente no cotidiano brasileiro. Para além do significado da palavra, a aporofobia permite discutir desigualdade, exclusão social, pobreza, acesso a direitos básicos e a forma como determinados grupos são tratados nos espaços públicos e privados.
Durante a aula, Golbery Rodrigues chamou a atenção dos estudantes para a necessidade de compreender o tema de maneira ampla. Segundo a abordagem apresentada pelo professor, não basta conhecer o conceito: é necessário conseguir relacioná-lo a situações concretas da sociedade e desenvolver argumentos capazes de sustentar uma reflexão crítica.
Uma das conexões apresentadas foi com a chamada arquitetura hostil, prática observada em diferentes espaços urbanos e que pode afetar principalmente pessoas em situação de rua.
São exemplos dessas estruturas bancos com divisórias, superfícies inclinadas, pedras instaladas em determinados locais e outros elementos que dificultam ou impedem que uma pessoa permaneça por muito tempo naquele espaço.
A arquitetura hostil abre espaço para uma discussão importante em uma possível redação do Enem: até que ponto a organização das cidades pode contribuir para a exclusão de determinados grupos?
Embora essas estruturas sejam muitas vezes justificadas sob argumentos relacionados à segurança, conservação ou organização dos espaços, elas também podem produzir efeitos sociais que precisam ser debatidos. Quando um espaço é planejado de maneira a impedir a permanência de pessoas vulneráveis, surge uma discussão sobre cidadania, dignidade humana e direito à cidade.
Para os estudantes, essa relação pode ajudar a transformar um conceito aparentemente distante em um argumento concreto. A aporofobia deixa, dessa forma, de ser apenas uma definição e passa a ser compreendida dentro de situações que fazem parte da realidade das cidades brasileiras.
Repertórios podem fortalecer a redação
Durante a aula, o professor também indicou repertórios que podem ser utilizados pelos candidatos para desenvolver uma argumentação sobre o assunto.
Entre os nomes apresentados está Max Weber, um dos principais pensadores da sociologia. A utilização de conceitos sociológicos pode ajudar o estudante a contextualizar fenômenos relacionados à organização da sociedade, às relações de poder e às desigualdades.
Outro repertório mencionado foi a obra “Capitães da Areia”, do escritor baiano Jorge Amado. Publicado em 1937, o romance apresenta a trajetória de um grupo de crianças e adolescentes em situação de abandono nas ruas de Salvador.
A obra pode estabelecer uma conexão importante com debates contemporâneos sobre pobreza, exclusão, infância, desigualdade e marginalização. Ao utilizar uma referência literária como essa, o candidato pode demonstrar que o problema da vulnerabilidade social não é recente e possui raízes históricas na formação da sociedade brasileira.
A Constituição Federal também aparece como uma importante fonte de repertório. O documento estabelece direitos fundamentais e princípios relacionados à dignidade da pessoa humana, à igualdade e à construção de uma sociedade comprometida com a redução das desigualdades.
Para uma redação sobre aporofobia, a Constituição pode contribuir principalmente para mostrar o contraste entre os direitos assegurados legalmente e situações de exclusão observadas no cotidiano.
O que é aporofobia?
O termo aporofobia foi criado pela filósofa espanhola Adela Cortina e deriva de palavras de origem grega relacionadas à pobreza e ao medo ou rejeição.
De maneira simplificada, aporofobia significa rejeição ou aversão às pessoas pobres. O conceito ajuda a diferenciar a discriminação econômica de outras formas de preconceito, mostrando que determinadas pessoas podem ser tratadas de maneira diferente simplesmente por sua condição socioeconômica.
A discussão também permite observar comportamentos que nem sempre são percebidos imediatamente como preconceituosos.
A exclusão de pessoas vulneráveis de determinados ambientes, o tratamento discriminatório, a criminalização da pobreza e a criação de barreiras para impedir a permanência de pessoas em situação de rua são exemplos que podem ser relacionados ao conceito.
No contexto brasileiro, o tema pode ser conectado a problemas estruturais como desigualdade de renda, falta de moradia, desemprego, insegurança alimentar e dificuldades de acesso a serviços públicos.
Por isso, uma proposta de redação envolvendo aporofobia poderia exigir do candidato muito mais do que uma definição do conceito. Seria necessário compreender suas causas, consequências e possíveis caminhos para enfrentar o problema.
Como transformar o repertório em argumento
Um dos maiores desafios da redação do Enem é evitar que referências apareçam apenas como citações decorativas. O estudante precisa demonstrar que compreende o repertório e consegue relacioná-lo diretamente ao tema.
No caso da aporofobia, mencionar “Capitães da Areia”, por exemplo, pode ser mais eficiente quando a obra é relacionada à vulnerabilidade de crianças e adolescentes e à maneira como pessoas pobres são historicamente marginalizadas.
Da mesma forma, citar a Constituição Federal ganha mais força quando o candidato estabelece uma relação entre os direitos garantidos pela legislação e a realidade enfrentada por grupos socialmente vulneráveis.
O mesmo princípio vale para Max Weber. O estudante deve utilizar o pensamento do sociólogo de maneira pertinente, conectando-o ao argumento que pretende desenvolver.
Essa capacidade de estabelecer relações é justamente o que pode diferenciar uma redação que apenas apresenta informações de outra que constrói uma argumentação consistente.
Possível tema não significa tema confirmado
Apesar da relevância da discussão apresentada pelo professor Golbery Rodrigues, é importante que os candidatos entendam que aporofobia é apenas uma possibilidade de tema, e não uma confirmação sobre o assunto que será escolhido pelo Enem.
O tema oficial da redação é definido pelos responsáveis pela elaboração da prova e somente será conhecido no momento adequado.
Por isso, estudantes não devem abandonar outros assuntos importantes na preparação. A melhor estratégia continua sendo ampliar o repertório sociocultural, acompanhar questões contemporâneas e treinar diferentes possibilidades de abordagem.
Ainda assim, conhecer conceitos como aporofobia pode representar uma vantagem. O Enem costuma exigir dos participantes a capacidade de analisar problemas sociais de forma crítica e apresentar uma proposta de intervenção que respeite os direitos humanos.
Nesse sentido, estudar temas relacionados à pobreza e à exclusão social pode ajudar não apenas em uma eventual proposta sobre aporofobia, mas também em diferentes assuntos ligados às desigualdades brasileiras.
Preparação exige atenção ao mundo real
A discussão levantada no Hora das Letras mostra uma característica importante da preparação para o Enem: estudar redação não significa apenas decorar estruturas de texto ou acumular citações.
É necessário observar a sociedade.
A arquitetura das cidades, a situação da população em situação de rua, as desigualdades econômicas, o acesso à educação e à saúde e o tratamento destinado às pessoas vulneráveis são questões que podem ajudar o estudante a construir uma visão mais ampla sobre o Brasil.
Caso a aporofobia apareça como tema de redação, os candidatos que tiverem desenvolvido esse olhar poderão encontrar diferentes caminhos para construir seus argumentos.
Enquanto o tema oficial não é conhecido, a orientação mais segura continua sendo estudar, praticar e ampliar o repertório. E, entre tantas possibilidades, compreender a aporofobia pode ser uma preparação relevante para quem deseja chegar ao dia da prova mais seguro e capaz de desenvolver uma redação crítica, coerente e bem fundamentada.














